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Momentos na Biblioteca

1. No dia 22 de novembro de 1997, o sábado em que, após um ano de obras na antiga casa da Quinta de Nossa Senhora do Monte do Carmo, foi inaugurada a Biblioteca Municipal D. Dinis (BMDD), eu achei que tinha chegado ao paraíso. Se já fosse eleitor, teria votado na CDU de Demétrio Alves nas autárquicas desse ano para agradecer um tão belo presente dado pela Câmara de Loures a Odivelas. Hoje em dia a biblioteca não me parece tão grande como em 1997, mas continua a ser um lugar muito acolhedor.

 

2. A sala “Juvenil e Multimédia” da Biblioteca Municipal detinha um acervo de CDs e vários postos de escuta com auscultadores, tal como algumas televisões para visionamento de cassetes VHS. Utilizei esses aparelhos, com destaque para a parte musical, mas o que me interessava mais no espaço era a vasta coleção de banda desenhada disponibilizada aos jovens leitores. A secção de BD da BMDD ainda está no mesmo sítio e mantém o nível elevado, recebendo frequentes atualizações. Graças a ela, passei muitas tardes a ler os cartoons de Quino, os álbuns do Lucky Luke ou a ficção histórica de José Ruy. O Jim del Monaco também lá estava, mas só repararia nele aquando do regresso da personagem de Louro e Simões em 2015. Ainda no início da adolescência, aproveitei para consumir na mesma sala histórias de rápida leitura como a coleção O Clube das Chaves, as aventuras de Sherlock Holmes ou o menino Nicolau de Sempé e Goscinny. Eu gastava tanto tempo na BMDD que a mascote da biblioteca desenhada por essa altura, um miúdo moreno de boné e óculos, até parecia inspirada em mim.

 

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3. “Sim, meus queridos sobrinhos. No final do século passado, eu e a vossa mãe íamos à biblioteca aos sábados de manhã e metíamos-nos numa fila para podermos usar um computador com acesso à Internet durante meia hora. O tempo era curto porque todos os sites demoravam uma eternidade a abrir e em breve tínhamos de ceder o lugar a outras pessoas. Depois de sairmos da biblioteca, aproveitávamos para apanhar folhas caídas das árvores porque nessa época ainda não havia papel higiénico.”

 

4. Com a entrada no século XXI, comecei a permanecer mais tempo na sala de leitura para “Adultos”, que receberia posteriormente o nome de Natália Correia, e a recorrer ao serviço de empréstimo domiciliário. Lembro-me de requisitar romances como A Voz dos Deuses, de João Aguiar, Gente Feliz com Lágrimas, de João de Melo, ou Conhecimento do Inferno, de António Lobo Antunes. Não conheço a relevância numérica atual do empréstimo de livros na BMDD, mas continuo a achar que, para um jovem sem dinheiro para grandes compras, a possibilidade de ler gratuitamente e experimentar vários géneros literários até formar o seu gosto pessoal constitui um tesouro inestimável.

 

5. Devido à proximidade da Escola Secundária de Odivelas, a maioria do público da BMDD foi sempre composta por jovens que se encontravam na biblioteca com o objetivo de estudarem ou pesquisarem para trabalhos escolares. Quanto a mim, apenas descobri durante a licenciatura a utilidade das estantes dedicadas à História, com um conjunto de livros um pouco desatualizado mas dotado de clássicos valiosos para compreender melhor os temas que aprendia na faculdade. Outras áreas de não-ficção da biblioteca como política, crónicas ou memórias também incluem numerosas obras e, ao longo dos anos, têm sido renovadas através de doações e aquisições. Por seu turno, o espólio sobre música, cinema e desporto, agora guardado ao fundo da Sala Natália Correia, mantém-se basicamente o mesmo desde os primórdios da BMDD.

 

6. A chamada “Biblioteca Fora de Horas”, uma divisão do edifício da biblioteca que se mantém aberta já depois do encerramento dos restantes serviços, costuma atrair muitas pessoas que consultam jornais em papel (não olhem assim para mim... acham que vale a pena comprar o Expresso se não tenho pachorra para lê-lo na íntegra?) ou aproveitam a Internet gratuita para trabalharem nos seus portáteis. É também lá que se encontra a estante do “Banco de Ofertas”, preenchida por livros usados entregues pelos antigos donos à BMDD, que insere no seu catálogo apenas os volumes mais recentes, oferecendo a maioria dos livros aos frequentadores do espaço. No meio de obras antigas sobre os mais diversos temas, torna-se comum encontrar autênticas preciosidades. Por favor, odivelenses, se têm livros que não querem em casa, não os abandonem junto aos caixotes de lixo. A Biblioteca Municipal pode fazer a livralhada chegar a quem realmente necessita dela.

 

7. Ao longo da pandemia, não havia muito a fazer. Quando a BMDD não se encontrava fechada, via-se junto à entrada da frente uma lista de restrições extensa ao ponto de tornar óbvia a mensagem “não entre aqui”. A Câmara de Odivelas aproveitou para realizar obras no edifício que levaram à transferência de parte do espólio para o Centro de Exposições. Foi a partir daí que dei mais atenção ao Fundo Local, composto sobretudo por bibliografia herdada da gestão de Loures, obras editadas pelas autarquias, trabalhos académicos acerca de Odivelas e fotocópias de exemplares guardados na Biblioteca Nacional. Juntos, estes materiais representam um ponto de partida essencial para a historiografia do atual município odivelense. Falhou, contudo, uma iniciativa de recolha de fotografias antigas junto da população, com a prometida exposição sobre a Odivelas de outros tempos a ter de recorrer a imagens do Arquivo Fotográfico de Lisboa. Entretanto, muitos idosos do concelho partilham no Facebook imagens da sua juventude (e ainda bem) sem ninguém lhes pedir nada.

 

8. O átrio da biblioteca serviu desde cedo como sala de exposições de pintura, fotografia e outras artes, além de acolher feiras do livro cada vez mais raras. Os técnicos da BMDD dinamizam uma ampla programação de estímulo à leitura, dirigida em especial às crianças, e possibilitam o uso do equipamento municipal para workshops ou lançamentos de livros. No entanto, fica sempre a sensação de que muito mais poderia ser feito junto à antiga capela de Nossa Senhora do Monte do Carmo. Não se sabe o que aconteceu ao auditório na cave, possível palco de congressos científicos e outras iniciativas. Os lançamentos e sessões de autógrafos são relativamente escassos, com as editoras de maior dimensão a ignorarem a biblioteca odivelense enquanto espaço de valorização comercial dos seus produtos. Na verdade, a localização da BMDD não favorece a organização de grandes eventos, até porque não existe na sede do concelho uma livraria de dimensões significativas, à exceção da Bertrand do Strada Outlet. Em que medida o sossego e a tranquilidade que atraem estudantes às mesas da biblioteca resultarão de um subaproveitamento das potencialidades desta? Eis um assunto a analisar pela nova vereadora da Cultura. Por enquanto, ao fim de 28 anos ao serviço da leitura, muito obrigado, Biblioteca Municipal D. Dinis.

 

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Odivelas 2025: o pós-autárquicas

1. O acordo entre PS e PSD para a gestão da Câmara Municipal de Odivelas (CMO) resulta de uma necessidade mútua de apoio perante a ameaça do Chega, detentor de um forte crescimento baseado sobretudo na atração às urnas odivelenses de cerca de 8500 eleitores a mais em relação a 2021. Donos de cinco lugares no executivo municipal perante os seis da direita, os socialistas negociaram com o PSD um pequeno Bloco Central, ao passo que João Pedro Galhofo rompia a AD local e levava para a oposição as hordas imensas do CDS. Derrotado a 12 de outubro, Marco Pina não se tornou vereador a tempo inteiro devido aos seus compromissos profissionais com a CMTV e à provável relutância em trabalhar com Hugo Martins depois daquilo que Pina disse sobre o autarca socialista na campanha. Assim, o ex-presidente do CER Tenente Valdez, Rui Teixeira, e Ana Isabel Gomes, vereadora de sucessivos executivos desde 2015, são os sociais-democratas agora responsáveis por pelouros como a saúde, a cultura, o turismo, os licenciamentos e o desenvolvimento económico. A negociação envolveu ainda lugares noutras autarquias, entre elas a Junta de Freguesia de Odivelas, onde a antiga candidata da AD Ana Monteiro tutela dentro do executivo presidido por Ricardo Oliveira vários dos temas atribuídos ao PSD na Câmara. Previsivelmente, o Chega e algumas figuras do CDS acusaram os “laranjas” de terem trocado os princípios pelo aroma do gabinete, do ordenado, do motorista. Enquanto o PS prepara a transição do huguismo para o nunismo, o PSD aguarda para saber o que obterá com este acordo até 2029. Recorde-se que, ao concorrer em 2013 à presidência da Câmara, Sandra Pereira destacou a atividade que desenvolvera no lugar de vereadora da Saúde, sem ganhos nas urnas. Por outro lado, a concelhia do PSD volta agora a ter alguma influência na governação quotidiana do município após oito anos de afastamento. O Chega passa a gozar da liderança da oposição e da oportunidade de explorar tudo o que correr mal à CMO, mas os resultados eleitorais mostram que, na prática, já alcançara esse estatuto entre 2021 e 2025.

 

2. PAN, Livre e Bloco de Esquerda comunicaram que a coligação Odivelas com Futuro foi dissolvida, pelo menos até às próximas autárquicas, e os seus dois eleitos, o deputado municipal Luís Miguel Santos e Bruno Moreira (membro da Assembleia de Freguesia de Odivelas), apenas falarão em nome, respetivamente, do Bloco e do Livre. O reduzido espaço público disponível para os partidos da antiga frente de esquerda realça a questão de como fazer política local fora das autarquias, ainda para mais quando não se possui a tradicional ligação do PCP a algumas empresas e coletividades. A resposta óbvia passaria pelas redes sociais, palco de uma vasta difusão dos vídeos publicados pela concelhia do Chega e em particular por Ricardo Reis, mas a presença digital dos outros partidos costuma ser bastante reduzida fora das campanhas eleitorais. Ainda assim, BE e Livre parecem querer inverter a tendência, aproveitando a visibilidade das cerimónias institucionais para as quais são convidados. O próprio PS inova ao publicar notas biográficas dos seus autarcas, a começar, naturalmente, pelo vice-presidente Nuno Gaudêncio. Para lá da habitual propaganda das autarquias, o Instagram e o Facebook poderão ser nos próximos anos arenas privilegiadas do combate político no município odivelense.

 

3. A tutela do desporto no concelho mantém-se a cargo do antigo dirigente Francisco Baptista, agora vereador do Desenvolvimento Desportivo, com uma estratégia que passa pela continuação das provas nacionais e internacionais realizadas no Pavilhão Multiusos. Nos primeiros discursos do seu novo mandato, Hugo Martins anunciou também vários avanços ao nível dos equipamentos desportivos. Além das obras em curso no Polidesportivo Honório Francisco, a Câmara promoverá a requalificação do quase cinquentenário Pavilhão Municipal utilizado pelo GCO e construirá uma nova estrutura coberta na Escola Secundária Braamcamp Freire (Pontinha). Um antigo projeto surgido nos anos 90 ganhará vida na Paiã com o aparecimento de um complexo destinado a várias modalidades em terrenos junto ao Kartódromo. Os investimentos privados em estruturas desportivas nas Colinas do Cruzeiro e no Jardim da Amoreira, acompanhados pela CMO “com toda a atenção”, edificarão novos ginásios e atenuarão a sobrelotação das Piscinas Municipais. Os atletas do concelho iniciam agora o período de espera pela concretização de tudo isto.

 

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(Remodelação de parque infantil nas Patameiras)

 

4. A social-democrata Ana Isabel Cosme Gomes, que assina as suas pinturas simplesmente como Ana Cosme, assumiu o pelouro da Cultura e passou a trabalhar no gabinete do anterior vereador, Edgar Valles, no Centro de Exposições da sede do concelho. A ausência de Valles na lista socialista apresentada às últimas autárquicas fazia já antever a mudança na área cultural mas, depois de uma campanha em que as ideias mais criativas sobre cultura foram lançadas por OCF e Volt, permanece a incógnita acerca do novo rumo do departamento com a tutela de equipamentos como a Biblioteca Municipal D. Dinis. Já se sabe que a Malaposta continuará a ser gerida por uma empresa privada, enquanto o Auditório Municipal da Póvoa de Santo Adrião espera por um novo destino e o projeto do museu a construir no antigo Instituto ainda se encontra em fase de definição. O Bloco de Esquerda pediu entretanto uma política cultural “mais diversa” e dedicada à promoção do trabalho de artistas odivelenses. Contudo, mais do que inovar, seria urgente reforçar a divulgação daquilo que já existe, permitindo à população saber que há aqui atividades culturais para além dos concertos dos Toys e Tonys.

 

5. A Câmara de Loures vai assinalar o cinquentenário do 25 de Novembro com uma sessão solene, tendo uma moção do Chega sobre a data sido aprovada numa reunião da CML com a abstenção do PS e o voto contra do PCP. A recente maioria de direita no executivo municipal de Odivelas despertou a dúvida sobre eventuais comemorações do fim do PREC análogas às do concelho vizinho. De facto, na reunião da Câmara de Odivelas de 20 de novembro, o Chega apresentou uma moção, lida pelo vereador Duarte Vieira (que tropeçou na palavra “totalitarismo”), na qual saudou militares do 25 de Novembro como Jaime Neves e Pires Veloso e aproveitou para condenar as propostas de ilegalização do partido de André Ventura. Um erro de redação levou o texto cheguista a não incluir qualquer sugestão de medidas a tomar pela CMO, obrigando Fernando Pedroso a esclarecer que, num município onde se realizam tantas celebrações, entre elas festas avessas à “matriz judaico-cristã” do concelho, o 25 de Novembro também deveria ser oficialmente comemorado. A moção foi chumbada com votos a favor dos três vereadores do Chega e contra dos oito restantes, mas o problema pareceu residir apenas na referência à hipotética proibição do partido, com Susana Santos (PS) a prometer trabalhar num texto mais “abrangente”, enquanto Marco Pina manifestou a sua concordância com a vontade de celebrar os acontecimentos de 1975. O assunto terá permanecido em aberto até à próxima reunião do executivo, durante a qual Hugo Martins estará ausente por motivo de férias.

Ventura fora da pastelaria

Em 10 de novembro, o Chega-Odivelas anunciou nas redes sociais a realização no dia seguinte de uma arruada na cidade com a presença de André Ventura, enquadrada na campanha do líder partidário para as eleições presidenciais. Numa publicação com abundantes reações, o partido incentivou os seus apoiantes a acorrerem às 16 horas ao quartel dos Bombeiros Voluntários, onde Ventura visitaria a corporação antes de percorrer as ruas odivelenses. De facto, apesar do dia e hora do evento impedirem a presença de várias pessoas ocupadas com os seus afazeres profissionais, um grupo relativamente amplo de indivíduos com sacos, bandeiras e cachecóis do Chega reuniu-se às quatro da tarde de 11 de novembro em frente à sede dos BVO, com uma viatura da PSP a prevenir eventuais riscos de segurança, função à qual também se dedicavam Luc Mombito e os numerosos seguranças protetores do presidente cheguista. Quando André Ventura apareceu no quartel, atirou-se de imediato à tarefa prioritária de, com o deputado Ricardo Reis e o vereador Fernando Pedroso atrás de si, conceder aos jornalistas presentes as palavras que a rádio e a televisão espalhariam por todo o país no resto desse dia. Enquanto dezenas de corpos se aglomeravam junto ao político, muitos cheguistas encontravam-se demasiado longe para conseguirem ouvi-lo, passando pela experiência curiosa de observarem André a mexer os lábios e abanar a cabeça quando se indignava sem entenderem uma palavra do que dizia, qual televisor sem som. Depois de uma longa conversa com a comunicação social, Ventura entrou nas instalações dos bombeiros para 15 minutos de visita. Ao longo desse período, os repórteres de imagem filmavam o exterior do quartel e algumas dezenas de cidadãos conversavam à espera dos acontecimentos seguintes. Dois miúdos vindos de bicicleta perguntaram por Ventura a um dos quatro polícias ali presentes, que deixou os jovens aguardarem pelo candidato presidencial desde que se mantivessem sossegados.

 

Findo o rápido contacto com os BVO, André Ventura e os dirigentes do Chega-Odivelas reapareceram na entrada do quartel para um momento reservado a fotografias e cumprimentos de admiradores do antigo comentador da CMTV. Seguiu-se a arruada propriamente dita, com o grupo encabeçado por André a virar à direita, ladeando o Pavilhão Municipal e as obras da nova ponte do Bairro Olaio, à medida que a PSP cortava momentaneamente o trânsito. Um comerciante hindustânico mostrava um sorriso benevolente ao observar a comitiva cheguista, que respondia com palmas às buzinadelas de apoio de alguns condutores. Um jornalista da Rádio Observador que cobria o evento afastou-se um pouco para gravar a sua peça. Ao passar pela porta da sapataria Guimarães, Ventura saudou as funcionárias, sem receber grande atenção. Pouco depois, a chusma entrou na Avenida D. Dinis, atraindo os olhares dos utentes na paragem do autocarro 36, junto à qual se encontra o café Ulisses. Em busca de boas imagens para os canais televisivos, André entrou no estabelecimento para tomar um café, acompanhado das câmaras, com o povo do Chega a esperar no passeio pela retoma da marcha.

 

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Do outro lado da rua, alguns transeuntes presenciavam a cena com mera curiosidade, mas subitamente gritos hostis (“Fascista!”, “25 de Abril sempre!”) começaram a ouvir-se de um dos prédios vizinhos. Em resposta, os venturistas multiplicaram as saudações ao partido e ao seu líder, além de soltarem frases como “Vai acabar-se a mama!” Ao localizarem numa janela as mulheres que davam as más-vindas a Ventura, os homens do grupo cheguista refinaram os contra-ataques (“Vai trabalhar!”, “Vai lavar as cuecas!”, “Vai para o Irão, filha!”). Indiferente à situação quando saiu do Ulisses, André Ventura pediu emprestada a bicicleta de um dos jovens que acompanhavam a arruada e pedalou alguns metros em frente à churrasqueira Odimar, fechada para descanso semanal. Em seguida, o percurso pela avenida prosseguiu entre breves diálogos do candidato com lojistas e apoiantes, novas buzinadelas solidárias e os últimos brados antifascistas. Ao atingirem a pastelaria El-Rei D. Dinis, habitualmente repleta de eleitores, as notabilidades do Chega pareceram hesitar. Fernando Pedroso avançou como explorador, em busca de autorização para fazer campanha na pastelaria, enquanto André e o resto do grupo mantinham-se junto à esplanada. A resposta do estabelecimento gerido por Paulo Lopes terá sido negativa, pelo que Ventura deu a arruada por concluída, erguendo o punho direito, saudando os seguidores que faziam vês de vitória e entrando num automóvel. Em poucos minutos, polícias e manifestantes dispersaram e a tarde converteu-se em noite.

 

Odivelas tem sido um barómetro eficaz da ascensão do Chega, cujos resultados em autárquicas e legislativas no concelho foram subindo até atingirem os dois dígitos e mais tarde superarem os 20%, com a consequente alteração da correlação local de forças. Depois do segundo lugar obtido na votação para a Câmara odivelense e do acordo entre PS e PSD para a gestão desta, o partido de extrema-direita reclamou o estatuto de líder da oposição e polo agregador dos descontentes. Não surpreende, portanto, que André Ventura confie no trabalho de Ricardo Reis e Fernando Pedroso e tenha escolhido Odivelas como um ponto do trajeto da sua campanha presidencial. Com uma mobilização assinalável tendo em conta a escassa antecedência da sua convocatória, a arruada despertou nos odivelenses os sinais de curiosidade, apoio incondicional e rejeição instantânea habituais nas ações propagandísticas do aficionado do ciclismo. Contudo, a presença aparentemente espontânea de crianças com cerca de 10 anos que aclamam Ventura e veem nele uma popstar constitui um sinal preocupante para o futuro do 25 de Abril.

 

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Duas décadas de carreira

Nunca pensei em tirar outro curso. A ordem de libertação provisória n.º 1111. O aroma a bolos da cafetaria na cave. O frio das aulas às oito da manhã. O frio das aulas às oito da noite. Arranjar ingredientes para ela cozinhar a sopa. Vocês também são católicos? A paragem de autocarros de Sines nem sequer tinha um abrigo. O massacre de que não podemos falar. Nunca esquecerei a tua simpatia, Luciana. Telefonemas intermináveis até à rendição. O prof. Canaveira, uma versão mais velha de mim. A promoção das vuvuzelas. A prof. Rollo treinou-nos para sermos máquinas de historiografar. O Hilário e o Vicente ainda estão vivos. O nosso colega saiu da sala e nunca mais o vimos. A mulher que parecia estar a comer por caridade na messe da GNR. O obituário do prof. Krus no jornal. Kaúlza de Arriaga apaixonado por Sophia. Os meus pais tinham razão. Dei alguns autógrafos. Vários projetos que ficaram pelo caminho, entre eles uma biblioteca sobre história do desporto. O público incluía apenas a Irene, a Inácia e a Raquel. Comunicar nervosamente enquanto a seleção disputava o Euro 2016. Os meus sobrinhos brincavam a poucos metros do local onde viveu Salazar. Arquivos a que nunca mais voltei, como o Histórico-Militar e o Histórico-Diplomático. Fui à Biblioteca-Museu Luz Soriano num dia de vitória para Jorge Jesus. Durante o confinamento, os registos paroquiais permaneciam online. Aprender que as coisas aparentemente mais banais podem conter histórias incríveis. O miúdo ainda não aprendeu nada sobre o 25 de Abril. João Cotrim de Figueiredo a teimar que ele é que sabia porque tinha estado lá. Puseram-me num canto do quartel com um computador e entretanto passaram 10 anos. O prof. Rosas fez-nos formar junto à esplanada da faculdade e ordenou-nos que destruíssemos o capitalismo. Vi o 25 de Novembro tomar esteroides e ficar cada vez maior. O Paulo e o Roger trouxeram uma maneira nova de falar sobre História, piadas secas à parte. Que faço eu dentro do Estádio da Luz? O gabinete do Ricardo em Alvalade tinha alguns jornais bastante úteis. Os antigos presos políticos dispensavam o estatuto de heróis. Falo de lugares onde nunca estive. O que acontece a um clube quando acaba? O documento mais valioso que tive nas mãos foi criado pelo meu avô. Sou o que parece menos feliz nas fotografias. O João ligou-me para perguntar o que preferia comer no restaurante ribatejano. Não é necessário mentir, basta destacar alguns factos e ignorar outros. Os casos que investigamos nunca estão encerrados. Nasci para ser vice-presidente. A Inácia foi buscar uma cadeira para o dr. Soares se sentar. Volto sempre ao início. As funcionárias da Biblioteca Nacional davam-me tau-tau. À medida que envelhecia, Rui Ramos ficava cada vez mais fascista. Comunicações sem diapositivos já não se usam. As tábuas do palácio dos marqueses de Tomar rangiam sob os nossos pés. Foi por mero acaso que soube que tinha sido publicado na Brotéria. Os mitos são difíceis de derrubar. O antigo jornalista dava sinais de demência no Bairro Alto. Tentei reunir e agrupar as memórias partilhadas pelos velhos no Facebook. A Afrontamento não queria afrontar. Éramos campeões europeus quando falei pela primeira vez no auditório. As respostas estão lá, o difícil é encontrar as perguntas. Será que também acharia o Zé Pedro um tipo porreiro se ele não tivesse elogiado a minha tese? Acabou o congresso, correu tudo bem, conseguimos. Desconfia de quem ergue altares para adorar uma dada versão da História.

 

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Às vezes interrogo-me se sou historiador ou escritor de não-ficção.

Revolta na Pontinha

As referências a Odivelas e a localidades próximas eram geralmente escassas nas edições do Avante! clandestino, que mencionava sobretudo as áreas mais industrializadas do concelho de Loures, como Sacavém ou Moscavide, onde a implantação do PCP e a concentração de operários geravam frequentes “lutas” noticiadas pelo jornal comunista. Durante a ditadura, os conflitos sociais eram menos comuns no território do atual município odivelense, então ainda ruralizado mas onde o desordenado crescimento urbano ocorrido a partir dos anos 50 criaria bolsas de pobreza e descontentamento popular. Apesar de testemunhos já disponíveis como os de Fátima Amaral, Raimundo Narciso ou Adventino Amaro, ainda pouco se sabe quanto à atividade política oposicionista existente antes do 25 de Abril nas freguesias de Caneças, Odivelas e Póvoa de Santo Adrião, um tema para o qual o futuro museu municipal poderia reservar um espaço evocativo.

 

O PCP dedicava particular atenção a ações de protesto, espontâneas ou organizadas, que eclodissem em instalações militares. O Regimento de Engenharia n.º 1, aquartelado na Pontinha, era uma das unidades cuja atividade os comunistas acompanhavam, tendo nele ocorrido no final de agosto de 1967 uma insubordinação de militares, naturalmente omitida na imprensa censurada, mas que daria origem a um artigo publicado em dezembro do mesmo ano no número 386 do Avante! De acordo com o periódico clandestino, tudo começou quando os soldados do RE1 formaram no refeitório em “silêncio absoluto”, como fora imposto pelos seus superiores para reprimir protestos contra a “insuficiente alimentação” distribuída no regimento. Nessa altura, um oficial “fascista” teria dirigido “os mais grosseiros insultos” aos subordinados, levando alguns destes, acompanhados pouco depois pelos camaradas, a chamarem “bandido” ao graduado e passarem ao ataque. Depois de ser atingido por pratos e outros utensílios disponíveis nas mesas, o oficial fugiu por uma janela e pegou numa metralhadora antes de regressar ao refeitório. Ao entrar, foi agredido com um banco na cabeça e tombou no chão sem sentidos. A situação só acalmou quando outro oficial do RE1, que gozava de “certa estima” entre os soldados, lhes prometeu garantir o fornecimento imediato de comida vinda de fora do quartel.

 

 

O motim do RE1 foi elogiado pelo jornal do PCP como um exemplo de união e coragem contra o “militarismo salazarista”. No entanto, a história, semelhante a outros levantamentos de rancho registados no Avante!, levanta múltiplas questões. Que protestos antecederam a revolta aberta dos soldados contra a má qualidade da sua alimentação? Tudo aconteceu de forma espontânea devido à arrogância do oficial prepotente ou teria havido planeamento? Existiriam apoiantes do PCP entre os homens que cumpriam o serviço militar na Pontinha? Depois da violência, a estratégia de apaziguamento terá prevalecido entre os oficiais da unidade ou os insurretos foram severamente punidos? Quem era o militar agredido e como evoluiu a sua carreira? Verificaram-se outras ações de contestação no quartel durante os anos seguintes? Apenas eventual documentação guardada no arquivo do Exército poderá esclarecer estas e outras dúvidas. O certo é que o quartel pontinhense (utilizado atualmente pela GNR) reforçaria a sua importância histórica em 1974 ao acolher o Posto de Comando do MFA, ligado ao início do período revolucionário durante o qual os militares do RE1 mantiveram uma colaboração próxima com os órgãos de “poder popular” da Pontinha e do resto da freguesia de Odivelas.

 

Na mesma edição do Avante! que mencionou os eventos passados no Regimento de Engenharia n.º 1, o PCP responsabilizou o “governo fascista” pela tragédia das cheias de 25 de novembro de 1967, que tinham afetado duramente “os bairros da Urmeira, Olival Basto, Pombais da Pontinha (sic), Quinta do Silvado e Odivelas”, nos quais milhares de pessoas viviam em barracas ou casas sem condições, incluindo as habitações alugadas pela Câmara de Lisboa na Urmeira. Apenas na manhã do dia 26 três helicópteros tinham sobrevoado “a zona martirizada de Odivelas”, sem prestarem qualquer auxílio a bombeiros, militares e “700 homens do povo” que socorriam pessoas cercadas pela água e removiam os numerosos cadáveres. Apesar das críticas do Avante! à inação do Estado Novo, preocupado sobretudo em vigiar os estudantes envolvidos no apoio às vítimas da catástrofe, o jornal clandestino não voltaria a dirigir a sua atenção para Odivelas, exceto em ocasiões como as campanhas eleitorais de 1969 e 1973, aproveitadas para a realização de sessões da Oposição na vila. Após passar à legalidade em Maio de 1974, o Avante! cobriria o enraizamento do PCP no futuro concelho odivelense, desenvolvido através de comícios, criação de sedes, intervenção nas autarquias e outras iniciativas.