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Desumidificador

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A direita e a realidade

Rui Tavares refere no ensaio Esquerda e Direita: Guia histórico para o século XXI (Tinta-da-China, 2015), onde defende a manutenção do sentido e actualidade da dicotomia política vigente desde a Revolução Francesa, que uma diferença essencial entre direita e esquerda reside no facto da primeira ver o presente como “uma emanação do passado” e acreditar que “as coisas foram assim por natureza humana – e por isso são e serão”, enquanto a esquerda considera possível mudar a sociedade e “reescrever o porvir” (pp. 41-42). Ainda hoje, a direita autodescreve-se como o campo político associado à prudência e ao realismo, em contraponto ao sonho utópico do lado esquerdista. Ao optimismo antropológico da esquerda, os conservadores opõem o pessimismo e os limites impostos pela natureza humana aos projectos transformadores. A crise iniciada em 2008 levou a transpor esta diferenciação para a esfera económica, de onde provinham dados objectivos (ou vistos como tal) usados pela direita para desacreditar a retórica anti-austeritária. Vítor Gaspar resumiu essa atitude na expressão “Não há dinheiro. Que parte é que não perceberam?”, enquanto Cavaco Silva destacou, no Verão passado, a vitória da realidade sobre a ideologia. Noutra área, muito se tem falado do crescente distanciamento entre as elites e os media, hegemonizados pela cultura de esquerda e dominados pelo “politicamente correcto”, e o sentimento do cidadão comum, afectado no seu quotidiano por realidades opostas ao discurso oficial. A experiência de comentadores cuja vida tem sido dedicada a estudar a história das elites políticas e intelectuais (Rui Ramos) ou a dirigir jornais (José Manuel Fernandes) fornece-lhes, de facto, um conhecimento que os torna especialmente aptos a criticar o establishment. Assim, a direita possuiria uma perspectiva realista sobre a vida, o Homem, a economia e a sociedade, enquanto a esquerda, coitada, andaria sempre no mundo da lua.

 

 

Apesar da generalização deste princípio, os embates da direita portuguesa com a realidade sucederam-se a uma cadência e uma violência quase spinolistas nos últimos três anos. O PSD e o CDS, tal como os seus apoiantes na comunicação social, começaram, em 2015, por acreditar que a eventual aliança entre os partidos de esquerda para cujo perigo alertaram durante a campanha para as legislativas só seria possível num cenário de ficção científica. Mais tarde, esperaram que os militantes do PS rejeitariam uma coligação com os inimigos históricos do partido e juntar-se-iam a Francisco Assis para comer uns leitões. Prognosticaram que a desdenhosamente chamada “Geringonça” não duraria mais que uns meses, devido à intransigência de BE e PCP. Creram que a redução do financiamento público aos colégios privados iria causar no povo português o medo da sovietização iminente. Avisaram que a classe média seria espoliada pela cobiça de Mariana Mortágua e os investidores nacionais e estrangeiros fugiriam em pânico. Afirmaram em bloco (não se tratou de um delírio solitário de Passos Coelho), apoiados nos pareceres de economistas respeitados como João César das Neves, que as reversões efectuadas por António Costa trariam o “Diabo”, ou seja, a derrapagem das contas públicas, a estagnação económica e um segundo resgate. Contaram com uma severa punição de Bruxelas ao foco de rebeldia surgido no extremo ocidental europeu. Riram-se da hipótese de Mário Centeno presidir ao Eurogrupo. Denunciaram o crescimento insustentável do Estado e das despesas com o funcionalismo público. Viram na privatização dos CTT um caso de sucesso. Vaticinaram que Passos voltaria à residência oficial de S. Bento ainda em 2019 (alguns ainda acreditam nisso). Tudo isto e muito mais não foi considerado uma mera hipótese, mas antes o resultado natural da própria realidade das coisas.

 

A chegada de Rui Rio à liderança do PSD foi encarada pela maior parte das direitas com uma profunda revolta, acompanhada pela atenção, até aí pouco frequente, ao CDS de Assunção Cristas. Para muitos colunistas, a estratégia de Rio de propor a Costa pactos em torno de determinados dossiers constituía uma traição em si mesma e não deixaria de revoltar o país não dependente do Estado, ansioso por uma alternativa política ao socialismo, ideologia cujo “consenso” pernicioso alastrava agora à direcção do partido de Sá Carneiro. Perante esta previsão, Cristas anunciou a sua candidatura a primeira-ministra em 153 entrevistas e apostou na possibilidade de atrair para o CDS os eleitores irados pelo desvio centrista do PSD. O sector mais conservador da base de apoio do PS, alegadamente insatisfeito com a radicalização à esquerda do partido, tem igualmente sido visto como um potencial mercado eleitoral para os partidos agora na oposição. É certo que ainda tudo é possível até às eleições, mas as sondagens divulgadas após os congressos do PSD e do CDS apontam tendências bizarras para quem leu os jornais dos últimos meses. A maioria dos inquiridos quer mais acordos PS-PSD, sobretudo na área da saúde, enquanto as intenções de voto nos socialistas sobem ligeiramente, os “laranjas” crescem como não se via desde 2015 e o CDS mantém-se firme no quinto lugar, entre os 5 e os 7%. Os estudos actuais também não indicam o aparecimento (a não ser dentro da casa de Clara Ferreira Alves) de eleitores do PS ansiosos por separar o partido da sua “cauda” de radicais.

 

O país de e para o qual falam os comentadores de direita parece só existir em dois locais: na imaginação deles e no Instituto de Estudos Políticos da Universidade Católica. Para ser justo, o país do Observador existe, tal como existia em 1975 o país do PCP. Todavia, Álvaro Cunhal veio a compreender a posição minoritária dos comunistas no conjunto do país e adoptou uma flexibilidade táctica necessária para defender as “conquistas da Revolução”, enquanto Rui Ramos e os seus correligionários persistem em chocar contra o presente. O caminho para o superavit traçado por Mário Centeno nem sequer permite continuar a descrever a esquerda como um bando de irrealistas que gastam à maluca e obrigam a direita a vir colar os cacos do país. O que é feito dos clichés quando mais precisamos deles?

 

P.S. Uma previsão da direita parece estar correcta. Ao saber que o Governo português não expulsou nenhum diplomata russo, Donald Trump decerto ficará furioso. Pode até chegar ao ponto de ir à Wikipedia tentar descobrir onde fica Portugal.