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A biblioteca da Junta de Odivelas

Em 1996, a única biblioteca pública existente em Odivelas era a Biblioteca António Maria Bravo, pertencente à Sociedade Musical Odivelense. No final desse ano, o arranque da construção da Biblioteca Municipal D. Dinis (BMDD), inaugurada em novembro de 1997, começaria a alterar a situação. Contudo, já poucas pessoas recordarão que nessa altura surgiu outra biblioteca na cidade, criada por iniciativa da Junta de Freguesia de Odivelas (JFO). De facto, desde 1978 que a JFO pedia à Fundação Calouste Gulbenkian (FCG) que estabelecesse uma das suas bibliotecas fixas em Odivelas, cedendo os livros e o restante material necessário, enquanto a Junta disponibilizaria o espaço de acolhimento. Só em 1995, porém, a Gulbenkian daria uma resposta positiva, com a situação a ser desbloqueada pelo escritor David Mourão-Ferreira, que dirigiu entre 1981 e a sua morte em 1996 o Serviço de Bibliotecas e Apoio à Leitura da fundação. O acervo bibliográfico e o mobiliário para o seu armazenamento, fornecidos pela FCG, seriam instalados na Casa da Memória, o velho edifício junto ao Cruzeiro no qual funcionara outrora a sede da JFO. A inauguração da “Biblioteca Pública Fixa de Odivelas” ocorreu em 19 de dezembro de 1996, numa cerimónia com discursos de Vítor Peixoto, presidente da Junta, e Carlos Lérias, secretário da JFO e “grande impulsionador” do projeto (Odivelas, n.º 6, 1997). A nova biblioteca, com um espólio de 8500 volumes, alargado mais tarde, após doações de particulares, para cerca de 12 mil, funcionaria de segunda a sexta-feira e disponibilizaria para consulta o diário A Capital, o jornal musical Blitz e os periódicos regionais Vento Novo e Loures Magazine.

Quando comecei a deslocar-me à Biblioteca Fixa, em finais de 1997, o espaço reduzido da Casa da Memória já se revelava acanhado quer para o espólio quer para as mesas de consulta dos livros. O número de pessoas com cartão de leitor, que começara à volta de 200, ultrapassava ligeiramente os 500, sendo duvidoso que alguma vez tenha atingido os mil leitores. Entretanto, a abertura da BMDD e o dinamismo que rapidamente adquiriu tornavam redundante a existência de duas bibliotecas na mesma rua. Conhecedor desta situação, Vítor Peixoto optou pela transferência da biblioteca da JFO para outras instalações da Junta, mais concretamente uma cave da Rua José Gomes Ferreira, na Quinta Nova (perto do local da futura estação de metro de Odivelas), até aí utilizada provisoriamente pelo centro infantil do Vale do Forno e cuja ocupação libertaria a Casa da Memória para a realização de exposições. Após arranjos na cave, a Biblioteca Fixa reabriu em janeiro de 1999 num local bem mais amplo, com um espaço reservado às crianças e um computador ligado à Internet. Ainda nesse ano, a atividade do serviço, assegurada por duas funcionárias, alargou-se aos sábados.

 

 

Obviamente, o empréstimo domiciliário era o grande atrativo da Biblioteca Fixa, permitindo a leitura gratuita de um volume por um período de duas semanas, prorrogável por mais duas. O acervo estava um pouco envelhecido, mas disponibilizava livros então difíceis de encontrar como, por exemplo, Um Homem Não Chora, de Luís de Sttau Monteiro, os três primeiros romances de Jorge Amado ou uma edição em dois volumes da Peregrinação com ortografia atualizada por Maria Alberta Meneres. Graças à biblioteca da JFO, pude ainda ler obras de autores tão diversos como António Lobo Antunes, Aquilino Ribeiro, Fernão Lopes, Gabriel García Márquez, Gil Vicente, Jacinto Lucas Pires, Manuel da Fonseca, Margarida Brum, Mário Zambujal, Pepetela ou Rui Zink. Parecia ser um lugar silencioso, um abrigo à margem de tudo, onde podia folhear os livros na maior tranquilidade até escolher um para levar para casa.

Na verdade, o problema era esse: aparentemente, quase ninguém além de mim frequentava a Biblioteca Fixa. Fosse devido à concorrência da BMDD, à escassa eficácia das ingénuas placa e faixa que anunciavam aos transeuntes o que existia na cave, à carência de iniciativas para atrair ao espaço os estudantes da Secundária de Odivelas ou ao mero facto de que lugares como aquele já não se usavam, o certo é que no final de 2003 a Assembleia de Freguesia odivelense discutia o destino do espólio após o encerramento definitivo da biblioteca surgida apenas sete anos antes. Depois de uma divergência da AFO com a Câmara quanto à eventual distribuição dos volumes pelas escolas do concelho, as obras foram entregues à BMDD, onde ainda hoje se encontram. A cave da Rua José Gomes Ferreira permaneceu na posse da JFO e lá se situa atualmente o Centro Augusto Pais Martins. Passaram já 20 anos desde o fecho e a biblioteca odivelense nascida graças ao mecenato da Gulbenkian parece ter caído no esquecimento. Eu lembro-me, porém, de como o acesso gratuito àqueles livros foi decisivo para a minha formação como leitor e estarei sempre grato a David Mourão-Ferreira pelo que me proporcionou.