Encontra-se já disponível o debate entre candidatos à presidência da Câmara de Odivelas gravado na manhã de 13 de setembro pelo projeto Conta Lá. Como é sabido, Hugo Martins decidiu não ir ao programa e manter a sua agenda habitual nesse dia, enquanto de Carlos Pires aparentemente ninguém ouviu falar. Assim, sentados da esquerda para a direita, Inês Pereira, Florentino Serranheira, Marco Pina, André Francisco e Fernando Pedroso foram moderados pelo jornalista Paulo Salvador num palacete situado algures em Oeiras. O modelo do debate, com perguntas diferentes feitas pelo moderador a cada candidato, exceto no final (quando Salvador interrogou os potenciais edis acerca da primeira medida que tomariam em caso de vitória), veio limitar o confronto, com os raros momentos de verdadeira discussão a ocorrerem quando os participantes contornaram o formato. Percebe-se a intenção de Salvador ao exigir aos candidatos a quantificação de todas as suas promessas, mas as sucessivas interrupções do moderador tornaram-se maçadoras e prejudicaram a vivacidade do debate.
Marco Pina sentiu muito a falta de Martins, de cujo rosto fez uma impressão 3D, sobretudo porque o candidato da AD tenta transformar estas eleições num duelo entre ambos para combater a dispersão de votos à direita. André Francisco foi o debatente que fez passar a sua mensagem de forma mais eficaz, Inês Pereira sentiu turbulência na sua viagem entre os objetivos e as medidas concretas da OCF e Florentino Serranheira, além de cometer uma gaffe ao referir a “Colina dos Cruzeiros”, deu a entender que muito do que a CDU pretende fazer esbarraria num Governo de cor diferente. Quanto a Fernando Pedroso, não há muito a dizer. Como se espera sempre dos candidatos do Chega que copiem o estilo de André Ventura, a postura mais sóbria (a questão da imigração não foi discutida) de Pedroso pode agradar a alguns eleitores indecisos. A nível temático, a direita mostrou-se unida na defesa de uma Polícia Municipal, solução que causa dúvidas à esquerda. André Francisco atacou a intenção das coligações esquerdistas de fazer a Malaposta regressar à gestão pública, destacando o sucesso comercial dos atuais espetáculos com estrelas da televisão no centro cultural. Apesar das suas limitações, o debate do Conta Lá veio preencher uma lacuna habitual nas campanhas odivelenses. Resta saber se Hugo Martins tomou a opção mais benéfica para os seus interesses ao preferir estar presente na inauguração da sede da Associação de Desportos de Combate Paulo Ferreira.
Com as obras no parque do Rio da Costa finalmente concluídas, os dois anfiteatros do espaço constituem, caso o tempo esteja de feição, locais valiosos para a organização de eventos culturais e políticos ao ar livre. Ao saber disso, a CDU resolveu apresentar a 26 de setembro o seu programa eleitoral no anfiteatro mais próximo do quartel dos Bombeiros Voluntários, em oposição à OCF, que duas semanas antes preferira ficar junto da saída para o Senhor Roubado. Tratou-se, até agora, da iniciativa da campanha comunista que atraiu mais pessoas, sentadas, naturalmente, do lado esquerdo do hemiciclo. O PCP só não contou com o sistema automático de rega, que entrou em funcionamento durante o discurso de Florentino Serranheira, obrigando o público a aglomerar-se, entre risos, junto ao orador no centro do anfiteatro. Antes dessa unidade forçada, assistiu-se durante cerca de uma hora a intervenções de candidatos da CDU à Câmara e às juntas, com Lara Morais a lançar-se num improviso particularmente infeliz. Os oradores abordaram os principais temas do programa da coligação, no qual se incluem causas exclusivas da CDU como a luta pela reversão das fusões de freguesias ocorridas em 2013 ou o desejo de pôr fim à concessão do complexo desportivo de Porto Pinheiro ao Sindicato dos Jogadores. O movimento associativo e os trabalhadores das autarquias são, mais uma vez, dois dos setores onde os comunistas buscam apoios com vista a uma governação assente numa “robusta parceria” entre autarcas e instituições locais. No caso da freguesia de Odivelas, a lista da CDU encabeçada por Dilar Pelica inclui, além dos jovens Alexandra Gonçalves, Daniel Ferreira e Rita Coelho, figuras da história da cidade como o escritor Arlindo Costa, Hélder Pontes, alma do Judo Clube de Odivelas, e António Pacheco, ex-presidente do Clube Atlético das Patameiras.
Discretamente, o Volt, que apresenta Carlos Pires quer como candidato a presidente da CMO quer como cabeça de lista em Ramada/Caneças (por sua vez, Alexandre Venâncio quer integrar a assembleia de freguesia de Odivelas), iniciou a sua campanha e divulgou um programa eleitoral sob o lema “Odivelas Mais Perto” e composto por “propostas já testadas em outras cidades da Europa”. De facto, o partido transnacional apresenta numerosas ideias para o município, mas o texto assemelha-se mais a um manual de boas práticas para autarcas do que a um programa político, escasseando ações específicas para “Assegurar que todos os habitantes em Odivelas têm os direitos básicos satisfeitos”. Embora saliente que o “crime violento” é pouco expressivo no concelho, o Volt admite criar uma Polícia Municipal para que a população se sinta mais segura. Ao nível da política cultural, os voltistas diferenciam-se ao proporem a criação no Mosteiro de Odivelas não do Museu Municipal imaginado por outros partidos mas de um “museu da idade média portuguesa” (sic), centrado sobretudo nos séculos XII a XIV, e procurarem complementar a Malaposta com “outros espaços adequados a espetáculos”, nomeadamente o Auditório Municipal da Póvoa de Santo Adrião, outrora conhecido por Cinema São José e há muito encerrado. Na verdade, o auditório povoense não poderá voltar a ser usado como sala de espetáculos por falta de condições de segurança, com a CDU a pretender criar aí um polo da Biblioteca Municipal D. Dinis, enquanto a OCF sugere utilizar o espaço para sede de coletividades. As memórias de infância da influencer voltista Mafalda Pires não serão suficientes para reinstalar um cinema na Póvoa.
A quase duas semanas das autárquicas, os cerca de 125 mil eleitores registados no município de Odivelas não pensam noutra coisa. Agora a sério, os pendões com os retratos dos candidatos às quatro juntas de freguesia já se encontram distribuídos pelos postes do concelho, apresentando, à exceção dos da coligação Odivelas com Futuro, cada potencial presidente da junta ao lado do cabeça de lista do seu partido à Câmara. Na união de Pontinha e Famões, a AD aposta em José Valverde (apenas “o Valverde” para os amigos), que ao longo dos seus 65 anos de vida somou experiências como o trabalho de gestor de contas na área comercial do Expresso ou o treino de equipas de futebol dos escalões de formação de vários clubes, entre eles o Odivelas e o Tenente Valdez. O lançamento oficial da candidatura de Valverde ocorreu a 24 de setembro no Salão Nobre da sede da JFPF, edifício ao lado de um dos muitos “espaços em remodelação” recentemente delimitados na Pontinha pela Junta que motivaram a ironia dos militantes do PSD enquanto estes aguardavam a chegada de Marco Pina. Depois da aparição do antigo árbitro de futebol, a multidão entrou no prédio e preencheu o salão para um evento iniciado com a projeção de um curto vídeo de promoção do antigo treinador. Na sua intervenção, José Valverde referiu propostas como a criação de brigadas de intervenção rápida para reparações na via pública, a melhoria dos transportes entre freguesias ou o regresso da antiga prova de atletismo Légua da Pontinha. Em seguida, os membros da lista da AD à Assembleia de Freguesia presentes na sala foram subindo ao palco em sucessivas levas.
A ascensão de Marco Pina à tribuna acalmou os ruídos de crianças, telemóveis e conversas em surdina que tinham acompanhado todo o discurso de Valverde. Pina recordou a formação escolar, religiosa e desportiva que recebeu na sua Pontinha natal, mas lamentou a contínua decadência desta. O próprio José Guerreiro, o já falecido antigo presidente socialista da Junta pontinhense, ficaria “bastante triste” se visse o estado atual da avenida com o seu nome, um dos principais acessos à localidade. Marco Pina lançou vários ataques pessoais a Hugo Martins, no qual vê um político quadrado sem uma visão estratégica a longo prazo para Odivelas. O vereador evocou um momento ocorrido horas antes na reunião da Câmara, quando, em resposta ao pedido de um novo parque infantil feito por uma moradora da Codivel, Martins destacou a impossibilidade de criar parques “à la carte” por todo o lado e afirmou que mandaria os serviços da CMO avaliarem o caso em questão. Para Marco, os pareceres desses serviços constituem um mero obstáculo burocrático à realização de obras, ao contrário do que acontece em Oeiras, onde os técnicos se limitam a cumprir a vontade de Isaltino Morais sem hesitações. Embora admita a inexistência em Odivelas de condições para um novo Tagus Park, Pina aponta Oeiras e Cascais como os principais modelos que seguirá caso assuma a liderança do município. Nessa circunstância, o político benfiquista atrairá médicos de família para os centros de saúde locais em parceria com o Governo e dotará as escolas odivelenses de mais auxiliares, em resposta aos relatos de um aumento da violência entre os alunos. Quanto à violência nas ruas, inexistente no “concelho das maravilhas” descrito por Martins com base numas estatísticas quaisquer mas denunciada pelas notícias dos jornais (sobretudo as do Correio da Manhã, pertencente ao grupo mediático no qual Pina trabalha), será reduzida pela vigilância permanente da futura Polícia Municipal. Uma Câmara dominada pela AD irá ainda construir habitação social para quem dela realmente precisa e não para quem “não quer trabalhar”. Tudo isso só será possível, lembra Marco, se as muitas pessoas que se queixam de tudo no Facebook deixarem a abstenção e forem votar no dia 12 de outubro. Marco Pina visa concentrar em si o voto dos descontentes com a gestão socialista, ignorando outros partidos à direita ou à esquerda.
Ao contrário da AD, Chega e Odivelas com Futuro já divulgaram na íntegra os seus programas eleitorais. O partido de extrema-direita reuniu num compacto os vídeos gravados por Fernando Pedroso nos últimos meses, enquanto a OCF, além de publicar online um documento que procurou não ser demasiado maçudo, apresentou os eixos do seu programa num direto no Instagram protagonizado por Inês Pereira, Luís Miguel Santos e Pedro Gonçalves (PAN). É curioso comparar as tão diferentes visões do mundo reveladas pelas propostas de OCF e Chega. A coligação leva o seu otimismo antropológico ao ponto de nunca duvidar de que existirá gente disponível para aderir às numerosas iniciativas comunitárias sugeridas. Com o Chega à frente da Câmara, os odivelenses de mal que não andem na linha serão severamente punidos. Os vários candidatos da OCF ligados ao setor da cultura projetaram um “festival intercultural” com a colaboração das associações de imigrantes. Pedroso sonha com um Family Pride e avisa que a única cultura protegida será a portuguesa. Os partidos unidos na frente de esquerda pretendem “ouvir os jovens” e “aprender com as pessoas” através de novos canais de comunicação entre munícipes e autarquias, ao passo que o Chega, a expressão do sentir do “cidadão comum”, parece já ter ouvido todas as opiniões necessárias.
Na verdade, OCF e Chega constituem as principais novidades destas eleições em Odivelas, se deixarmos de lado a estreia do Volt. Com uma ou outra mudança de caras, PS, AD, CDU e IL apresentam basicamente os mesmos projetos de 2021 e não parecem possuir grande margem de progressão em relação às votações de há quatro anos. Por seu turno, o improviso e amadorismo da campanha empreendida pelo Chega nas anteriores autárquicas nada têm a ver com os recursos utilizados pelo partido hoje em dia, para lá de todas as alterações no contexto político nacional das quais a formação de André Ventura beneficiou. Quanto à coligação de esquerda, que inclui os primeiros candidatos apresentados no concelho de Odivelas pelo Livre, revela vários traços inovadores e encontra melhores condições para o sucesso do que as de eventuais listas separadas dos partidos que a constituem. A ideia de uma aproximação dos autarcas à sociedade civil que vá além dos abraços dados por Hugo Martins a velhos e crianças já fora desenvolvida pela CDU, mas o modelo comunista assenta em contactos com a população mediados através do associativismo (IPSS, clubes, comissões de moradores, associações de estudantes, etc.) e dos seus dirigentes, enquanto a OCF parece buscar uma interação mais espontânea e inorgânica, adequada aos jovens que procura conquistar. Entretanto, o Chega tenta atrair os idosos com medidas como a remoção em seis meses dos obstáculos à circulação nos passeios de cidadãos com problemas de mobilidade. Se em 2021 PS, PSD e PCP mostraram dificuldades para alcançarem novos eleitores, os partidos mais recentes, com a relativa incógnita da IL, talvez consigam trazer às urnas odivelenses pouco habituados ao preenchimento dos três boletins.
Vários apoiantes do Chega costumam aplicar as expressões “Aldivelas” e “Indiavelas” para aludirem à presença em Odivelas de imigrantes asiáticos que ameaçam a “portugalidade” do concelho, ignorando que o nome da cidade já possui origem muçulmana, através do prefixo “Odi”, formado a partir da palavra utilizada na língua árabe para designar um rio ou outro curso de água. Quanto a “velas”, supõe-se que provém dos moinhos de vento caraterísticos da zona saloia, dos quais persistem exemplos na Arroja e em Famões, embora o filólogo José Pedro Machado tenha colocado a hipótese da origem do termo se encontrar no vocábulo pré-romano “belis” (“negro” ou “escuro”). Por seu turno, a proveniência dos diferentes topónimos existentes dentro do município é bastante heterogénea. Vários bairros surgiram a partir de aldeias frequentemente mencionadas nos registos paroquiais oitocentistas (Paiã, Arroja, Famões, Pombais, etc.), mas muitos herdaram a designação das quintas e “casais” cujos terrenos agrícolas foram ocupados por prédios e vivendas na segunda metade do século XX. Algumas das novas áreas habitacionais ficaram com os nomes escolhidos pelas suas construtoras (Codivel, Colinas do Cruzeiro), enquanto outras foram identificadas com base em entidades ligadas à edificação (Olaio, Gulbenkian). Houve casos, entre eles o do Bairro dos Cágados, erguido na antiga quinta da Barrosa, em que um nome de origem popular não registado nos mapas se impôs, enquanto algumas expressões oficiais nunca se generalizaram na linguagem do dia-a-dia, como o Bairro Dr. Lima Pimentel (quem?).
Vários espaços do centro histórico de Odivelas possuem nomes de origem perdida nas brumas do tempo, como as ruas do Neto, do Souto e da Fonte ou a Travessa das Cardosas. O crescimento urbano verificado no território do atual município entre as décadas de 50 e 60 colocou a Câmara de Loures perante numerosas ruas a precisarem de designações cuja escolha obedeceu aos critérios políticos do Estado Novo. Assim, enquanto decorria a Guerra Colonial, muitas artérias de Odivelas, Pontinha ou Olival Basto adotaram topónimos identificativos de regiões e cidades do império, das ilhas atlânticas a Timor, ou de homenagem aos “heróis” e “combatentes” do Ultramar. Nomes de santos e outras figuras oriundas do catolicismo também se tornaram comuns nas placas então colocadas nos novos prédios. Depois do 25 de Abril, escassearam as medidas de saneamento na toponímia, com Odivelas a manter até hoje uma Rua 28 de Maio e um Largo Marechal Carmona, mas, à medida que a expansão urbanística prosseguia, as autarquias introduziram, além de referências à data fundadora do regime democrático, nomes de antigas personalidades da oposição à ditadura. Alguns bairros especializaram-se em reis, atores, cantores ou escritores, com as denominações que substituíram as ruas A, B e C das áreas urbanas de génese ilegal a variarem conforme as circunstâncias locais.
Na transição do século XX para o XXI, espalharam-se novos nomes, como o de Aristides de Sousa Mendes, e as mulheres, até aí representadas na toponímia praticamente apenas por santas e rainhas, ganharam um espaço crescente que abrangeu também as escolas (por exemplo, o novo estabelecimento do 1.º ciclo criado na Amoreira será conhecido por Escola Maria de Lourdes Pintasilgo). Num fenómeno semelhante ao ocorrido em Sines com Vasco da Gama, o concelho explorou a marca D. Dinis e ao largo e à avenida com o nome do fundador do Mosteiro de Odivelas vieram juntar-se numerosos equipamentos públicos e estabelecimentos comerciais, além do parque em construção ao qual D. Dinis foi associado na sequência de uma votação online. Com o passar do tempo, a CMO procurou afastar-se das figuras homenageadas em todo o país e passou a evocar nomes menos óbvios e personalidades ligadas à história local, algumas delas ainda vivas no momento da distinção (Arnaldo Dias, Maria Máxima Vaz). O problema é que poucos cidadãos estudam a toponímia do lugar onde moram e, ao passarem por artérias como as dedicadas a Emília Charola ou Armando Carlos Ferreira, os odivelenses geralmente ignoram quem foram as pessoas identificadas nos arruamentos. Uma ideia útil para os programas eleitorais dos candidatos autárquicos seria a elaboração de livros ou sites periodicamente atualizados com informações sucintas sobre os locais, indivíduos e acontecimentos referidos nas placas toponímicas de cada freguesia. No caso da sede do município, bastaria renovar e desenvolver o importante trabalho de Manuela Ferreira Toponímia da Freguesia de Odivelas (2005), como a própria autora previu.
A definição dos nomes atribuídos a espaços públicos estava longe de ser uma das competências mais debatidas das autarquias até a coligação Odivelas com Futuro incluir no seu programa a proposta de atualizar quer a toponímia local quer as “representações simbólicas” do passado, em particular esculturas, de modo a obter “maior representatividade das mulheres e das minorias” e garantir “a descolonização e democratização” de ruas e jardins. Como vimos, as designações atribuídas a pedaços das cidades estão longe de serem neutras, traduzindo uma determinada orientação política e a escolha de celebrar elementos específicos da história de uma comunidade. Os programas comemorativos não são estáticos e acompanham a evolução do meio onde se inserem. Contudo, o que pretenderá a OCF fazer ao certo? Edificar outros monumentos? Alterar os nomes associados ao colonialismo com os quais o Estado Novo batizou várias ruas odivelenses? Homenagear figuras provenientes da comunidade islâmica ou de outras confissões religiosas presentes no município? Tudo isto é discutível, ao contrário do que o Chega provavelmente afirmará, mas importa clarificar os termos do debate. A título pessoal, qualquer iniciativa para reestruturar a memória do passado de acordo com uma determinada visão da história, por mais “justa” que seja, deixa-me receoso.
Referimos no texto anterior que Luís Miguel Santos afirmou na sua intervenção no comício de apresentação da coligação Odivelas com Futuro que a transmissão online das reuniões da Assembleia Municipal, defendida durante anos pelo Bloco de Esquerda, enfrentou resistências por parte do PS. Os problemas técnicos apontados pelos socialistas para adiarem a filmagem das reuniões seriam, de acordo com Santos, uma mera desculpa, e o facto das transmissões se terem concretizado logo no início da pandemia viera confirmar essa impressão. No entanto, o atual presidente da AMO, Miguel Cabrita, que se recandidata ao cargo, aproveitou a mensagem por si assinada no “Balanço de Mandato” publicado pelo PS para contradizer o relato bloquista, recordando que a transmissão das sessões “já estava em fase final de testes” no início de 2020 e só assim foi possível responder depressa às circunstâncias do confinamento. Exemplares da revista que descreve o trabalho dos autarcas socialistas, com anexos diferentes nas quatro freguesias a resumirem a atividade das respetivas juntas, abundam nas caixas de publicidade de prédios de todo o concelho. Apesar de Odivelas, a revista oficial da CMO, ter estabilizado a sua periodicidade trimestral durante o segundo mandato de Hugo Martins, o partido à frente da autarquia parece temer que muitos odivelenses desconheçam a obra feita pelos edis, dado que a escassez de órgãos locais de comunicação social não prejudica apenas a oposição. A ofensiva realizada pelo PS através da impressão e distribuição de milhares de cópias da sua versão da história de Odivelas no último quadriénio (quantas pessoas a lerão?) chama a atenção para as vantagens e desvantagens dos diferentes meios de propaganda utilizados pelos candidatos às eleições autárquicas.
O sufrágio autárquico costuma dar novo fôlego ao folheto, um suporte em progressivo declínio nas eleições nacionais mas bastante comum ao nível dos municípios e freguesias, quer pelo seu baixo custo quer pela necessidade de adaptar a propaganda às questões específicas de cada localidade. Os panfletos facilitam a divulgação dos nomes e caras dos membros das listas, reforçando as hipóteses do eleitor encontrar nelas alguém que conhece pessoalmente e, por via dessa proximidade, optar pela força política representada pelo indivíduo em causa. Distribuídos pelos partidos durante os “contactos com a população” ou introduzidos nas caixas de correio, os folhetos correm o risco de se misturarem com a publicidade de supermercados e outras empresas privadas, ignorada pela maioria dos moradores, e transformam-se frequentemente em lixo removido muito depois da votação. A produção de conteúdos políticos em formato físico parecia estar condenada pelas redes sociais, com uma grande interatividade e capacidade de difusão de mensagens. No entanto, as páginas dedicadas às concelhias dos partidos e às listas autárquicas atraem sobretudo militantes e outras personalidades convencidas à partida, o que gera um efeito de bolha pouco propício ao alargamento da base de apoio dos candidatos. Transmitir ideias através de conteúdos “apartidários” e descaracterizados implica uma estratégia de comunicação com memes, fake news, perfis falsos e publicações nos grupos mais frequentados que nem todas as forças partidárias possuem meios para financiar ou competência para executar. Há ainda os cartazes, meio privilegiado de popularização dos rostos dos potenciais autarcas. Como é sabido, os tradicionais cartazes azuis e brancos com a mensagem “Vota CDU” e o símbolo da coligação, afixados nos postes pelo PCP durante todas as campanhas, têm valido muitos votos aos comunistas devido ao seu efeito hipnótico que incute nos transeuntes o amor a Lenine. Os outros partidos, contudo, preferem apostar sobretudo em outdoors colocados nas rotundas e noutros pontos de elevado tráfego automóvel. Estes materiais de grandes dimensões alcançam públicos muito diversificados, mas, além de serem alvos frequentes de chacota, tornaram-se altamente impopulares por simbolizarem o elevado custo financeiro da democracia. Muitos cidadãos gostariam de ver nos seus concelhos ruas tão higienizadas e limpas de sinais da presença da política como as da Lisboa de Carlos Moedas.
(Fonte da imagem: Iniciativa Liberal Odivelas)
Em períodos como o atual, os candidatos saem à rua em busca do “cidadão comum”, das suas preocupações, dos dedos que podem riscar as cruzes definidoras do vencedor do ato eleitoral. Uma das formas de encontrá-los é ir a feiras e outros eventos ao ar livre, como o Festival da Marmelada Branca, e aí aliciar os munícipes com brindes. Claro que fazer campanha em feiras é coisa do século XX e seria bem mais útil aos ativistas posicionarem-se, por exemplo, nas entradas do Strada Outlet, em Odivelas, onde, ao contrário do que acontece no recinto descoberto do Silvado, poderiam contactar com o relevante segmento eleitoral dos menores de 70 anos. Porém, os centros comerciais são privados e qualquer ação de campanha teria de receber autorização das respetivas administrações, pelo que os candidatos lá têm de se sujeitar ao tradicional frete da feira. Outro procedimento habitual é a arruada, onde, nas eleições nacionais, os partidos conseguem rodear os candidatos de uma multidão de apoiantes que acompanha com entusiasmo cada passo do futuro líder do país. Já nas autárquicas, as comitivas partidárias incluem geralmente apenas meia dúzia de pessoas empunhando duas ou três bandeiras. A avaliar pelas imagens publicadas nas redes sociais, as arruadas servem sobretudo para os membros dessas comitivas se fotografarem a si próprios ou registarem a entrega de folhetos das suas candidaturas a pessoas que os olham com o mesmo grau de interesse reservado a vendedores de empresas de telecomunicações. No caso de Odivelas, a campanha de rua passa por frequentes visitas a bairros complicados como o do Barruncho. Todos os candidatos consideram o bairro de Allen Halloween uma vergonha (e é), mas ainda ninguém conseguiu realojar os moradores da favela situada num terreno pertencente a João Maria Bravo, descendente de António Maria Bravo e um dos principais financiadores do Chega.
Talvez a campanha mais eficaz seja aquela que é feita muito tempo antes da marcação das eleições. No passado dia 13 de setembro, foi gravado o debate entre os candidatos à presidência da Câmara de Odivelas organizado pelo projeto Conta Lá, brevemente disponível na televisão e no You Tube. Estiveram presentes todos os cabeças de lista, à exceção de Carlos Pires (Volt) e Hugo Martins, simbolizado por uma figura de cartão colocada à esquerda da cadeira de Marco Pina. A ausência no debate do presidente em funções motivou críticas duras dos seus opositores, mas Hugo contrapôs que nesse sábado esteve, como de costume, “ao lado dos Odivelenses”, ao comparecer em vários eventos religiosos e desportivos, entre eles a inauguração da sede da Associação de Desportos de Combate Paulo Ferreira, nos Pedernais. De facto, Martins tem sido presença e orador habitual em competições desportivas, em festas de clubes e outras associações e em cerimónias religiosas, incluindo, para horror do Chega, eventos não cristãos. Embora a roda-viva do autarca se justifique pelas suas funções, o contacto com organizações da “sociedade civil” constitui uma oportunidade para o presidente da CMO ser visto, falar com dirigentes e praticantes, ouvir as queixas destes e divulgar a atividade da Câmara. Em suma, para familiarizar os cidadãos com a sua figura, enquanto os outros candidatos só ganham notoriedade local durante o mês que antecede as autárquicas. No caso de Marco Pina, injustamente ou não, os seus conterrâneos conhecem melhor o comentador televisivo que o vereador. A vantagem conferida a Hugo Martins por 10 anos no lugar a que se recandidata pode, mesmo assim, ser relativizada num concelho onde no final de 2024, segundo a Pordata, moravam 156 278 pessoas (mais 7157 que três anos antes). A maior parte delas nunca se terá cruzado com Hugo ou ouvido os discursos do povoense nas festas de aniversário de clubes como o GROB. Nenhum método de campanha se revela, portanto, infalível, com o resultado da eleição a depender da soma de fatores ainda desconhecidos.
O Parque Urbano do Rio da Costa, localizado à esquerda de quem entra em Odivelas através do Senhor Roubado, registou há pouco tempo obras de remodelação que incluíram a criação de dois anfiteatros, esteticamente excelentes mas onde baias e faixas limitam hoje a circulação de pessoas devido aos riscos de queda causados por uma falha na construção. A coligação Odivelas com Futuro (OCF) teve, portanto, de recorrer a cadeiras para sentar o público da apresentação das listas conjuntas de PAN, Livre e Bloco de Esquerda às autarquias do município, ocorrida ao final da tarde de 10 de setembro. O evento, protegido por dois agentes da PSP (terá havido alguma ameaça?), começou com meia hora de atraso por causa da espera pela chegada de dirigentes nacionais dos três partidos: Inês Sousa Real, Fabian Figueiredo e Isabel Mendes Lopes. Enquanto os frequentadores do parque corriam ou passeavam os seus cães, Fabian, Isabel e Inês criticaram a indiferença de Paulo Rangel em relação à flotilha humanitária com destino a Gaza e aos ataques sofridos pelos navegantes, com o bloquista a ser particularmente vocal na denúncia de notícias falsas divulgadas por políticos da IL e do Chega. A propósito de um talho que conseguia ver do púlpito, Sousa Real condenou a manutenção do transporte de animais vivos de Portugal para Israel.
Seguiram-se as intervenções dos candidatos da OCF, com Luís Miguel Santos a recuar no tempo para lembrar a luta do Bloco por melhores condições de trabalho para os deputados à Assembleia Municipal e pela transmissão online das sessões da AMO, que o PS teria recusado com base em “questões técnicas”, resolvidas logo que a pandemia começou. A nova coligação tentará conseguir que as reuniões das assembleias de freguesia também sejam filmadas, além de reforçar a transparência das autarquias e os contactos destas com os cidadãos. Ana Maria Ribeirinho resumiu a atividade do PAN na AMO e agradeceu o apoio de Inês Sousa Real, demarcando-se assim da oposição interna à líder partidária. Finalmente, a dirigente do ainda embrionário núcleo do Livre em Odivelas, Inês Pereira, proferiu um discurso no qual revelou, até pelo contraste com os atuais ou antigos deputados que a antecederam na tribuna, estar ainda pouco tarimbada na oratória política. Apesar disso, a OCF definiu o objetivo de eleger Pereira como vereadora (desde 2001, o Bloco nunca integrou o executivo municipal) e expandir a presença dos partidos coligados nos parlamentos do concelho e das freguesias. A possibilidade da frente de esquerda, que será identificada nos boletins de voto pela sigla BE-L-PAN, atingir essa fasquia constitui uma das incógnitas das eleições odivelenses.
Ao mesmo tempo, no Pavilhão Multiusos, o PS reunia-se para cantar “Hugo, Hugo, Hugo, és a nossa glória”. A apresentação da terceira candidatura de Hugo Martins à presidência da Câmara de Odivelas começou por estar marcada para a Escola Básica do Mosteiro, uma das obras emblemáticas do mandato iniciado em 2021, mas a previsão de uma elevada assistência levou à transferência da cerimónia para uma sala do Multiusos. O secretário-geral socialista, José Luís Carneiro, veio mostrar o seu apoio a Martins, com quem contactou enquanto ministro durante o ainda inacabado processo de criação da Divisão Policial de Odivelas, antes de em dezembro de 2023 a secção odivelense do PS votar em força em Pedro Nuno Santos nas diretas, com Susana Amador a ser uma das poucas figuras locais a optar por Carneiro. Devido a cortes orçamentais, a nossa redação compõe-se de apenas uma pessoa, pelo que não pudemos acompanhar presencialmente a festa socialista. Contudo, os vídeos e fotografias do comício deixam claro que o arranque da recandidatura de Hugo Martins juntou a maior multidão verificada até agora num evento da campanha autárquica de 2025 em Odivelas, confirmando a capacidade de mobilização do PS concelhio. Se isso é um sinal de uma futura nova maioria absoluta, ninguém sabe ao certo. Para já, os munícipes ficam a par do trabalho desenvolvido pelos autarcas socialistas através de revistas (“Balanço de Mandato”) já disponíveis em PDF e cuja edição impressa será distribuída em breve. Numa fase posterior, conhecer-se-ão as ideias do PS para o próximo quadriénio, entre elas o museu municipal e outros serviços a estabelecer nos antigos edifícios do Instituto de Odivelas.
Além de ter servido de centro de vacinação em 2021 e de acolher numerosas competições desportivas apoiadas pela CMO, o Pavilhão Multiusos encontra-se rodeado por vários marcos da década huguista, como a EB1 do Mosteiro, o complexo do Porto Pinheiro, o Parque Multidesportivo Naide Gomes ou o pavilhão erguido na escola dos Pombais, estabelecimento atualmente a sofrer obras de renovação. O lançamento da campanha socialista naquele local parece confirmar a queixa comum nas redes sociais de que a Câmara “só liga às Colinas do Cruzeiro”, bairro considerado o equivalente odivelense da Foz, da Lapa ou do Parque das Nações, embora os colinenses também tenham as suas queixas. As Colinas, símbolo da faceta mais dinâmica do concelho e área privilegiada de especulação imobiliária, olham para baixo e veem uma Odivelas “velha” (centro histórico, Bairro Olaio, Bairro Espírito Santo, etc.) que tende hoje em dia a ser habitada sobretudo por idosos vindos para a cidade há muitos anos e por imigrantes acabados de chegar. Os primeiros têm formado uma base tradicional de apoio do PS, mas o receio neles causado pelos segundos e estimulado pelo Chega pode alterar as contas. A nível nacional, as eleições autárquicas surgem para a esquerda, após a hecatombe das legislativas, como uma oportunidade para contra-atacar ou pelo menos defender as posições outrora conquistadas. No entanto, o PCP e os partidos que em Odivelas se unem na OCF apresentam um discurso embebido na sensação de ir a custo contra a corrente dos “tempos muito estranhos” descritos por Isabel Mendes Lopes, enquanto o PS está associado nos concelhos que governa ao status quo, o “socialismo” que a direita em ascensão pretende dissolver. O sufrágio de daqui a um mês dará um novo fôlego às esquerdas ou confirmará o refluxo destas? Quer em Odivelas quer no resto do país, a decisão pertence aos eleitores.
O rápido crescimento urbano e demográfico dos arredores de Lisboa entre as décadas de 50 e 70 do século XX apanhou de surpresa as autarquias, incapazes de fornecerem os serviços e equipamentos necessários às dezenas de milhares de novos habitantes dos respetivos concelhos. Entre muitas outras carências, Loures e outros municípios não dispunham de espaços para a prática desportiva adequados a uma população jovem que começou a formar novos clubes. Ainda assim, Luís Demony, o último presidente da Câmara de Loures nomeado pelo Estado Novo, promoveu a construção de um polidesportivo na Praça de S. Bartolomeu, na Pontinha, e lançou o projeto do futuro estádio de Odivelas, a erguer num terreno da Quinta do Porto Pinheiro, junto aos Pombais, e que integraria um vasto conjunto de estruturas desportivas. No entanto, o 25 de Abril interrompeu as obras do estádio quando apenas existia um espaço terraplanado (o chamado “Campo do Palácio”, utilizado pela população para desporto informal) e apenas três décadas mais tarde o complexo desportivo, agora rodeado pelo novo bairro das Colinas do Cruzeiro, seria concretizado e entregue ao Odivelas FC. Entretanto, depois dos esboços de políticas de democratização do desporto elaborados a partir de 1974, Severiano Falcão, Demétrio Alves e outros autarcas comunistas de Loures realizaram nas décadas de 80 e 90 um forte investimento na criação de infraestruturas como as piscinas municipais de Odivelas, o complexo da Póvoa de Santo Adrião e uma vasta rede de “ringues”, ou seja, polidesportivos descobertos espalhados pelos diferentes bairros do território. A Câmara lourense estabeleceu ainda uma relação próxima com os clubes (falta estudar em que medida as ligações de muitos dirigentes associativos ao PCP para isso contribuíram), concedendo-lhes formação, subsídios e a oportunidade de competirem em iniciativas municipais, das quais se destacavam os Jogos da Paz e a Corrida das Coletividades.
Desde 1998, no concelho de Odivelas, os executivos socialistas de Manuel Varges, Susana Amador e Hugo Martins partilharam no essencial uma nova política desportiva. Por um lado, apostou-se na construção nos estabelecimentos de ensino básico e secundário de pavilhões aptos a serem utilizados pelos clubes locais. Por outro, ergueram-se estruturas de grande dimensão, nomeadamente o Pavilhão Multiusos de Odivelas e o Pavilhão Susana Barroso, no Casal do Rato (Pontinha), com o propósito de acolher eventos desportivos nacionais e internacionais que dariam projeção ao nome de Odivelas e beneficiariam o comércio local. De facto, o Multiusos tornou-se palco de desafios das seleções portuguesas de várias modalidades e tem acolhido numerosas competições de desportos de combate como judo, jiu-jitsu e kickboxing. Simultaneamente, os aparelhos para ginástica ao ar livre (street workout, se preferirem) colocados na Praça de S. Bartolomeu, no Parque Multidesportivo Naide Gomes e noutros espaços do concelho revelam uma adaptação à tendência para uma prática desportiva mais individualizada, sem o tradicional enquadramento clubístico. Em 2020, Odivelas foi Cidade Europeia do Desporto e, apesar da pandemia ter impedido grande parte dos eventos previstos, o estatuto então obtido representou a consagração da política desportiva socialista, à qual apenas a CDU apresentou uma verdadeira alternativa, com um modelo “basista” semelhante ao do final do século passado e avesso a parcerias da Câmara com privados. Os comunistas criticaram, por exemplo, a concessão ao Sindicato dos Jogadores dos campos de futebol nas Colinas do Cruzeiro, cuja posse a CMO assumiu após a insolvência do Odivelas FC e a demolição do Estádio Arnaldo Dias. O ainda hoje mal esclarecido processo de desaparecimento do emblema rubro-negro e a transformação do complexo do Porto Pinheiro no Campus do Jogador, inaugurado em fevereiro de 2022, converteram Amador e Martins em personae non gratae para muitos antigos sócios do OFC.
(Espaldar na Praça de S. Bartolomeu)
O desporto tem sido referido nos programas divulgados aquando das eleições autárquicas, embora os partidos não costumem ir muito além da promessa obrigatória de auxiliar financeiramente as coletividades. Já são conhecidas algumas das propostas na área desportiva apresentadas em 2025 por várias candidaturas. A CDU mantém o seu objetivo de reverter a parceria estabelecida com o sindicato de Joaquim Evangelista e disponibilizar aos clubes e populações locais o uso dos campos do Porto Pinheiro, além de procurar revitalizar os antigos ringues de bairro deixados ao abandono. Por seu turno, Marco Pina anunciou querer criar uma piscina municipal na Ramada, aproveitando um projeto deixado na gaveta pela CMO desde os primeiros anos do município. Além de “Prever a construção” de piscinas públicas nas freguesias que delas não dispõem, o programa da Iniciativa Liberal visa estimular o uso da bicicleta através de uma rede de “vias ciclopedonais” e realizar obras nos equipamentos de clubes como o GCO e o Tenente Valdez. Já o Chega promete reforçar o apoio aos clubes, mas numa lógica mais desconfiada, com vários mecanismos de controlo para evitar “amiguismo” ou favorecimentos políticos na concessão de subsídios. Fernando Pedroso sugere ainda um espaço dedicado à prática de padel e deseja tornar reais complexos desportivos prometidos pelo PS mas nunca concretizados, em particular o do bairro do Jardim da Amoreira (Ramada).
A “desinformação” acerca do equipamento a criar no Jardim da Amoreira levou Hugo Martins a publicar nas redes sociais um texto semelhante àquele que o autarca escreveu em 2021 para explicar porque as obras no centro histórico de Odivelas não tinham ficado prontas antes das eleições desse ano. Recorde-se que o futuro complexo desportivo da Amoreira foi anunciado em 2020 e criticado pela CDU devido ao facto de se prever a sua construção e exploração por privados, sem intervenção direta da Câmara além da cedência do terreno. Martins enumerou as vicissitudes, entre elas a contestação judicial do primeiro concurso e a recusa pela CMO de duas propostas arquitetónicas da empresa vencedora, que retardaram o avanço das obras, mas manifestou-se convicto de que em meados de 2027 o complexo com três piscinas e o parque urbano a ele adjacente estarão concluídos. Em resposta, Fernando Pedroso salientou que ao fim de cinco anos de promessas ainda nada existe no espaço destinado a uma infraestrutura desportiva privada “onde os cidadãos terão de abrir a carteira” para usarem o ginásio e as piscinas. É curioso assistir a este debate digital, bastante comentado por apoiantes e opositores dos dois candidatos, em torno de uma questão ligada ao tema do desporto, habitualmente secundário nas campanhas autárquicas. Também é interessante que Pedroso se apresente como interlocutor direto de Martins, enquanto Marco Pina está ausente da discussão. Num concelho onde, segundo os dados do “balanço de mandato” do PS, encontram-se ativos 55 clubes e 9434 atletas federados praticam 43 modalidades, o desporto assume uma relevância social crescente. Os potenciais autarcas já não podem passar ao lado da importância política que o fenómeno desportivo ganhou na terra de Nelson Évora.