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Desumidificador

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A tralha

Numa das suas primeiras crónicas publicadas na imprensa, mais precisamente no número de Fevereiro de 2006 da revista Atlântico, Henrique Raposo indigna-se com a abundância nas faculdades portuguesas de lojas de fotocópias que lucram à custa das inúmeras reproduções de livros feitas pelos estudantes. Ao invés de comprarem as obras de que necessitam, os alunos acumulam durante os anos da licenciatura “fotocópias enroladas num cordel ou presas por um clipe”, reunidas em pilhas de papéis das quais o recém-licenciado se vê livre com alívio ao atirar as fotocópias lidas e sublinhadas para a arrecadação da casa, onde envelhecem “junto das batatas, das cebolas, dos sapatos velhos da mãe e das garrafas de vinho do pai”. Teoricamente correcta, a indignação de Raposo peca pelo habitual irrealismo da direita, já que muitos dos livros utilizados no ensino superior são caros ou difíceis de encontrar, tornando o recurso a fotocópias inevitável. No entanto, a descrição feita na crónica da Atlântico aplica-se ao meu caso. Coloquei todas as fotocópias que juntei durante a licenciatura e o mestrado em caixas ao lado das diversas tralhas armazenadas pelos meus pais. A documentação académica esteve longe, porém, de ser o único material que não deitei fora ao longo dos anos.

 

O vício de guardar começou pelas revistas de BD da Disney e da Turma da Mônica que li nos anos 90, enquanto fazia na escola testes cujos enunciados e respostas também arquivei. A partir daí, o espaço vago em minha casa foi sendo preenchido quer por centenas de livros quer por vários tipos de objectos em papel que guardei por uma razão ou outra. Por exemplo, manuais escolares e da catequese. Folhetos políticos. Panfletos de publicidade a eventos científicos. Imprensa local de Odivelas. Recortes de jornais com anúncios de filmes. Revistas de cinema. Revistas sobre livros. Revistas de divulgação histórica. Ainda mais revistas. Cartoons publicados na imprensa entre 1998 e 2007 (ano em que deixei de ter pachorra para recortá-los e colá-los em folhas de papel vegetal). Jornais com as notícias dos títulos do FC Porto e de outros acontecimentos marcantes. Mais fotocópias. Uma colecção da Visão que cresceu durante anos e anos até tornar-se um monstro incontrolável. O Inimigo Público, desde a criação até passar a ter apenas quatro míseras páginas agrafadas ao resto do jornal. Marcadores de livros. Cartões de identificação. Bilhetes de teatro, cinema, concertos. Pilhas de cadernos de apontamentos. Folhas manuscritas com as minhas tentativas na ficção e na escrita autobiográfica. Além disto e de muito mais, também tenho de preservar cartas, postais, fotografias e a restante documentação do arquivo de uma família seguidora do provérbio “Guarda o que não presta, terás o que é preciso”.

 

 

E tudo isto para quê? Porquê amontoar imenso material escrito, grande parte do qual nunca voltarei a ler? Preciso mesmo de recordar a matéria de Matemática que estudei no 7.º ano, aquilo que (não) senti no dia da morte da princesa Diana, os filmes em exibição no Verão de 2001 ou as piadas dos cartoonistas sobre o Governo de Santana Lopes?

 

Na actualidade, quando grande parte da escrita tem uma existência apenas virtual, os registos em papel ganham uma maior impressão de permanência, como relíquias de um tempo em que nem tudo podia ser apagado com um clique. Os acervos particulares servem para desafiar a efemeridade de documentos aparentemente insignificantes na época em que foram produzidos. Além disso, as colecções que fazemos podem revelar muito sobre nós ao nível dos hábitos de consumo, das preferências no lazer, das experiências vividas ou apenas daquilo que em dado momento considerámos digno de ser preservado. Não se pode deixar de ter em conta o olhar dos vindouros. Se guardei tanta tralha, foi por pensar que num futuro distante (ou nem tanto) ela poderia ser útil a alguém para estudar uma determinada fase do meu percurso pessoal e familiar ou, noutra escala, dos eventos locais, nacionais e mundiais. Talvez seja uma expectativa ingénua, mas não custa sonhar. Caso a papelada não tenha nenhum uso, os meus sobrinhos podem sempre vendê-la aos alfarrabistas... Esperem, imaginar que ainda existirão alfarrabistas daqui a vinte anos já não é sonho, é delírio.