Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Desumidificador

Desumidificador

A verdade a que temos direito?

Prestes a completar quatro anos de vida, o jornal digital Observador tem transformado a sua presença exclusiva na Internet numa vantagem importante. Desde logo, a empresa jornalística da Rua Luz Soriano não gasta dinheiro a fazer edições em papel (à excepção das revistas anuais lançadas desde 2016) que poucos ainda compram. Além do Observador se manter em constante actualização, não possui as limitações de acesso presentes noutros sites noticiosos e, apesar de tudo, a publicidade não provoca demasiada morosidade na navegação. Os artigos de opinião são bastante propícios a gerar partilhas nas redes sociais, quer por parte de leitores que concordam com o Observador quer através daqueles que encontram nele abundante material para criticar e satirizar. Alguns conteúdos do jornal, como os vídeos protagonizados pelo publisher José Manuel Fernandes, resultam particularmente bem no Facebook. Link após link, comentário após comentário, o projecto alcança um público de dimensão muito superior àquele que se identifica com a agenda do site.

 

Agenda? Qual agenda? Num texto de apresentação escrito no arranque do jornal electrónico, em Maio de 2014, e republicado na revista comemorativa do segundo aniversário, José Manuel Fernandes, um dos fundadores do Observador (juntamente com o historiador Rui Ramos, o empresário António Carrapatoso e o advogado Duarte Schmidt Lino), garante que este não tem “outra agenda que não seja a do interesse público”, mas destaca que o órgão de imprensa acredita “na liberdade tal como é vivida no Ocidente” e, numa definição “necessariamente simplista”, situa-se no espaço “que vai da esquerda moderada e mais liberal à direita democrática”. Ou seja, apoiantes da Geringonça não entram. De facto, apesar da colaboração de Jaime Gama e mais alguns socialistas, o Observador assume-se sem grandes rodeios como um jornal de direita, algo raro no quadro actual da imprensa portuguesa. A notável homogeneidade de pensamento do painel de comentadores contribui para reforçar essa imagem pública do projecto.

 

 

Nos anos de 1975 e 1976, além da dura luta entre os partidos pelo controlo dos jornais nacionalizados, verificou-se o aparecimento de diários e semanários de todas as tendências políticas. Um dos mais duradouros, O Diário, para o qual Ary dos Santos criou o slogan “A verdade a que temos direito”, espelhou até 1990 o universo do PCP, enquanto projectos como o maoista Voz do Povo (berço jornalístico do publisher do Observador) ou os socialistas A Luta e Portugal Hoje tiveram vida curta. O único sobrevivente actual da imprensa engagé dos anos 70, além dos jornais partidários, é o semanário de extrema-direita O Diabo, detentor de recursos cuja proveniência constitui um mistério por resolver. Em 1988, irrompeu no panorama jornalístico O Independente, que, sob a batuta de Paulo Portas e Miguel Esteves Cardoso, fustigou o cavaquismo através de sucessivos escândalos e serviu de trampolim ao PP de Portas, mas a ida deste para a política, acompanhada pela retirada estratégica de Cavaco Silva, empurrou o semanário rumo ao lento desaparecimento. Outro projecto com orientação definida foi a revista mensal Atlântico, publicada entre 2005 e 2008 e cujas páginas revelaram novos colunistas liberais e conservadores depois presentes no Observador e noutros media. Em resumo, o público português pareceu durante décadas ser pouco apreciador de jornais e revistas dedicados a convencê-lo das vantagens de uma dada corrente política, antes do Observador procurar romper com a tradição.

 

No livro Da Direita à Esquerda (2016), António Araújo diferencia O Independente do Observador ao considerar que este “não visa um projecto político de tomada do poder” e procura sobretudo proporcionar um “espaço de afirmação de uma cultura de direita”. Recentemente, Miguel Pinheiro, director executivo do Observador, negou de forma indignada as acusações de que a cobertura noticiosa empreendida pelo projecto online serviria determinados interesses partidários. Na verdade, essas alegações de parcialidade existem desde a fundação do jornal, visto frequentemente não como um mero órgão de imprensa, mas como um ser político dotado de vida própria, a “direita inorgânica” referida por António Costa. Ao longo de quatro anos, o caminho do Observador passou pelo apoio ao Governo de Passos Coelho (a grande referência política dos colunistas do jornal digital), pela oposição inflexível a Costa e aos seus aliados e, após a vitória de Rui Rio nas directas do PSD, por uma marcada hostilidade ao antigo autarca do Porto. Esta estratégia dominou as colunas de opinião e influenciou nitidamente os conteúdos de carácter informativo. Na actualidade, quando alguém quer saber aquilo que a direita portuguesa faz e pensa, não precisa de gastar tempo a ouvir os políticos de PSD e CDS, limitando-se a ir ao Observador ler as últimas crónicas e notícias.

 

 

É salutar que o Observador assuma ao que vem e ponha todas as cartas na mesa, distanciando-se da suposta imparcialidade utilizada por vários jornais portugueses para ocultar “truques” e manipulações. O combate cultural travado pelo órgão da Luz Soriano tem igualmente estimulado um maior debate e uma crescente definição ideológica quer à direita quer à esquerda. Apesar disso, o projecto de Ramos, Fernandes e Carrapatoso, entre outros, integra-se numa tendência internacional perigosa, de acordo com os exemplos de países como os EUA e o Brasil. Se cada órgão mediático segue uma orientação política própria, dotada de temas e linguagens específicos, e dirige-se sobretudo aos cidadãos/consumidores que partilham essa visão da realidade, o debate público perde gradualmente um espaço comum, repartindo-se por pequenas comunidades hostis entre si. Ao fim de algum tempo, sem uma base factual comum a partir da qual se faça a análise, os grupos adoptam narrativas inconciliáveis e a informação torna-se uma arma de arremesso. Entretanto, a possibilidade de acusar qualquer jornalista de obedecer a um certo interesse político ou económico leva ao descrédito da comunicação social, mesmo quando esta apresenta notícias verdadeiras, classificadas como mentiras por quem se vê incomodado por elas. Apesar de um cenário destes ainda não se adaptar totalmente ao caso português, a desconfiança presente na relação entre o público e os media nacionais não augura nada de bom.

 

Há algum exagero na preocupação dos adversários do Observador (nomeadamente Pedro Marques Lopes, esse anjo caído da direita) com o impacto político do jornal electrónico, até porque a direcção e administração deste, à semelhança das restantes cúpulas mediáticas portuguesas, influenciam a opinião pública muito menos do que pensam. No entanto, se a comunicação social do futuro seguir o caminho do Observador, a qualidade da democracia está em causa. Repare-se que não pretendo uma imprensa totalmente plural e imparcial, até porque tal seria impossível, mas apenas jornais heterogéneos onde a opinião e a informação estejam separadas de forma clara. Deixem os leitores fazerem a sua própria interpretação da actualidade. A sério, nós chegamos lá sozinhos.