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A quarta derrota

1. O que é que tem a Joana que é diferente das outras? Em que momento específico a procuradora Joana Marques Vidal tomou uma decisão que os restantes magistrados não tomariam, pôs fim à impunidade e agarrou os poderosos pelos colarinhos? Não sei. Na verdade, pouca gente sabe, mas isso não interessa nada. Na política portuguesa, o que importa é o discurso, não a substância.

 

2. À medida que o mandato da actual procuradora-geral da República se aproximava do fim e nem o Governo nem Marcelo Rebelo de Sousa davam sinais de querer reconduzir Marques Vidal por mais seis anos, uma vaga foi crescendo na comunicação social. Os colunistas até admitiam a validade do princípio de atribuir apenas um mandato a cada procurador-geral, mas referiam logo a seguir a situação excepcional vivida desde 2014. Sem Joana Marques Vidal à frente da PGR, tudo voltaria para trás e José Sócrates passear-se-ia nas ruas com um grande sorriso no rosto. Embora discutível, esta posição era legítima, mas foi expressa com tanta veemência por tanta gente, toda ela do mesmo quadrante político e geralmente a escrever nos mesmos jornais, que a paixão por Joana se tornou suspeita. A hipótese de um discurso destes politizar a justiça, atribuir a Joana um papel de super-juíza à brasileira que a magistrada nunca reclamou, reduzir as instituições à personalidade de quem as dirige e fragilizar Joana ao torná-la a líder honorária da direita aparentemente nunca passou pela cabeça de ninguém. Sobretudo da de João Miguel Tavares, já que o coitado acredita mesmo no que diz, enquanto os seus camaradas conseguem ser cínicos.

 

 

3. Como esta questão nunca foi jurídica, mas sim política, houve naturalmente quem vencesse e perdesse aquando do desfecho. Para António Costa e Marcelo Rebelo de Sousa, que os fãs de Joana quiseram tornar reféns, foi uma clara vitória, sobretudo nas circunstâncias em que ocorreu. A escolha de Lucília Gago, um membro da equipa de Marques Vidal, cria uma impressão de continuidade, reforçada pela nota da Presidência onde Marcelo garante que a Operação Marquês não morre e assume a responsabilidade pelo futuro. Num cenário destes, em que o nome e o timing do anúncio apanharam todos de surpresa, a direita sente-se entalada. Claro que os escribas podem vociferar com ardor contra Belém, mas quem está na política activa ficou mudo e quedo, isto depois de Duarte Marques ter ameaçado que Costa pagaria muito caro se não nomeasse Vidal. De facto, a popularidade imensa de Marcelo torna-o inexpugnável e confere a quem o ataca uma aparência sacrílega. Em Portugal, quem se mete com o Marcelo, leva.

 

4. Muita gente no jornalismo português considera-se agora enganada pelo Presidente da República. Na verdade, Marcelo poderá ter dado a entender que iria por um lado e depois ido por outro. Curiosamente, a habilidade de Rebelo de Sousa nesse tipo de manobras políticas não se encontra referida no livro infantil Marcelo, o Presidente, editado pela Alêtheia. Marcelo conseguiu até enganar Marques Mendes, conhecido como um dos mais perspicazes advogados portugueses. Mesmo irritado, Luís recorreu na SIC às suas capacidades intelectuais únicas para criticar a decisão sem deixar de bajular o Presidente. Porém, a ameaça já foi lançada pelas chefias dos media: o maravilhoso homem dos afectos pode transformar-se em pouquíssimo tempo no amiguinho de Ricardo Salgado.

 

5. Rui Rio e os outros políticos do PSD que falaram em público sobre a recondução da PGR não pareciam ser do mesmo planeta, quanto mais do mesmo partido. Já no final, Rio disse x, depois disse y e acabou por não agradar a ninguém. Foi, afinal, um bom resumo do seu período na liderança social-democrata.

 

6. Às 21.00 de 20 de Setembro, soube-se que Joana Marques Vidal não seria reconduzida no cargo. Logo a seguir, Pedro Passos Coelho escreveu a todo o vapor um texto onde elogiava Joana e aludia a motivos secretos para a decisão que o Governo não tivera a “decência” de mencionar, enviou-o ao Observador e o jornal publicou-o. Às 23.00, as palavras de Passos já estavam online. Estas duas horas perfeitamente normais vêm desmentir por completo a tese da partidarização e instrumentalização pela direita do processo de nomeação da PGR. Só teóricos da conspiração especializados em processos de intenções podem continuar a falar disso.

 

7. Aquilo que supostamente deveria constituir um processo objectivo e institucional de escolha do ocupante de um cargo público foi transformado pela tribo de Passos Coelho, de forma desnecessária, na sua quarta grande derrota, depois do “passismo” ter sofrido os efeitos da formação da Geringonça, da ausência do Diabo e das autárquicas de 2017. Mais uma vez, a culpa reside em grande parte na própria tribo, que cai no exagero, sobrestima a sua força e vê-se sempre ultrapassada pela realidade, dando a sensação de que dispara rajadas de metralhadora contra um espantalho antes de ser atingida por uma pedrada.