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A nova direita velha

Para quem só o descobriu agora, Riccardo Marchi é um historiador italiano que se especializou no estudo da “direita radical” portuguesa entre o final da II Guerra Mundial e a actualidade. Num trabalho valioso disperso por vários artigos, capítulos de obras colectivas e livros como Folhas Ultras, Império, Nação, Revolução ou A Direita Nunca Existiu, Marchi conta a história vista do lado dos vencidos (?) que condenaram as cedências e hesitações de Marcelo Caetano, viveram a prisão, o saneamento ou a luta armada durante o PREC e tentaram sem sucesso criar alternativas à direita do PSD e do CDS no período pós-revolucionário. Além de ser um historiador credível, Riccardo é um simpatizante da extrema-direita, ou, como o próprio já disse, não acredita que a democracia liberal seja o fim da História. As suas opiniões ajudam o seu trabalho, na medida em que os “fachos” portugueses depositam em Marchi uma confiança que não têm nos jornalistas e historiadores do “sistema” e cedem ao autor italiano documentos e testemunhos essenciais para compreender um sector político cuja memorialística é muito escassa. Por tudo isto, Riccardo Marchi foi a escolha natural do grupo Almedina para escrever A Nova Direita Anti-Sistema. O Caso do Chega (Edições 70, 2020), que o professor António Costa Pinto descreve na badana como “o primeiro livro sério e desapaixonado sobre o Chega”, representando assim uma ruptura com as dezenas de livros de comunas histéricos em torno do partido de André Ventura já publicados. A obra ganhou publicidade com o manifesto que, após uma entrevista de Marchi à RTP, várias dezenas de académicos assinaram para condenar a alegada suavização do carácter racista e extremista do Chega feita pelo estudioso.

 

Ao contrário de anteriores livros do mesmo autor, A Nova Direita… foi escrito em cima dos acontecimentos que narra, com a pesquisa e redacção a acompanharem o turbilhão de eventos pelo meio dos quais, após a eleição de André Ventura para o Parlamento, o Chega cresceu nas sondagens e no número de militantes a uma velocidade assombrosa. Essa falta de distanciamento temporal permite classificar o livro mais como um ensaio político que como uma obra académica, pelo que a ausência de elementos como notas de rodapé ou uma melhor definição teórica dos conceitos utilizados não é significativa. O resumo dos eventos feito por Marchi na sua “história do Chega” (p. 15) revela-se precioso em si mesmo, na medida em que a vida do partido tem sido marcada por polémicas tão breves, intensas e numerosas que se anulam umas às outras e criam um ruído adverso à compreensão do fenómeno. Outro trunfo do autor é dar voz aos dirigentes do Chega por si entrevistados, figuras mediaticamente desconhecidas cujo trabalho é remetido à escuridão pelo protagonismo de Ventura, o homem em torno do qual, como os seus próprios seguidores afirmam, gira todo o partido. A narrativa de Riccardo esclarece o percurso e as motivações da elite chegófila e de alguns fundadores que abandonaram a organização devido a questões mais pessoais que ideológicas. O livro inclui ainda uma análise dos documentos programáticos divulgados pelo Chega na Internet, focando-se Marchi nos principais temas abordados e nas contradições de textos escritos por mãos diferentes. Finalmente, o investigador apresenta várias conclusões sobre a identidade política do Chega e os desafios que este enfrenta, entre eles a necessidade de atrair quadros que criem “uma classe política sólida no vértice do partido” (p. 200), reforcem a sua estrutura interna e se preparem para um eventual Governo com a presença de Ventura.

 

A polémica estala em torno da definição do Chega como “um partido populista de nova direita radical” (p. 191) apresentada por Riccardo Marchi. Os epítetos de “radical” e “populista” são relativamente consensuais, ao contrário da opção de Riccardo de incluir o partido venturista na “nova direita” em ascensão internacional. Esta direita seria nova por não ter “nada a ver, do ponto de vista doutrinário” (p. 194), com os regimes ditatoriais criados nos anos 20 e 30 do século XX. No caso português, o Chega “não reivindica a herança política” do salazarismo nem enaltece o “colonialismo estado-novista” (pp. 195-196). A entrada nas hostes chegófilas de saudosistas da ditadura e antigos membros do PNR (perdão, do Ergue-te!) ou doutras organizações de direita radical é desvalorizada por Marchi, devido à incapacidade dos elementos mais à direita de influenciar a cultura política de um partido que visa um eleitorado amplo e, apesar das suas críticas às minorias étnicas, “não as considera corpos estranhos à comunidade nacional” (p. 197). De resto, Ventura e os outros dirigentes do Chega, vários deles com passagens anteriores por PSD e CDS, não se consideram radicais ou fascistas. O ponto fraco do livro está precisamente na atitude de Marchi ao reproduzir sem contestação (e com concordância implícita) as afirmações dos entrevistados, inclusive sobre temas tão relevantes como o financiamento do partido, embora o autor possa argumentar que uma investigação mais profunda não se encontrava no âmbito do seu projecto. Há ainda pontos que poderiam ter sido melhor desenvolvidos, como as ligações de André Ventura ao Benfica, a influência da religião cristã no pensamento da cúpula do Chega ou as relações com organizações estrangeiras da mesma família política, as quais tiveram avanços significativos já depois da impressão de A Nova Direita

 

 

Ao contrário da Iniciativa Liberal, que definiu aquando da sua fundação um determinado ideário e depois partiu para a missionação (“és liberal e não sabias”), o Chega procurou sobretudo adaptar-se às preferências do seu público-alvo. Com a inteligência e talento político que os seus adversários devem reconhecer (basta olhar para o CDS para saber como seria um partido liderado por alguém totalmente inepto para a função), André Claro Amaral Ventura observou os comportamentos da população no seu habitat dos subúrbios de Lisboa e notou o crescente fracasso do discurso da direita PSD/CDS. Por ser um político pragmático ou, segundo mentes malévolas deformadas pelo marxismo cultural, um oportunista disposto a tudo para alcançar o poder, André pegou nos temas centrais de um certo vox populi suburbano (ciganos, justiça, corrupção, etc.) e, depois de obter a fama com a sua gravata vermelha, apresentou-se como o campeão dessas causas. A chave para ir além do microscópico espaço eleitoral dos antecessores do Chega estudados por Marchi reside num discurso suficientemente ambíguo para atrair os fascistas tradicionais sem espantar votantes indignados que pretendem abalar a ordem política vigente e a quem o distante Estado Novo nada diz. Assim, Ventura não condena o 25 de Abril, mas diz que Portugal está a decair há 46 anos. Não suspira pelo Império perdido, mas orgulha-se da nossa História gloriosa, imaculada e nunca criticável. Não proclama a superioridade da raça branca, mas queixa-se de que agora os escravos somos “nós”. Não elogia Salazar, mas tosse quando se refere a Aristides de Sousa Mendes. Na minha opinião, não se trata de uma nova direita. É uma direita mais velha que a Sé de Braga (a terra do cónego Melo, homenageado por Ventura) disfarçada de “popular” e “moderna”. O problema de Marchi reside na confusão do discurso com a prática quotidiana do Chega e do seu presidente. Um bom exemplo disso é a afirmação feita pelo historiador de que André não pretende “promover o culto da personalidade” nem a “adesão acrítica ao líder” dentro do partido (p. 199).

 

Como o próprio Riccardo Marchi admite, A Nova Direita… é apenas um ponto de partida para estudos mais aprofundados sobre o Chega, apresentando os dados básicos relativos ao líder, aos militantes e à produção teórica do partido. Trata-se de um contributo importante para o debate público, talvez precisamente por provir de um autor que não está dominado pelo imperativo cívico de denunciar André Ventura como uma ameaça para a democracia. Contudo, a biografia autorizada do Chega escrita por Marchi padece do mal comum nesse tipo de obras, ricas em factos mas que deixam sempre a sensação de que o mais interessante ficou de fora do livro.

 

P.S. Enquanto o pessoal do Observador solta berros de “Censura! Censura!”, Riccardo Marchi tem dialogado civilizadamente no Facebook com vários dos historiadores que o criticaram. Ainda há quem prefira jogar em vez de se atirar para o chão ao mínimo contacto.