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Desumidificador

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Amem-me muito

O nome Marcelo Nuno Duarte Rebelo de Sousa substitui de forma eficaz qualquer tempo de antena. Afinal, a popularidade de Marcelo supera a de qualquer outro político português e, admitamos, é difícil não gostar de alguém que se leva tão pouco a sério e notoriamente se diverte à brava no exercício da chefia do Estado. Ideologicamente, Marcelo apenas repele os extremos. Pessoalmente, o Presidente sabe sempre dizer a palavra certa ao público certo. Fisicamente, o tronco nu de Marcelo Nuno dessacraliza o poder e faz o cidadão sentir-se mais próximo de quem o lidera. Mediaticamente, o antigo jornalista não faz política na televisão, mas sim televisão na política (há muito que tento sem sucesso fazer esta frase pegar). Politicamente, Rebelo de Sousa apresenta-se como aquele que tudo controla e tudo influi. Não há como fugir do olhar penetrante desta estátua colocada no centro do Largo da República, até porque, invulgarmente, a estátua fala e mexe-se imenso.  

É claro que Marcelo Rebelo de Sousa trabalha imenso para obter tanta admiração. Sobretudo, operando a máquina secreta que lhe permite detectar a qualquer hora aquilo que a maioria dos portugueses está a pensar. E se a maioria gosta de uma coisa, o Presidente tem de gostar também. É preciso seguir a moda, sob pena de cair no abismo horroroso da impopularidade. Claro que Marcelo sabe que há um tempo para tudo. Por exemplo, nos anos 90 ficava bem a um político católico condenar programas de televisão com sketches sobre Jesus Cristo, mas no século XXI já ninguém quer saber disso. O Presidente dispõe ainda de um quadro de cliques que identifica as notícias alvo de maior atenção, de modo a que Marcelo possa imediatamente mergulhar nelas como no mar de Cascais. Não há desastre, vedeta desportiva nem sem-abrigo supostamente herói que escapem ao radar de Belém. O supremo magistrado tem que entrar no filme, de preferência no timing certo. Às vezes (familygate, assassinato no SEF, encerramento das escolas, etc.), Marcelo distrai-se por um segundo e apanha o comboio já em movimento, mas quer logo ser o maquinista. Afinal, o público tem sempre razão e convém lisonjeá-lo de vez em quando. O estilo de Marcelo não se assemelha à berraria da “política CMTV” agora em expansão, aproximando-se mais da velha RTP de Júlio Isidro: programas ligeiros para toda a família, nem demasiado complexos nem demasiado estúpidos, com um apresentador afável que surge no ecrã como o tio de todos nós. Quem seria capaz de odiar isto?

 

Este comportamento marcado pelo desejo de agradar a todos nada tem de novo, pois Marcelo foi sempre assim, desde os tempos do PREC em que se afirmava um marxista não leninista. Nem sequer se trata de oportunismo, mas de uma maneira de estar na vida. O antigo (e actual) director do Expresso gosta de ser amado e só dá tanto afecto porque possui uma capacidade única de recebê-lo. Quem mais teria espaço no disco para tanto carinho recolhido ao longo de inúmeras sessões de autógrafos e milhares de milhões de selfies? Na verdade, Marcelo Rebelo de Sousa não nasceu para ser Francisco Martins Rodrigues, quer no sentido de propor rupturas violentas, quer no de defender ideias só aceites por uma pequena minoria, quer ainda naquele de andar pelas ruas de Lisboa sem nunca ser reconhecido.

Pelo seu perfil, idade e currículo, Marcelo Rebelo de Sousa é um dos últimos políticos da era da televisão generalista na área da direita. A geração dos blogues, que começou a ganhar destaque partidário na primeira década deste século, encontrou em Pedro Passos Coelho o político popular por ser impopular (“que se lixem as eleições”), autor de medidas de que muitos portugueses não gostavam por, coitados, serem um bocado burros, mas que um dia viriam a compreender. Mais recentemente, a geração das redes sociais, ligada ao Chega e à Iniciativa Liberal, descartou de vez a ideia de agradar a todo o eleitorado e construiu-se na base da avaliação da parte esquerda do espectro político como uma erva daninha que seria necessário arrancar. Claro que André Ventura, filho de Passos Coelho e Rui Ramos, ultrapassou todos os limites de forma propositada, renegando o espírito natalício marcelista para atrair todos aqueles que só querem ver o mundo arder. Este fim da lógica catch-all pode comprometer a prazo a capacidade da direita de descobrir novos Presidentes da República, uma vez que é difícil imaginar políticos como Passos e Paulo Portas a alcançarem mais de 50% numa eleição.

 

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