Tem mesmo que ser? (2)
8. A propaganda das autárquicas já tinha revelado uma vasta difusão do célebre efeito visual no qual o protagonista anda continuamente na direção da câmara (ou seja, do espetador) enquanto o cenário atrás de si vai mudando. A técnica é replicada num tempo de antena de Catarina Martins que mostra a candidata a andar em inúmeros locais do país. No entanto, falta indicar o mais importante: o destino. Afinal, Catarina anda com tanta convicção para chegar aonde?
9. Daniel Oliveira (“o que não faz chorar”) referiu-se ao Livre como um partido de “elites culturais” sem a capacidade de atrair o descontentamento popular para uma solução de esquerda. De facto, rejeitar essa génese da organização das papoulas seria tão inútil como negar que a Iniciativa Liberal é um partido de classe. O Livre inclui na sua base de apoio uma porção significativa daquilo a que se chamava “intelectuais” antes da palavra se tornar um insulto, com muitos dos seus membros a apresentarem ligações às universidades como professores ou investigadores, dedicados sobretudo às ciências sociais e humanas. Essa origem composta por muitas teses, muitos papers e muita Tinta-da-China conduz Rui Tavares, Jorge Pinto e outras figuras do partido ao vício académico de quererem realizar um colóquio, um seminário ou uns “estados gerais” sobre qualquer tema antes de tomarem uma decisão. No entanto, numa época em que imensos políticos desejam parecer “populares” e acreditam que isso implica, ao nível da forma, reduzir ao máximo a quantidade e diversidade do vocabulário, enquanto o conteúdo não deve ir além dos temas e sentimentos mais básicos, será assim tão elitista querer elevar o nível do debate? O otimismo do Livre, considerado ingénuo por muitos, consiste afinal em procurar, através dos recursos do Estado, conceder a cada popular os meios para se tornar um intelectual. A pertença a famílias de passados modestos que ascenderam à classe média graças à educação pública convence os Pintos e os Tavares de que tal é possível.
10. Relativamente às eleições presidenciais, Livre e Bloco de Esquerda esperaram durante muito tempo por uma candidatura de António Sampaio da Nóvoa, quase implorando ao antigo reitor para que avançasse. Quando Nóvoa se colocou à margem da corrida, e perante a repulsa em apoiar um Seguro que também não os esperava de braços abertos, livristas e bloquistas optaram pela solução pouco original de apresentar candidatos partidários, com Jorge Pinto e Catarina Martins a exporem-se às acusações de dividirem a esquerda ameaçada pela expansão das direitas (quanto a António Filipe, nunca ninguém esperou que o PCP saísse do seu planeta privativo). O caso de Pinto, o último a avançar e com notórias dificuldades em recolher donativos e assinaturas, gerou especial perplexidade, tanto mais que o nortenho se enredou num discurso confuso sobre uma eventual desistência. Mesmo assim, Jorge Pinto registou uma prestação convincente nos debates e contrariou a visão do Livre como partido de um homem só, o único feito que a sua candidatura parece capaz de alcançar tendo em conta a facilidade com que o eleitorado livrista cede ao argumento do voto útil. Na verdade, com o aproximar da data da votação e o cenário pintado pelas sondagens, também cresceu entre os eventuais eleitores de Catarina Martins o medo de serem apontados pelos historiadores futuros como os responsáveis por uma segunda volta disputada entre a direita “moderada” e a extrema-direita. Em conjunto, Filipe, Martins e Pinto não deverão atingir os 7%, quanto mais os 10% obtidos por Marisa Matias em 2016. Apesar disso, Livre e Bloco acreditam que, feita a prova de vida, 19 de janeiro será outro dia.

11. No Natal de 2025, muito se falou do “tio fascista”, uma personagem-tipo geralmente descrita como um homem de meia-idade algo rude que estragava os jantares natalícios quando, já depois de beber uns copos, começava a enumerar os pontos em que André Ventura tem razão ou a contar malfeitorias alegadamente cometidas por imigrantes, dando assim origem a discussões familiares nocivas para a placidez da quadra. Curiosamente, o recém-quarentão Ventura não tem aspeto de tio. Aliás, torna-se difícil imaginar os restantes candidatos presidenciais enquanto tios, embora Jorge Pinto possa interpretar aquele primo que viveu muito tempo no estrangeiro e é caracterizado pelas velhas da família como “uma joia de moço”. Há, contudo, uma exceção: o “tio liberal” João Cotrim de Figueiredo, aquele de que muitos rapazes gostariam de ser sobrinhos. Trata-se de um tio com dinheiro (dá sempre jeito) que parece mais novo do que realmente é e até conhece gente famosa da televisão. Cotrim parece não se importar demasiado com o que pensam dele, adora passar tempo com os sobrinhos e anima uma tarde aborrecida com propostas do tipo “E se fôssemos dar um passeio de mota?” Ao contrário dos “chatos” da mesma faixa etária, este tio tem histórias interessantes para contar e sabe dar conselhos sem ser moralista ou paternalista. Por isso os jovens ficam a ouvi-lo durante todo o jantar, embora lá para o fim da refeição alguém na mesa se comece a interrogar sobre se, para lá da aparência, o tio liberal e o tio fascista serão assim tão diferentes.
12. Durante muito tempo, o contrato de Luís Marques Mendes com a SIC incluiu uma cláusula que obrigava legalmente a estação a tratar o fafense como se este fosse uma criança. Não faltavam, assim, as almofadas na cadeira e os pivôs que se limitavam a dar as deixas, ignorando com um sorriso as numerosas contradições e previsões falhadas de Luís. Se na noite dominical o comentário de Marques Mendes coincidia temporalmente com um jogo de futebol importante, não havia problema: a “opinião que conta” ia para o ar no intervalo da partida ou ainda antes do apito inicial, mesmo que o Jornal da Noite tivesse começado há apenas cinco minutos. Quer na televisão quer online, Luís era bafejado pelo grupo Impresa com o carinho e respeito devidos à personalidade popular e influente que o antigo líder do PSD supostamente era. Animado com a felicidade vivida na Terra do Nunca, Luís aventurou-se no mundo real sob a proteção do outro Luís, mas nem este conseguiu salvar o primeiro do choque que sentiu ao entrar num ambiente não protegido. De repente, havia por todo o lado gente a fazer perguntas feias e a querer saber coisas que não devia. Os laboriosos esforços empreendidos durante anos a fio pelo então comentador para nunca ofender ninguém, elogiar as pessoas certas e encontrar em cada esquina um amigo jornalista revelavam-se insuficientes. Marques Mendes continua a possuir hipóteses de ser eleito Presidente da República, mas, mesmo que o consiga, o seu tempo político parece ter passado há muito.
13. Conseguirá António José Seguro vencer a primeira volta subindo uma escada cujos degraus são “Pois, que remédio”, “Pronto, já está”, “Engoli um sapo”, “Temos de ser pragmáticos”, “Custou tanto”, “Nem sequer gosto dele”, “Demorei imenso tempo a decidir”, “À falta de melhor”, “Votei muito contrariada”, “Pesando os prós e os contras”, “Apesar de tudo é o menos mau”, “Ou isso ou o facho”, “Oxalá Fulano se tivesse candidatado”, “Não me quero sentir culpado no dia seguinte”, “O que é que se há-de fazer?”, “Podia ser pior”, “Não espero grande coisa”, “Ainda nos vamos arrepender”, “Antigamente é que havia políticos a sério” e “Que tipo cheio de si”?
