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Desumidificador

Desumidificador

António

Só nos cruzámos quando me autografaste a Exortação aos Crocodilos mas ao fim de todos estes anos é como se fosses um amigo, começaste por escrever romances autobiográficos onde os piores palavrões

— Quando é que eu me fodi?

conviviam com referências eruditas, aprendeste depois a criar personagens detrás das quais te podias esconder, nunca quiseste contar histórias, divertir os leitores ou passar uma mensagem, querias apenas e só mostrar a vida tal como ela é e de facto revelaste quão carentes e patéticos somos, todos cheios de medo da morte e da solidão, captaste uma maneira de ser portuguesa que os tradutores devem ter dificuldade em transmitir, ofereceste nos teus livros espelhos para nos mirarmos, fascinavam-te os pássaros, os subúrbios, os bibelôs incrivelmente feios, as pessoas chamadas Edgar ou Iolanda, os travestis do Conde Redondo, os pequenos nadas do quotidiano, o som de certas palavras, abóbora derivado madame falanges têmporas janelico sinalefas, trouxeste Nelas, Benfica e o Miguel Bombarda para o papel, nunca desenhaste um filho que tratasse os pais por tu, foste melancólico e satírico, misturaste o passado, o presente e o futuro até o tempo se tornar irrelevante, sofrias ao escrever e passavas esse sofrimento para nós, eu acabava cada romance exausto

— Nunca mais

e no ano seguinte lá estava outra vez contigo, mas na verdade nunca me separava da tua melhor personagem, aquela que criavas nas crónicas e entrevistas, ias além dos clichés e mostravas-te contraditório, reservado mas sempre a contar histórias da tua família, preso ao trabalho mas sem nunca te arrependeres, macambúzio mas de repente um sorriso de menino maroto, solitário mas ligado aos amigos, alheado do noticiário mas mordaz com os políticos, brutal na crítica como o Eduardo Madeira te apanhou

— Uma merda

mas sincero e terno no elogio, evitavas falar da guerra mas às vezes Angola vinha-te com toda a força ao corpo, muitos anos depois escreveste um livro para matar o

— Sinto nos vossos semblantes a alegria de irem servir a Pátria

embirraste com o Saramago sem perceberes que os dois se completavam, não te deram o Nobel mas também não saberias onde gastar o dinheiro, viste partir tantos dos teus, sobreviveste ao cancro porque precisavas de escrever mais dois ou três romances, depois mais dois ou três, mais outros dois ou três porque não consegues estar vivo sem escrever, sempre achaste que eras o maior escritor português

— Ninguém escreve como eu

enquanto nós percebíamos que

(raios te partam, António)

és mesmo.