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A vitória da geringonça

No passado mês de Janeiro, escrevi: “O mérito pertence todo a Sérgio Conceição, o psicólogo que melhorou o estado de um paciente cujo quadro clínico era marcado há quatro anos por sintomas como ansiedade, depressão, insegurança e perda de auto-estima”. A frase continua a resumir bem a época de 2017/18 do Futebol Clube do Porto, prestes a encerrar num ambiente de festa motivado pelo fim do jejum, após cinco anos sem um único troféu. Ninguém de boa-fé pode negar a justiça do triunfo dos “dragões” no campeonato, liderado pelo conjunto portista em mais de metade das jornadas.

 

No entanto, o quadro encontrado por Sérgio Conceição ao regressar ao Porto estava longe de ser favorável. Em resultado da falência do modelo “quem paga mais, ganha mais”, a SAD vivia (e vive) uma péssima situação financeira, na origem da intervenção externa e de uma política de austeridade. O mais grave, porém, era a nítida sensação de declínio vivida no clube e alimentada pela persistência do fracasso, independentemente dos plantéis e treinadores em permanente renovação. O próprio Pinto da Costa, eternizado no poder, produzia mais notícias sobre a sua vida amorosa que declarações relevantes. As peças disponibilizadas a Conceição eram velhas, baratas, escassas e aparentavam um mau estado de conservação, ao mesmo tempo que a concorrência dispunha de material reluzente comprado nas lojas mais caras. Surpreendentemente, Conceição desceu à cave para ir buscar artigos já abandonados e concluiu ainda poderem ter uso. Através de limpezas e reparações, Sérgio deu novo brilho às peças e com elas montou uma geringonça. O aparelho parecia improvisado, pouco eficiente, com parafusos mal apertados e propício a avariar ao mínimo percalço, mas o inventor ligou-o e, apesar de ligeiros tremores, a geringonça funcionou e avançou a todo o vapor.

 

Metáforas à parte, o sucesso “azul e branco” passou por um jogo essencialmente ofensivo, arriscado perante equipas de outro nível como o Liverpool, mas adequado à realidade da liga nacional. A nova atitude e a maior produção de golos atraíram ao Dragão e a outros campos um número crescente de adeptos que gostavam do que viam e sentiam uma ligação especial aos jogadores e ao treinador, um homem “da casa”. Embora critique a importância desmesurada atribuída às palavras dos treinadores dos “grandes”, admito que o discurso frontal e sentido do técnico do FCP, directo mas sem cair na má educação, contribuiu para a mobilização das hostes portistas. Acima de tudo, o efeito benéfico de Sérgio Conceição fez-se sentir ao nível da psique. Os futebolistas do FC Porto ganharam confiança e atingiram níveis de rendimento antes impensáveis, enquanto os maus resultados passavam a ser fontes de lições, em vez de combustível para a descrença. Problemas individuais como os que envolveram Casillas e Soares e teriam levado em épocas anteriores a amuos e saídas foram resolvidos por Sérgio de forma rápida e certeira. Pela primeira vez em muito tempo, deixava de haver um muro invisível a travar o caminho do FC Porto.

 

 

Como nos filmes, houve um momento em que os heróis pareceram estar perdidos. A derrota do FC Porto em Paços de Ferreira pôde ser considerada um tropeção normal após um percurso quase imaculado, mas o jogo do Restelo apresentou um quadro demasiado semelhante ao das temporadas anteriores, entre os erros defensivos, a ineficácia na finalização, a desinspiração dos atletas e a sensação de impotência perante a derrota. Ao deixar-se cair após o segundo golo do Belenenses, Casillas transmitiu a imagem de uma equipa novamente vergada pelo destino. O pentacampeonato do Benfica, então a conhecer uma longa série de vitórias que permitiu às “águias” recuperarem do mau início de época, assemelhou-se a uma realidade palpável. Todavia, Sérgio conseguiu acalmar o Estádio do Dragão na recepção ao Aves e enfrentar a partida decisiva na Luz, há apenas três semanas, com toda a coragem. De acordo com as cautelas que adoptou na segunda parte, Rui Vitória parecia querer sobretudo assegurar o empate e quase atingiu esse objectivo. No entanto, tal como no cinema, breves instantes alteraram o curso da história, quando o golo de Herrera, marcado com a convicção e naturalidade de quem se limita a fazer aquilo que tem de ser feito, deu o triunfo aos visitantes e iniciou o colapso do SLB (com oito pontos perdidos em apenas quatro jornadas). A seguir, eficácia e determinação arrasaram o Vitória de Setúbal e na Madeira, após muito sofrimento, o golo de Marega revelou a verdade luminosa: não existem maldições, não estamos fadados a nada, o futuro será aquilo que fizermos dele. A taça de campeão esperava pelo FC Porto e este não se fez rogado.

 

Para lá do feito dos “dragões”, a liga de 2017/18 será recordada por todas as polémicas decorridas à margem do jogo propriamente dito. Ao longo dos últimos nove meses do futebol português, pudemos imaginar os jogadores em actividade nos relvados a perguntarem “Alguém se importa de nos conceder um minuto de atenção?”, tamanho foi o alarido fora dos estádios. A tensão, o apelo ao ódio e a desconfiança generalizada atingiram níveis inéditos num habitat ocupado por polvos, toupeiras e outras espécies zoológicas. Poderíamos acreditar que este clima pesado vai aligeirar nos próximos tempos, mas claro que não vai. Desde logo, pelo facto de ser bem mais simples falar da arbitragem e dos pecados dos adversários que analisar as fraquezas próprias. As redes sociais continuam a ser o terreno ideal para espalhar a mentira e o insulto, devido à sua função de depósito do lixo existente nas mentes dos cibernautas. Além disso, sem querer meter toda a gente no mesmo saco, muitos dirigentes, jornalistas, comentadores e funcionários dos clubes obtêm dinheiro e projecção mediática graças ao circo mediático que rodeia o futebol. Por isso, interessa-lhes manter viva a agitação dentro da tenda. Se o circo pegar fogo, tanto melhor.

 

P.S. Este título merece uma dedicatória especial para Pedro Silva, autor de O Gato no Telhado e o portista que acreditou mais do que ninguém no modelo de jogo de Sérgio Conceição e na capacidade do técnico para levar os “dragões” ao êxito.