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O senhor Orlando

O comerciante Orlando Serra nasceu em 1946 numa aldeia a poucos quilómetros de Figueiró dos Vinhos onde numerosas gerações da sua família tinham já vivido. Os seus pais, Vicente e Isaura, acumulavam o trabalho de pequenos proprietários agrícolas, comum aos restantes aldeões, com a exploração de uma taberna no piso térreo da casa na qual moravam. Isaura Serra, um autêntico símbolo daquilo a que muitos anos mais tarde se chamaria “empreendedorismo”, nunca entrara numa escola, mas aprendera a ler e escrever em casa, à luz de um candeeiro a petróleo e com a ajuda dos irmãos do sexo masculino, aos quais estava reservado o privilégio do acesso à educação. Filho único, o pequeno “Lando” recebia os mimos da avó Carolina e de outras mulheres da aldeia, mencionadas sempre com a partícula “ti” antes do nome (“ti Idalina”, por exemplo). Orlando fez a 4.ª classe numa escola longínqua à qual tinha de se deslocar a pé e viveu uma infância sem grandes preocupações até à morte prematura do seu pai em dezembro de 1957. Enquanto Isaura defrontava os encargos resultantes da viuvez, chegaram de férias à aldeia David e Augusto, dois tios de Orlando que, à semelhança de outros conterrâneos, se tinham radicado em Moçambique. A família avaliou a situação, concluindo que a melhor opção seria que o rapaz agora órfão de pai embarcasse com tios e primos no navio Império, que atingiu em 10 de fevereiro de 1959 o porto da Beira. A partir daí, os Serra seguiram para a pequena vila de Inhaminga, situada na circunscrição de Cheringoma, no centro de Moçambique, colónia cujo Governo-Geral autorizara em 1958 que David e Augusto ocupassem um terreno em Inhaminga e explorassem, através da empresa A Figueiroense, uma “casa de pasto para indígenas” na povoação, dedicada à venda dos mais diversos produtos.

A vida dos europeus fixados em Inhaminga girava sobretudo à volta das serrações que trabalhavam as madeiras valiosas da região e da linha de caminho-de-ferro propriedade da empresa Trans-Zambezia Railways. Ligados à TZR estavam serviços como o hospital no qual trabalhava Mário Stromp, o médico responsável pelos partos das mulheres locais e por resolver os problemas de saúde de Orlando Serra e dos restantes moradores da vila. O doutor Stromp, irmão mais novo de António e Francisco Stromp, figuras fundamentais das primeiras décadas de vida do Sporting, dera o nome de Quinta do Lumiar à fazenda onde vivia com a segunda mulher, Françoise Stromp, e mantinha um pequeno jardim zoológico. Nos anos 60, existiam já em Inhaminga diversões como cinema, bailes e atividades desportivas, mas Orlando Serra passou atrás do balcão da Figueiroense a maior parte da sua juventude, à exceção do período do serviço militar, cumprido num batalhão de transmissões. Nos poucos tempos livres, ouvia discos vindos da Beira com gravações divididas entre o fado, o “nacional-cançonetismo” e os primeiros grupos pop/rock portugueses. A independência de Moçambique, proclamada em 25 de junho de 1975, levaria quase todos os Serra estabelecidos na antiga colónia a regressarem à terra natal. Ao contrário de outros retornados, Orlando tinha uma mãe, uma casa e uma aldeia à sua espera. No entanto, enquanto a democracia se consolidava em Portugal, o jovem sentia que a sua vida estagnava, depois de vários projetos falhados. Surgiria uma oportunidade nos arredores de Lisboa, mais precisamente em Odivelas. Por contrato de 19 de novembro de 1979, Orlando e o seu tio David tornaram-se os novos proprietários da churrasqueira Odimar, situada na então Rua D. Dinis. O nome do estabelecimento fora criado pelo anterior dono a partir das primeiras letras dos nomes dos filhos, mas levaria nas décadas seguintes muitas pessoas a questionarem-se acerca do que teria o mar a ver com frangos assados. O espaço da loja era composto pela área de atendimento ao público, no rés-do-chão, e por uma cave que serviria de armazém e residência de Orlando e Marta, a figueiroense natural de outra aldeia com quem o comerciante casou em março de 1980. No campo, Isaura Serra ficava novamente sozinha, apesar do filho comunicar com ela por carta e, muito mais tarde, por telefone.

 

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Na década de 80, as churrasqueiras eram, a par dos clubes de vídeo, o negócio na moda dentro do pequeno comércio urbano. Além dos frangos assados na grelha, a Odimar vendia acompanhamentos como pão, azeitonas, batata frita de pacote e, ao nível das bebidas, cerveja, refrigerantes e numerosas marcas de vinho. Talvez inspirados pelos tempos da Figueiroense, os donos comercializavam também fósforos, papas Cerelac e outros produtos improváveis. O certo é que a churrasqueira alcançou o sucesso, permitindo a Orlando comprar a quota do tio e mudar-se com Marta e os dois filhos para um prédio recém-construído perto da loja. Enquanto do outro lado da rua o cinema do centro comercial Oceano exibia filmes como Batman, longas filas dirigiam-se à porta da Odimar, aberta 364 dias por ano (o Natal era a única exceção) até a velhice forçar Orlando Serra ao descanso semanal. Os odivelenses afluíam, atraídos pela qualidade do frango, mas também pela simpatia do dono, que a todos inquiria acerca do quotidiano e se interessava pelas vidas dos clientes. Muitos miúdos, entre eles o ator Zé Pedro Vasconcelos, cresceram a ir com os pais buscar frango à loja do senhor Orlando, como todos o conheciam. Ao longo das décadas, o pessoal da Odimar incluiu também outros retornados, imigrantes ucranianos e, posteriormente, empregados brasileiros. No entanto, o grande motor do projeto foi sempre Orlando Serra, que, sem interesse pelo futebol nem prática religiosa frequente, dedicava-se apenas à família e ao trabalho, ao mesmo tempo que criava uma verdadeira rede social formada por numerosas pessoas que paravam para o saudar ou conversar com ele durante os trajetos do comerciante por Odivelas.

Os anos foram passando e, à medida que muitos estabelecimentos da agora Avenida D. Dinis encerravam ou mudavam de ramo, a Odimar tornava-se uma das lojas mais antigas da cidade. Apesar dos abalos da morte da mãe (em 2002) e da mulher (2013), Orlando Serra envelheceu sem abrandar o ritmo de trabalho nos seis dias úteis, mesmo ouvindo abundantes recomendações no sentido oposto. O setor de atividade da Odimar foi mudando, com outras churrasqueiras a assarem várias carnes além do frango enquanto forneciam arroz e batatas pré-cozinhados. Sem espaço nem paciência para investir na modernização da grelha, Orlando limitou-se aos frangos à medida que a clientela da loja encolhia e envelhecia, com o negócio a sobreviver graças à fidelização de muitas famílias, representadas pelos pais agora idosos ou pelos filhos destes, que contavam frequentemente ao patrão da Odimar histórias de demências. No espaço comercial ao lado, o antigo café deu lugar a uma mercearia de imigrantes industânicos, com os quais Serra convivia sem problemas. Com o avançar da idade do lojista, foram aparecendo os netos, as doenças e a crença de que tudo o que aparece no Facebook é verdade. Ainda assim, ao fim de 46 anos, o senhor Orlando continua na churrasqueira, sempre simpático e prestável. Para os clientes, entrar na Odimar e não encontrar o meu pai seria igual a ver o Sol a brilhar de noite.

Odivelas 2025: ainda mal começou

No Pavilhão Municipal de Odivelas, por volta das 17.15 de 12 de outubro, tudo estava tranquilo, demasiado tranquilo até. Um membro de uma das mesas de voto comentava que deveriam estar muito abaixo da média nacional de participação nas eleições autárquicas então divulgada. Ali perto, junto das entradas da EB Maria Lamas, a placidez era idêntica. À exceção da abundância de casais de idosos que percorriam as ruas com destino aos locais de votação, nada distinguia aquela tarde de domingo de muitas outras na cidade. Durante a contagem dos votos, manteve-se a quietude, até que cerca das 23 horas se ouviu o som de fogo de artifício, certamente lançado pelo PS. Em breve, o partido agradecia aos odivelenses nas redes sociais por mais uma vitória nas eleições para a Câmara Municipal, a Assembleia Municipal e as quatro juntas de freguesia do concelho, com Hugo Martins e os restantes autarcas socialistas a manifestarem a sua gratidão pela “confiança”. No dia seguinte, enquanto alguns cartazes do PS eram removidos das rotundas (os pendões colocados nos postes devem permanecer mais tempo), Marco Pina alterava simbolicamente a sua fotografia de perfil no Facebook, retirando o candidato a presidente da CMO e repondo o comentador da CMTV. A vida em Odivelas seguia sob a eterna liderança socialista, quem se opunha continuava a opor-se e nada de relevante parecia ter mudado.

 

E, no entanto, verificou-se a maior transformação ocorrida na história autárquica do município criado em 1998. Vencedor do escrutínio para a Câmara, o PS obteve mais 851 votos do que em 2021, num cenário em que a abstenção baixou de 56,58% para 49,34%, um valor semelhante ao de outros concelhos do distrito de Lisboa. Contudo, em percentagem, os socialistas caíram de 44,84% para 40,20% e perderam um mandato no executivo municipal, onde se encontram agora Hugo Martins e mais quatro vereadores. Assim, a maioria absoluta esvaiu-se, já que os restantes seis lugares na CMO foram repartidos pela AD, que manteve as suas três cadeiras, e pelo Chega. Há quatro anos, os cheguistas receberam 4795 votos que tornaram vereador Nuno Beirão, já remetido ao esquecimento eterno. Em 2025, 14 126 pessoas (22,23% do total de votantes) optaram pelo Chega, dando a Fernando Pedroso, Rute Monteiro e Duarte Vieira assento nas reuniões da Câmara. Com mais 974 cruzes que a AD, o partido de André Ventura foi a segunda força mais votada em todo o município. Nas assembleias de freguesia, agora sem qualquer maioria absoluta socialista, os eleitos cheguistas possuem uma força determinante. Tanto Hugo Martins como Marco Pina subiram a sua votação face a 2021, pelo que os indivíduos que triplicaram o resultado do Chega terão nascido sobretudo da descida da abstenção e dos votos brancos e nulos. Seja devido à xenofobia ou a outra motivação, muitos odivelenses saíram do típico sofá dominical após encontrarem finalmente uma candidatura que os representa. No concelho vizinho de Loures, o cenário foi semelhante, mas aí Ricardo Leão garantiu o número mágico de seis mandatos.

 

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(Prédio da sede do PS em Odivelas)

 

Devido às elevadas expetativas criadas pelo resultado das legislativas de maio, as apenas três presidências de Câmara alcançadas pelo Chega foram consideradas um fiasco. Há que ter em conta, porém, que a formação de extrema-direita, com uma base de apoio cada vez mais consolidada que, nos subúrbios de Lisboa ou na península de Setúbal, corresponde a cerca de um quinto do eleitorado, regista ainda altos níveis de rejeição, com numerosas pessoas a recusarem votar no Chega seja qual for o candidato deste. É possível contornar essa barreira nas legislativas e na primeira volta das presidenciais, mas nas autárquicas, quando só o primeiro lugar conduz à vitória, o antifascismo ainda é um obstáculo difícil de superar pelo partido fundado em 2019. A subida dos números de vereadores, deputados municipais e membros das assembleias de freguesia garante, mesmo assim, uma expansão do universo cheguista e uma crescente influência do partido na vida das autarquias. Como o espaço político é limitado, alguém tem de sair enquanto o Chega ergue o seu lar. De facto, o quarto lugar da CDU em Loures, município no qual os comunistas passaram do triunfo em 2017 para apenas um vereador oito anos depois, e em Odivelas, onde pela primeira vez nenhum militante do PCP integra o elenco camarário, marca o final de um ciclo histórico. Por seu turno, a OCF conseguiu eleger o deputado municipal Luís Miguel Santos e introduzir Bruno Moreira na assembleia de freguesia de Odivelas, mas o resultado da coligação, inferior à soma dos votos recolhidos por BE e PAN no anterior sufrágio autárquico, revela um claro fracasso da frente que incluiu ainda o Livre. No que respeita à IL, parece confirmar-se que as autárquicas não são a praia dos liberais, limitados a um deputado quer na AMO quer em duas freguesias, enquanto o Volt viu Carlos Pires captar 0,41% do total de boletins válidos.

 

A correlação de forças originada pelas eleições obriga o PS a negociar com o PSD, a quem será provavelmente oferecido, como acontecia antes do período das maiorias absolutas, um pelouro através do qual um vereador “laranja” possa influenciar a governação municipal. No entanto, ainda é incerto, tanto em Odivelas como noutros concelhos, até que ponto um Chega fortalecido poderá marcar a agenda autárquica local e dar visibilidade à sua agenda anti-imigração. Além de revelarem até que ponto a filosofia do partido venturista foi acolhida por muitos odivelenses, os resultados de 12 de outubro apontam para um curioso bloqueio político. Assim, apesar de dispor de apoiantes fiéis que lhe têm garantido em sucessivas eleições mais de 20 mil votos e o domínio da Câmara, o PS possui uma margem de progressão muito estreita e, mais cedo ou mais tarde, o povo socialista começará a encolher. Por sua vez, o PSD mostra-se incapaz de seduzir a população e concentrar o voto dos descontentes, embora não sofra perdas significativas. O Chega é o único partido que sai destas autárquicas com um sorriso rasgado, mas será muito difícil em eleições futuras conseguir roubar eleitores a PS e PSD ao ponto de obter as chaves da Quinta da Memória. Quanto aos partidos à esquerda dos socialistas, atualmente pouco contam para este jogo e não detêm hipóteses de ressurgimento a curto prazo. As várias forças políticas estão, portanto, tolhidas por limitações à sua expansão, num equilíbrio favorável à eternização dos autarcas socialistas, ainda que menos à vontade que no passado. Em teoria, a via para uma transformação política no concelho seria uma coligação pré-eleitoral entre o PSD e o Chega. Na prática, tal hipótese parece ainda difícil de concretizar, sobretudo porque os venturistas nunca abdicariam de escolher o eventual candidato à presidência da Câmara. Desce o pano das eleições e pouco parece ter mudado, mas a batalha pela alma de Odivelas, essa, ainda mal começou.

Odivelas 2025: e aqui estamos

Vai findando a tarde de 10 de outubro no Jardim da Música (Odivelas), marcado por uma pacatez apenas quebrada pelos gritos dos rapazes que jogam à bola no retângulo junto ao lago seco e pela conversa na esplanada do café do Centro de Exposições. Algumas pessoas namoram ou passeiam os cães no parque inaugurado em 2009 por Susana Amador no local do antigo Campo Diogo José Gomes. Sente-se uma temperatura típica do Verão, mas o horário é agora de Outono e já anoiteceu quando arranca o evento que encerra a campanha do Volt. Após breves intervenções iniciais, os candidatos voltistas Carlos Pires e Alexandre Venâncio respondem a questões do público sobre as propostas do partido transnacional, numa troca de impressões que terminará com uma alocução da jovem Mafalda Pires e um jantar ao ar livre. A postura dos novos políticos é surpreendentemente humilde, com o objetivo prioritário de estudar e discutir soluções para os problemas locais, mais do que apresentar uma panaceia miraculosa. À medida que evitam lançar promessas a financiar por verbas elevadas, Pires e Venâncio duvidam que a Linha Violeta do metro se torne uma realidade antes dos anos 30.

 

Acerca do apoio ao desporto, o Volt considera que muitos clubes do concelho precisam apenas que as autarquias lhes forneçam uma sede e outras instalações necessárias ao desenvolvimento das suas atividades, a obter através da requalificação de equipamentos degradados, enquanto as famílias dos jovens atletas federados devem receber subsídios para pagarem as despesas ligadas às competições. A ajuda da Câmara ao movimento associativo passaria também por “divulgar, divulgar, divulgar”, o lema de Carlos Pires. Enquanto o fio do microfone se entrelaçava com a trela da cadela Kiara, o ramadense contou várias histórias recentes demonstrativas da ineficácia da máquina de divulgação da CMO, seja na informação relativa a eventos culturais que passam despercebidos, seja no que respeita aos meios e “valências” (termo do jargão autárquico) da Casa da Juventude, totalmente desconhecidos da maioria dos jovens odivelenses. Os potenciais autarcas do Volt lamentaram também que o Mosteiro de Odivelas, uma autêntica mina turística, continue por explorar e dinamizar. De facto, num concelho onde em 2023, de acordo com a Pordata, o número de habitantes por cada sessão de espetáculos realizada ao vivo (615) encontrava-se longe do registo de Lisboa (72), mas mesmo assim melhor do que em Loures (959) e Amadora (857), escasseia a informação acerca daquilo que se faz na música ou no teatro, até porque desapareceram jornais como Nova Odivelas e Odivelas Notícias, que, com maior ou menor influência, dedicavam uma página à agenda cultural do município.

 

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Diga-se de passagem que o próprio evento do Volt no Jardim da Música poderia ter tido uma melhor divulgação, mas outros partidos dotados de meios superiores não foram mais eficazes a esse nível. Várias sessões de apresentação de candidaturas foram anunciadas nas redes sociais com apenas 48 ou mesmo 24 horas de antecedência, dificultando a presença nos comícios de cidadãos exteriores aos partidos. Na verdade, essa presença não parecia ser muito desejada, já que os membros das listas às assembleias de freguesia bastavam para encher as salas utilizadas. A partir das páginas dos candidatos nas redes sociais, com fotografias divididas entre inúmeros retratos de grupo, visitas a instituições e ofertas de folhetos a transeuntes pouco entusiasmados, é difícil compreender como a campanha evoluiu e qual foi o seu impacto no terreno. Fica sempre a sensação de que, excetuando os militantes partidários e os amigos dos candidatos (por exemplo, Luís Montenegro, amigo de Marco Pina), os eleitores não estão nem aí para as autárquicas em Odivelas. Quem prestou atenção à propaganda viu Hugo Martins apresentar-se como o candidato da experiência e da presença contínua junto das populações, enquanto o discurso de Marco Pina adotou o tom de populismo light habitual nos políticos do PSD segundo os quais é disso que as pessoas gostam hoje em dia. A campanha da CDU foi igual a todas as anteriores, com aquilo que essa coerência tem de bom e mau, ao passo que a coligação Odivelas com Futuro tentou inovar na linguagem e nas iniciativas de modo a aproximar-se dos jovens. A IL adaptou o seu programa nacional de liberalização às circunstâncias locais e o Volt, apesar de contar com pouca gente a fazer campanha, acrescentou ideias interessantes ao debate. Quanto ao Chega, divulgou um vídeo no qual um imigrante asiático ofende os valores culturais lusitanos urinando na rua. A campanha da extrema-direita foi basicamente isso, com Ricardo Reis, contemporâneo de Mafalda Pires e cabeça de lista do Chega à Assembleia Municipal, a dominar a produção de conteúdos digitais.

 

E assim atingimos o fim-de-semana da reflexão e da votação. As perspetivas quanto à segunda não se alteraram nos últimos meses: se a abstenção voltar a ser elevada, isso facilitará a vitória do PS. Um possível aumento da participação eleitoral estará decerto ligado à ascensão do Chega, pelo que a grande incógnita reside em saber se o ódio xenófobo, que cresceu desde 2021 em paralelo ao reforço da multiculturalidade de Odivelas, será uma motivação suficientemente forte para atrair habituais abstencionistas às urnas. Improvável, embora admissível, é a hipótese de repetição da tendência revelada nas legislativas de maio para uma tripolarização, com PS, AD e Chega a obterem votações muito próximas. Ao nível das freguesias, Pontinha e Famões podem tornar-se a primeira parcela do território odivelense sob controlo venturista. Mais abaixo na tabela, verifica-se um interessante dérbi entre CDU e OCF, tanto mais que é difícil ambas conseguirem eleger um vereador. Apesar de Odivelas nunca ter sido exatamente um bastião comunista (a partir de 1989, apenas autarcas oriundos do PS ou do PSD presidiram à JFO), a saída da CDU do executivo municipal teria um forte impacto simbólico, ao mesmo tempo que a eleição de Inês Pereira encorajaria parte da esquerda. Os votos na IL, provenientes sobretudo de um eleitorado jovem e “ideológico”, deverão ser apenas os suficientes para sentar David Pinheiro na AMO, mas superiores aos dos candidatos voltistas. Os próprios admitiram não sentirem grande convicção no seu acesso às autarquias, ainda que esta campanha lhes permita ganharem rodagem para futuras eleições. Na verdade, as afirmações deste parágrafo são mera especulação e, num sufrágio imprevisível na sua dimensão nacional, de pouco serve tentar prever como votarão (ou não) os 125 mil eleitores do concelho. Que o poder mágico da espada de D. Dinis nos proteja.

Odivelas 2025: o tal jornal

Não costumam haver grandes novidades nos últimos dias de campanha, quando os argumentos de cada candidato já estão gastos e o apelo ao voto é feito sobretudo com o coração. As comitivas dos partidos, por vezes compostas por pessoas em número suficiente para formarem duas equipas de futebol com suplentes, percorrem as feiras (AD, OCF e Chega invadiram o recinto do Silvado na última segunda-feira antes das eleições) e outros locais públicos, incluindo, ao contrário do que aqui disse, o Strada Outlet. Estranhamente, as tradicionais visitas dos candidatos a sedes de clubes desportivos, frequentes noutras campanhas odivelenses, ou não se verificaram ou não foram divulgadas pelos partidos. Outra curiosidade é o facto do hino de campanha de Marco Pina, cuja gravação foi ouvida por quem assistiu aos comícios da AD, ainda não ter sido divulgado online, ao contrário do que sucedeu em 2021. Um dos versos da letra, “É por ti, por todos nós, irmãos”, causou surpresa pelo uso da palavra “irmãos”, mais habitual na música religiosa que no cancioneiro político, mas recorde-se que o hino do PSD afirma a dada altura: “Tens a liberdade, dá a mão ao teu irmão”. Hugo Martins também não publicou nenhuma música original a acompanhar os vídeos e fotografias partilhados pelos socialistas que, ao invés de fazerem um roteiro detalhado das ações de campanha, selecionam alguns momentos destas, destacando a popularidade do presidente da Câmara junto de idosos e crianças.

 

As páginas nas redes sociais de AD, PS, IL, CDU, OCF, Volt e Chega, juntamente com os espaços pessoais dos candidatos, constituem as principais fontes para o estudo das semanas de campanha em Odivelas que antecedem a votação de 12 de outubro. Cada uma delas fala para o seu lado, sem um espaço comum que permita uma noção aproximada da realidade. Geralmente, esse esforço de análise e enquadramento é feito pelo jornalismo. Porém, enquanto os media nacionais costumam ignorar a política em Odivelas (este artigo geralmente bem informado do Eco é uma das exceções), o concelho dispõe, além da revista trimestral editada pela CMO, de projetos jornalísticos escassos, pobres em conteúdo e com reduzida audiência. Na expressão de Inês Pereira, não existe propriamente uma “efervescência” nos media odivelenses, situação lamentada por várias forças políticas em ocasiões como a sessão comemorativa do 51.º aniversário do 25 de Abril na Assembleia Municipal. Apesar disso, apenas o programa do Chega para as autárquicas de 2025 inclui medidas de auxílio à comunicação social, talvez devido à presença de Fernando Pedroso no painel de colunistas do site Notícias Lx. Pedroso aponta a necessidade do jornalismo informar os munícipes sobre os temas “que realmente lhes dizem respeito” e prevê apoios a meios locais baseados em “critérios transparentes e objetivos” através dos quais se promoverá a “transição digital” da imprensa e o desenvolvimento de espaços de opinião abertos a “todas as sensibilidades políticas”. Os restantes partidos ignoram o assunto devido ao aparente receio de serem acusados de tentativa de condicionamento dos jornalistas, acusação levantada sempre que se discutem em Portugal apoios públicos aos media.

 

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(Folheto da AD rasgado na freguesia de Odivelas)

 

Ao ler os vários programas, António Guedes Tavares, diretor do Notícias Lx, notou a ausência de referências à comunicação social nas propostas de AD e PS e explicou a omissão com a vontade de “manter o controlo da narrativa pública”, queixando-se de que os “meios mais críticos e independentes” não recebem apoios institucionais da CMO. Ao votarem, os eleitores deverão optar entre “uma liberdade amordaçada” e o “novo contrato político” entre autarquias e informação sugerido pelo Chega. Noutro artigo, Guedes Tavares exige à deputada social-democrata Sandra Pereira que clarifique se, em caso de vitória do PS sem maioria absoluta, o PSD “vai a correr para os braços” dos socialistas e, à falta de uma resposta, garante que votar em Marco Pina é o mesmo que votar em Hugo Martins. Enquanto em Odivelas se vive na opressão, o concelho vizinho de Loures fornece aos seus munícipes, segundo o Notícias Lx, “mobilidade sustentável”, uma “Escola Pública com Dignidade” e outros benefícios proporcionados por “4 anos que mudaram Loures” sob o comando de Ricardo Leão, um autarca várias vezes entrevistado pelo espaço noticioso de Guedes Tavares e que, ao contrário do seu correligionário odivelense, parece mostrar-se bastante sensível e compreensivo perante os problemas financeiros da comunicação social independente. Tocante, sem dúvida.

 

De regresso a Odivelas, mantém-se o velho problema de saber como criar e dar sustentabilidade a um jornal ou outro meio de comunicação que noticie a atualidade concelhia sem se tornar um mero porta-voz de partidos, autarquias ou empresas anunciantes. Um novo projeto nessa área contrariaria os previsíveis acontecimentos da próxima semana, quando, findas as autárquicas, a atenção dos eleitores transferir-se-á para as presidenciais, as páginas online das concelhias partidárias voltarão a ser atualizadas esporadicamente e a política odivelense ficará fora dos olhares de quase todos durante os três anos e meio seguintes. Apesar dos cerca de 150 mil residentes no município representarem um amplo público disponível para um órgão da imprensa local, esta também teria de se adaptar ao atual contexto. A ideia de hoje alguém ir a um quiosque comprar um jornal em papel com artigos sobre eventos ocorridos há semanas dá vontade de rir. No entanto, a digitalização dos conteúdos noticiosos não bastaria. Para atrair o interesse dos leitores, não seria necessário que o hipotético periódico se mantivesse atento aos crimes e histórias tristes que fazem sucesso no Correio da Manhã? Que critérios objetivos e compreensíveis por todos ditariam os talvez inevitáveis subsídios municipais à atividade jornalística? Como garantir o contraditório e a divulgação de diferentes pontos de vista sobre determinados factos? Na verdade, a crise do jornalismo é nacional e até mundial, assistindo-se em países como os EUA ao encerramento de numerosos media locais. Tendo em conta que, apesar dos esforços do veterano Henrique Ribeiro, o histórico de sucesso da comunicação social no território do concelho de Odivelas não é brilhante, faltam meios e ideias para evitar o empobrecimento da democracia municipal resultante da falta de cobertura mediática daquilo que acontece por cá. Perante a desconfiança generalizada em relação ao jornalismo profissional, há quem diga que chegou a hora de influencers, youtubers, autores de podcasts e outras pessoas com vontade de “informarem” a população a partir das suas ideologias ou interesses. Se assim for, acreditem, estamos tramados.

Odivelas 2025: aí vem o Sebastião

Apesar das picardias trocadas por Marco Pina e Hugo Martins, verificam-se numerosas semelhanças entre os programas eleitorais do PS e da AD para a Câmara de Odivelas, nos quais a lista de obras a realizar em ruas, escolas ou equipamentos desportivos é quase idêntica. As diferenças registam-se apenas em algumas questões, como a criação de uma Polícia Municipal, rejeitada pelo PS, ou o fornecimento de material escolar, com a AD a preferir conceder às famílias um voucher de 50 euros em vez de lhes entregar diretamente lápis, estojos ou mochilas. No que respeita ao museu a criar no antigo mosteiro que exibirá a espada de D. Dinis, o PS é vago acerca de um projeto ainda em fase de conceção, enquanto os discípulos de Sá Carneiro e Freitas do Amaral querem associar o espaço museológico ao CIDD (Centro Interpretativo D. Dinis), uma futura instituição dedicada ao estudo e divulgação da História medieval portuguesa. Ambos os programas são omissos relativamente à imigração, não pretendendo nem apoiar a integração dos novos moradores, um objetivo proposto por OCF ou Volt, nem deixar claro que os estrangeiros não são bem vindos, como pretende o Chega. Para o presidente da Câmara, as eleições parecem constituir uma mera formalidade da qual resultará a reeleição que permitirá a Hugo inaugurar obras municipais ainda em curso (Parque D. Dinis, requalificação das Patameiras, centros de saúde da Urmeira e da Pontinha, etc.) antes de passar a pasta a Nuno Gaudêncio, número dois da lista socialista à CMO. Quanto a Marco, aposta numa estratégia de marketing delineada por uma agência de comunicação que inclui manter o suspense sobre a localização da piscina pública a construir pela AD, de modo a que cada eleitor imagine o equipamento na sua freguesia.

 

Na tarde de 2 de outubro, a campanha da CDU em Odivelas contou com a presença de Paulo Raimundo à frente de uma arruada na Avenida D. Dinis durante a qual o secretário-geral do PCP recebeu várias manifestações de apoio, entre elas a de uma idosa que se queixou a Paulo de viver num concelho que “não presta para nada” por causa dos “ladrões” do PS. Ao som de bombos, o cortejo avançou até à praceta junto ao centro comercial Oceano, na qual a CDU realizaria um breve comício. Sentado perto do púlpito, o antigo autarca Ilídio Ferreira esperava já pelos abraços de Raimundo e outros camaradas. Além do líder comunista, a mesa do comício incluiu Dilar Pelica, Rui Francisco (com o seu habitual mutismo neste tipo de eventos) e Florentino Serranheira, que ao dirigir-se à multidão resumiu o programa da CDU e falou de uma Odivelas “abandonada”, apesar do prodígio da multiplicação de obras nas últimas semanas antes da votação. Ao tomar a palavra, Paulo Raimundo não mencionou a interceção por Israel da flotilha com destino a Gaza, que já condenara em declarações prestadas aos jornalistas no início da avenida. Em vez disso, proferiu um discurso virado sobretudo para dentro, tentando reforçar a confiança dos militantes comunistas, cuja mobilização durante a campanha considerou ser em si mesma uma vitória, e prepará-los para continuarem a luta logo a 13 de outubro. Enquanto os condutores de alguns veículos que passavam na rotunda buzinavam em sinal de apoio, Paulo diferenciava a “gente séria” da CDU daqueles que preferem o “teatro” e a “gritaria” e assegurava que muitos eleitores que votaram noutras forças nas legislativas optam agora pela coligação PCP-PEV. Findo o discurso, a aparelhagem sonora tocou a “Carvalhesa” e os comunistas iniciaram a arrumação do material usado no evento, do qual não restavam quaisquer vestígios pouco tempo depois. No dia seguinte, os candidatos da CDU retomaram a entrega de folhetos em vários bairros do concelho, numa campanha com vista à manutenção de um vereador azul e branco no executivo camarário.

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A rápida passagem de Paulo Raimundo por Odivelas assinalou a relevância conferida ao município pelas direções nacionais dos vários partidos. Na fase da apresentação dos candidatos, José Luís Carneiro e Inês Sousa Real estiveram na terra da marmelada, ao passo que Isabel Mendes Lopes e Fabian Figueiredo representaram o Livre e o Bloco de Esquerda, respetivamente, no lançamento da coligação Odivelas com Futuro. Já o PSD enviou o seu número dois, Hugo Soares, ao início formal da campanha de Marco Pina, que incluirá um jantar em Caneças com a presença do (por enquanto) número três, Sebastião Bugalho. Ignora-se ainda se André Ventura e Mariana Leitão pisarão solo odivelense para dar maior visibilidade às candidaturas de Chega e Iniciativa Liberal. A nível mediático, Odivelas é um dos concelhos do distrito de Lisboa que costumam receber menor atenção aquando das eleições autárquicas, o que se justificaria pelo tamanho, mas não pela população do município. A previsibilidade dos resultados supostamente garantida pelas sucessivas vitórias do PS dissuade a comunicação social de abordar em profundidade um território no qual rareiam debates e sondagens. Mesmo assim, António Rodrigues escreveu para o Público uma crónica onde resume o panorama político na “República socialista odivelense”, descrevendo as principais caraterísticas dos candidatos lançados por PS, AD, Chega e CDU. Por lapso, o jornalista afirma que Florentino Serranheira “volta a ser candidato” de modo a “conseguir eleger-se novamente vereador”, quando foi Painho Ferreira, agora retirado, a encabeçar as listas da CDU em 2017 e 2021. Nas noites eleitorais autárquicas, os canais televisivos costumam mencionar Odivelas, um dos últimos concelhos a encerrarem a contagem dos votos, apenas para referirem através de informação gráfica o partido e candidato vencedores. Também será assim desta vez, exceto se ocorrer alguma surpresa.

 

A propaganda da concelhia de Odivelas do Chega tem sido transmitida sobretudo através das redes sociais e do You Tube, além dos cartazes e pendões (vários dos quais foram vandalizados) com os rostos de Fernando Pedroso e dos restantes cabeças de lista que atualmente abundam nas ruas do concelho. Não são habituais os comícios ou outros eventos abertos à população, tendo a apresentação oficial dos candidatos cheguistas ocorrido num jantar de militantes na Quinta do Bretão, em Caneças. Em setembro, além de visitar corporações de bombeiros e outras instituições sociais, o partido promoveu algumas arruadas e distribuições de folhetos, em ações com parco registo digital. No entanto, ao longo das duas primeiras semanas de outubro, o Chega vai estar de tenda armada, ou seja, instalará em vários pontos do município uma tenda aberta oito horas por dia, a partir da qual os candidatos oferecerão brindes e folhetos do partido. A formação de extrema-direita tenta fazer com que os eleitores venham a si, ao invés de procurá-los nas ruas e lojas, mas só nos últimos três dias de campanha arriscará acampar junto de entradas das estações de metro. Ao criar um ambiente controlado para a difusão dos seus conteúdos, o Chega parece querer evitar cenas ocorridas noutros concelhos onde os potenciais autarcas venturistas receberam insultos, boicotes ou mero desinteresse ao aproximarem-se da população. De resto, o deputado Ricardo Reis já se queixou de ofensas e ameaças proferidas pela “etnia do costume” durante as ações de campanha em Odivelas. Ao erguer a sua tenda branca, identificada no pano pela frase “É tempo de acabar com os tachos”, o Chega monta o cerco ou fica cercado?