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Desumidificador

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A tentação da bola

O “escândalo” em torno dos bilhetes para um SLB-FCP oferecidos a Mário Centeno motivou duas atitudes. Por um lado, a tomada de consciência da artificialidade da agenda mediática, orientada não pelo que realmente acontece mas pelas ideias de meia dúzia de pessoas interessadas em que se fale de determinado “facto” real ou imaginário (provavelmente, sempre foi assim, mas ainda havia consumidores ingénuos dos media). Por outro, a defesa de um maior distanciamento dos políticos portugueses em relação ao futebol. João Miguel Tavares considera que Centeno errou ao sentar-se na tribuna presidencial do Estádio da Luz, quando deveria verificar-se uma separação total (“um ring-fencing absoluto”) entre quem governa e os dirigentes desportivos, quase sempre envolvidos em processos judiciais. Em princípio, esse boicote até seria bom, mas há um problema, João Miguel: isso é impossível.

 

A questão da ligação entre política e futebol existe praticamente desde a introdução do football association em Portugal. De facto, a primeira figura da elite política lusa convidada para assistir a um desafio de futebol terá sido D. Carlos, patrono do encontro entre o FC Porto de António Nicolau de Almeida e o Club Lisbonense de Guilherme Pinto Basto, realizado no Porto em 2 de Março de 1894 e no qual os lisboetas ganharam a “Cup d’el Rey” ao derrotarem os anfitriões por 1-0, um resultado que torna fraudulento o actual lema do FCP (“A Vencer Desde 1893”). O facto do monarca observar o jogo ao lado do cônsul britânico no Porto, representante do país que quatro anos antes impusera a Portugal o Ultimato, motivou polémica na imprensa (certas coisas nunca mudam). A partir daí, políticos e autoridades estatais tornaram-se presença frequente nos principais jogos do futebol português.

 

Esta situação deveu-se não só ao sucesso da modalidade mas também à abundância de homens envolvidos simultaneamente na política e no dirigismo desportivo. Nos municípios mais pequenos, tornou-se comum que as figuras da elite concelhia pertencentes aos corpos gerentes do clube local ocupassem ao mesmo tempo cargos de topo nas autarquias, nos bombeiros ou nas misericórdias da vila. Em Lisboa e no Porto, a porosidade entre as direcções dos grandes clubes e o poder local e central (autarcas, deputados, ministros) manifestou-se ao longo de sucessivas décadas. As duas esferas cruzavam-se, mas nem sempre tinham interesses coincidentes. Como Rahul Kumar estudou em A Pureza Perdida do Desporto, as figuras destacadas do Estado Novo que assumiam a direcção dos “grandes” adoptavam, em nome do interesse dos clubes, estratégias opostas às ideias do regime, ao estimularem a profissionalização dos jogadores ou contratarem treinadores desafectos ao salazarismo como Cândido de Oliveira. O 25 de Abril originou um breve desentendimento entre os dirigentes das maiores colectividades, habituados a apoios estatais, e uma Direcção-Geral dos Desportos que tentava contornar ou reverter o profissionalismo, mas depressa se verificou uma conciliação entre os poderes político e futebolístico. No início do século XXI, falava-se mesmo de promiscuidade, enquanto Manuel Vilarinho declarava o apoio do Benfica ao PSD nas legislativas de 2002 e Rui Rio marcava a diferença ao entrar em conflito com Pinto da Costa. Mais tarde, a relação política-futebol desapareceu do debate público, até se descobrir agora o efeito nocivo da proximidade física aos presidentes de FC Porto, Benfica e Sporting.

 

 

Muitos políticos surgem ligados ao fenómeno futebolístico simplesmente porque, à imagem da maioria da população, são adeptos ferrenhos de um clube. O socialista Tiago Barbosa Ribeiro foi um dos deputados portistas a participar recentemente num jantar com Pinto da Costa e, a avaliar pelo texto e fotografia publicados por Barbosa Ribeiro no Facebook, seria muito difícil explicar-lhe onde está o problema do repasto. Os secretários de Estado envolvidos no “Galpgate” não terão percebido, devido a ingenuidade e à euforia nacional com o Euro 2016, qual era o mal de irem apoiar a selecção. Para além da espontaneidade, existe, obviamente, o interesse em beneficiar da projecção pública associada ao futebol, cujos efeitos na política foram demonstrados pelo comentador benfiquista André Ventura, e aproveitar os contactos que a comparência nas tribunas da Luz, do Dragão ou de Alvalade permite estabelecer. Tudo isto é encarado há muito tempo como natural e agora parece ser demasiado tarde para o impedir.

 

A mesma comunicação social que eleva o futebol a expressão da Pátria e concede tempo de antena diário ao discurso agressivo dos presidentes dos “grandes”, dotados de um protagonismo superior ao de quem dá pontapés na bola, não pode agora tratar os clubes como antros de vícios e exigir aos membros da elite política distância da gente repelente dos estádios. Curiosamente, os processos judiciais envolvendo Pinto da Costa, Bruno de Carvalho e Luís Filipe Vieira não levaram nenhum sócio dos respectivos clubes a exigir a demissão do seu presidente. Quando se tolera que o futebol obedeça a padrões morais próprios, dizer que os políticos não devem apertar as mãos dos líderes clubísticos roça a hipocrisia.

 

P.S. Um ano depois de criar este blogue, continuo a acreditar que desumidificar é preciso. Eu poderia contar uma longa história sobre o complexo processo de escolha do nome, conceito e template do Desumidificador, mas a verdade é que tudo surgiu em poucas horas, devido a um impulso do momento que se prolongará enquanto continuar a divertir-me e a conseguir pensar. Resta-me agradecer a todos os que leram e comentaram os meus posts, dando-me assim um precioso incentivo, e também a Jason Brennan. Afinal, qualquer pessoa que pesquise no Google acerca do autor de Contra a Democracia vem aqui parar.

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