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Adeus, DN

O estado actual da imprensa diária portuguesa está longe de ser brilhante. Entre os diários generalistas, o Público permanece aquele que fornece a informação mais completa e aprofundada, embora por vezes se resuma à palavra de ordem “Marcelo bom, Costa mau”. O Correio da Manhã é um caixote de lixo. Por sua vez, embora apresente algumas entrevistas interessantes, o i enfraqueceu muito depois de sofrer uma redução de pessoal, cometendo lapsos inacreditáveis. Quanto ao Jornal de Notícias, não o costumo ler, dado que parece destinado apenas aos habitantes do Norte do país. Além do JN, o grupo Global Media, presidido por Daniel Proença de Carvalho, controla ainda o Diário de Notícias, periódico que, após 154 anos de publicação contínua, está prestes a conhecer uma profunda transformação, ao passar a surgir diariamente apenas em formato digital. Manter-se-á uma edição semanal em papel lançada aos domingos, ou seja, um semanário chamado Diário de Notícias. Na prática, trata-se do fim do DN tal como sempre o conhecemos, ditado não por uma opção empresarial mas por verdadeira penúria de recursos.

 

Desde que comecei em 1998 a ler o Diário de Notícias, houve três projectos associados ao jornal que considerei particularmente marcantes. O DN Jovem, um espaço de divulgação de novos escritores e desenhadores, foi uma rampa de lançamento para numerosos artistas. Ver um texto nosso aparecer no site ou numa página do jornal de domingo (alcancei esse feito várias vezes entre 1999 e 2000) constituía uma honra imensa, devido ao prestígio do DNJ e ao critério apertado da selecção. Entretanto, o suplemento DNA, coordenado por Pedro Rolo Duarte, apresentava aos sábados vestígios do lado bom da irreverência e criatividade outrora ligadas a O Independente. Já na actual década, a revista semanal Notícias TV, de início apenas mais um rol de fofocas das celebridades, tornou-se, sob a direcção de Nuno Azinheira, um espaço de verdadeira análise da televisão feita e exibida em Portugal. As três iniciativas desapareceram sem nunca terem sido substituídas por nada de semelhante na imprensa lusa. Em paralelo aos projectos especiais, o DN era um diário competente, dotado de bons colunistas e preenchido por informação rigorosa sobre o essencial da actualidade.

 

 

No entanto, evitando a hipocrisia típica daquelas pessoas que lamentam em público o encerramento de lojas históricas nas quais há muito não punham os pés, preciso dizer que nos últimos anos passei a comprar o Diário de Notícias apenas de forma esporádica. Em comparação com o Público, o DN pareceu sempre algo cinzento e quadrado, sem imaginação nem capacidade de inovar, como que a viver à sombra da sua marca centenária. A crise económica e o abalo vivido na imprensa devido à expansão do digital agravaram essa imagem de dificuldade do DN em adaptar-se aos novos tempos. Enquanto o Público conheceu apenas três directores (José Manuel Fernandes, Bárbara Reis e David Dinis) nos últimos 20 anos, o seu concorrente da Avenida da Liberdade viveu no mesmo período uma frequente instabilidade directiva que também dificultou a renovação do DN. A partir de 2014, os despedimentos de jornalistas como Eurico de Barros e Nuno Galopim (essenciais na secção cultural) fizeram o Diário de Notícias entrar num ciclo vicioso em que falta de recursos, perda de qualidade e afastamento dos leitores estimularam-se mutuamente. Surgiram também acusações de manipulação dos diários da Global Media por Proença de Carvalho, em benefício do próprio e de José Sócrates. A soma destes factores mergulhou o DN numa espiral de insucesso e reduziu as tiragens a valores ínfimos, tornando cada vez mais provável o desfecho agora anunciado.

 

Para lá da preferência pessoal por jornais em papel e do desgosto pela evolução negativa de um jornal tão importante na história do país como o DN, custa perceber a tendência que a imprensa portuguesa está a seguir. Os poucos periódicos sobreviventes parecem obrigados a optar entre os estilos do Correio da Manhã e do Observador, ou seja, entre o sensacionalismo e a manipulação política, um cenário preocupante devido à inexistência de uma alternativa credível aos jornais tradicionais. Para angariarem leitores dispostos a pagar por informação, estes últimos têm recorrido a campanhas publicitárias cujo tom lembra mais instituições de caridade que órgãos de imprensa. O resultado desta degradação, no meio da desconfiança do público consumidor da comunicação social, conduz ao empobrecimento da democracia. Ir a um quiosque ou papelaria comprar um jornal era, no final do século XX, um acto quotidiano e corriqueiro. Hoje, parece um gesto heróico de resistência à opressão.