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Desumidificador

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As herdades

A Herdade, de Tiago Guedes

 

No papel da sua vida, Albano Jerónimo encarna em A Herdade João Fernandes, o senhor feudal de uma grande propriedade a sul do Tejo cuja gestão lhe interessa mais do que o convívio com o resto da elite do Estado Novo, à qual está ligado familiarmente por via da sua mulher Leonor (Sandra Faleiro). Impetuoso e distante, João vai enfrentar o marcelismo e a Revolução até conhecer a ruína progressiva do seu mundo, dominado por um silêncio que se torna mais avassalador à medida que a solidão do dono da herdade se acentua.

Integrado num já vasto conjunto de filmes que constroem ficção a partir do potencial do século XX português, A Herdade remete para uma época e uma região específicas, mas, paradoxalmente, pode ser visto e compreendido em qualquer parte do mundo. Para isso contribui a beleza visual da obra, garantida pela qualidade da montagem e pela forma exímia como Tiago Guedes domina a luz, o espaço, os cenários naturais ou o tempo, numa longa-metragem de mais de duas horas e meia que nunca se arrasta. Para lá da memória colectiva nacional, o argumento de Guedes e Rui Cardoso Martins foca temas universais como o poder, a família e as dificuldades de comunicação, pecando apenas por alguma previsibilidade na evolução da história durante a segunda parte.

O filme evita os clichés onde seria tão fácil cair e desenvolve as personagens através de um registo de contenção baseado naquilo que fica por dizer (talvez o casal Fernandes beba e fume tanto precisamente para manter as bocas ocupadas) e na tensão guardada em segredo até um dia explodir e fazer vítimas. O desempenho sem falhas do elenco, dominado por um Albano Jerónimo que disputará o prémio Sophia com Sérgio Praia, garante o êxito de um filme sensível, realista, ambicioso, profundo sem ser aborrecido e que eleva o cinema português a um patamar raramente alcançado, onde só filmes como Alice, de Marco Martins, se equivalem na força e durabilidade ao trabalho de Tiago Guedes.

 

Um filme para… Perceber como se faz um bom drama.

Nota: 8/10.

 

 

 

Rambo: A Última Batalha, de Adrian Grunberg

 

Apesar das histórias disparatadas, das personagens de cartão e da violência desmesurada, os cinco filmes da série Rambo são um guilty pleasure para muitos cinéfilos atraídos pelo carisma de Sylvester Stallone na pele de uma das duas únicas personagens (a outra é Rocky) que consegue realmente interpretar. Stallone é também co-argumentista de Rambo: A Última Batalha (Last Blood no original), uma obra que mostra o guerreiro solitário no seu quotidiano na velha quinta dos Rambo no Arizona, aonde voltara após uma longa peregrinação no final do quarto capítulo. O veterano do Vietname enfrenta os seus traumas na companhia de uma família adoptiva cuja tranquilidade se esfuma devido à acção criminosa de um bando mexicano de traficantes de seres humanos.

Naquele que é, salvo erro, o filme da saga em que Stallone fala durante mais tempo, vemos um John frágil, amargurado, envelhecido (embora plastificado, de acordo com a arrojada teoria de Ricardo Araújo Pereira) e até derrotado, num raro aprofundamento do lado emocional da personagem, favorecido pela realização eficaz de Grunberg. Claro que, mais cedo ou mais tarde, acaba por chegar a parte que o público veio ver e não será um grande SPOILER revelar que no final o herói massacra os bad hombres, numa já mítica sequência onde cada morte é mais cruel que a anterior. O politicamente correcto vê-se atingido pelas flechas de Rambo, de forma brutal mas também honesta e genuína num tempo de cinema padronizado.

Depois de ter sido o herói por excelência da era Reagan, Rambo torna-se aqui, talvez inevitavelmente, um símbolo do espírito dos anos Trump. Poderíamos justificar com as necessidades do argumento o facto dos vilões serem mexicanos e do país vizinho dos EUA ser apresentado como um sítio pobre e violento, mas a mensagem de Last Blood deixa claro que o tempo de ir para terras distantes combater os inimigos da liberdade já passou. Agora, os americanos devem ficar em casa e reprimir as ameaças que entram pela fronteira sul, limitada por frágeis vedações facilmente derrubadas pela carrinha de Rambo e (ainda) não por um muro inexpugnável. Como Stallone afirma quase textualmente, o mundo lá fora é perigoso e está cheio de gente má que deve sempre ser tratada com desconfiança.

O rasto de sangue deixado no mundo por John Rambo chega ao fim num episódio que encerra a série com dignidade e um mínimo (sem exageros, claro) de profundidade, permitindo também avaliar o herói como um espelho do lado sombrio da América, mais afeito à guerra que à paz.

 

Um filme para… Dizer adeus a uma personagem marcante do cinema.

Nota: 6/10.