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Desumidificador

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Alvo intacto

“Tiro e Queda” (2019), de Ramón de los Santos

 

Eddy (Eduardo Madeira) e Manecas (Manuel Marques) são dois snipers idiotas e dominados pelas esposas (Gabriela Barros e Carla Vasconcelos) que partem para Viana do Castelo com a missão de abater um alvo desconhecido. E pronto, o filme é isto. Não acontece muito mais.

Tal como em Filme da Treta, Eduardo Madeira e Filipe Homem Fonseca escreveram um argumento cinematográfico a partir de um espectáculo teatral de sucesso centrado numa dupla com química sólida e domínio do timing cómico. Madeira e Marques retomam as suas personagens de assassinos profissionais (?) que travam diálogos disparatados sobre os mais variados temas, agora no cenário do navio Gil Eanes. Na verdade, o filme poderia passar-se tanto em Viana do Castelo como em Pequim, de tal modo se foca no texto e na interacção entre os protagonistas, cuja competência garante um mínimo (mas só isso) de interesse pelo que se passa no ecrã ao longo de pouco mais de uma hora. Contudo, à imagem da película com António Feio e José Pedro Gomes, Tiro e Queda revela dificuldades para adaptar o seu conceito ao formato do cinema e perde-se em episódios sem ligação entre si, separados por legendas alegadamente espirituosas, enquanto os actores secundários fazem bonecos fugazes e sem graça.

Entre publicidade descarada aos patrocinadores do filme, imagens aéreas de Viana sem utilidade além do bilhete-postal e a estreia nada inspirada de Ramón de los Santos na realização de uma (pouco) longa-metragem, Tiro e Queda surpreende apenas pelo vazio. A única salvação reside na opção tomada de assumir desde cedo que a obra se trata de uma “fantochada” e não possui a intenção de fazer sentido. Visto desse ângulo, o filme torna-se uma parvoíce inofensiva, útil para passar o tempo quando se está confinado em casa. Não é por aqui, porém, que o cinema português ultrapassará a escassez de boas comédias (com excepções como Capitão Falcão) que marca as suas últimas décadas.

A melhor cena: O genérico final (por causa da música).

A pior cena: Os dois idosos sentados à beira da estrada.

 

Nota: 5/10.