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Desumidificador

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A tempestade perfeita

Visionar peças televisivas acerca da actividade política quotidiana de Rui Rio e Assunção Cristas assemelha-se a brincar com o “jogo dos contrários” que ofereceram ao meu sobrinho nos anos. De um lado (à esquerda?), surge um homem profundamente desconfortável com a existência dos jornalistas e a necessidade de fazer e dizer coisas para alimentá-los. Do outro lado (à direita?), vemos uma mulher envolvida numa relação amorosa com os media só superada em ardor e intensidade pela do Presidente da República. Enquanto Rio não poupa nas críticas aos títulos e notícias dos jornais, tal como aos políticos/comentadores que o arrasam, Cristas dispõe de uma página inteira reservada para si no Correio da Manhã. As atitudes opostas dos líderes de PSD e CDS para com a comunicação social têm inevitáveis consequências políticas.

 

Bastou ler as crónicas de Rui Ramos, ideólogo do Observador, publicadas logo a seguir à eleição de Rui Rio para perceber que a expressão “má imprensa” era insuficiente. O novo presidente do PSD seria feito em picadinho. Para além do escrutínio a pente fino do passado do líder social-democrata e dos seus próximos, o jornalismo luso impulsionou com notável zelo a dinâmica de derrota de Rio. Mesmo que não existissem influências partidárias nas redacções, estas não deixariam de ver no portuense um adversário. Afinal, as chefias dos media nacionais são muito sensíveis (para dizer o mínimo) à crítica e qualquer reparo às opções editoriais merece uma resposta assente em três pontos: classificação da crítica como uma ofensiva contra a liberdade de imprensa, justificação das piores acções com os motivos mais nobres e ataque pessoal aos críticos. Neste cenário, o choque entre o meio mediático e alguém capaz da afronta de não dizer nada durante um mês era inevitável. O problema para Rio é que, sem uma presença digna de registo na Internet, não possui qualquer via de comunicação alternativa aos media tradicionais. Num cargo executivo como o de presidente da Câmara do Porto, Rui podia apresentar “obra feita” aos eleitores no fim de cada mandato, mas, na função de líder da oposição, se não aparecer todos os dias nos ecrãs, simplesmente não existe. A falta de sintonia com o tempo mediático, dominado na perfeição por Marcelo e cada vez melhor por Cristas, reduz muito as hipóteses do ex-autarca de impor a sua marca no mercado.

 

 

Obviamente, Rui Rio não é apenas uma pobre vítima indefesa da SIC e do PPC/PSD, destacando-se pela sua notável capacidade de tornar as coisas ainda piores. O político nortenho parece ter subestimado os adversários e sobrestimado a sua pessoa, ao iniciar a sua liderança com uma atitude do tipo “daqui a uma semana tenho-os a todos na minha mão”. Não teve, e com o passar do tempo vieram ao de cima a falta de paciência para opiniões alternativas e o impulso de transformar a determinação em birra já revelados por Rio na Invicta. Além dos factores pessoais, o problema de Rui têm um âmbito (como ele diria) estrutural. Um posicionamento de centro-direita semelhante ao de Pedro Marques Lopes, o único comentador político simpático para Rio, arrisca-se a não agradar a ninguém num quadro de bipolarização. Para a esquerda, o líder “laranja” enverga as vestes de brasa tentadora capaz de desviar António Costa da fidelidade conjugal devida aos seus parceiros. Por seu turno, a direita esbraceja ao ver Rio desrespeitar o mandamento sagrado do liberalismo (“Se uma coisa dá dinheiro, não pode ser má”) e faltar às sessões de culto a Joana Marques Vidal. Considerando Rio e Costa excrementos idênticos da besta vermelha, os criadores de novos partidos fomentam uma fragmentação possivelmente suicida da direita, enquanto os fracos resultados nas sondagens multiplicam a impaciência da oposição interna no PSD.

 

A única vantagem de Rui Rio está no timing, dado que, apesar do anúncio precoce de Pedro Duarte, a perspectiva de uma derrota do PSD nas legislativas de 2019, cujo efeito “queimaria” um eventual novo líder, dissuade motins no navio laranja. Rio ganha assim algum tempo para inverter a situação a seu favor. A habitual distância entre a opinião pública e a opinião publicada tornaria admissível imaginar uma reviravolta. No entanto, tudo o que Rio afirmou depois de regressar das férias, incluindo o tempo perdido na resposta aos apelos a “tréguas” feitos por Marques Mendes de espada na mão, fez a tensão atingir níveis insustentáveis. Sabendo-se que Rio não tem vontade nenhuma de se demitir, o conflito dentro do PSD pode escalar a curto prazo. Para quem está de fora, sobretudo para Costa e Cristas, assistir a este animado espectáculo é divertidíssimo, mas que consequência terá o enfraquecimento do PSD na evolução de um regime do qual constituiu um dos pilares?

 

P.S. Entretanto, quem quiser saber o que anda a Aliança a fazer deve consultar a página Portugueses com Pedro Santana Lopes. Este espaço virtual responde àqueles que acusaram o novo partido “personalista” de ser demasiado centrado na figura do seu fundador, dizendo-lhes: “Têm razão”.

 

 

 

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