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Desumidificador

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Café Ventura

Era uma vez um rapaz, filho de pais remediados, que cresceu num lugar de Portugal onde a maioria dos habitantes vivia modestamente e trabalhava nas mesmas actividades geração após geração. Católico devoto, o jovem entrou para um seminário disposto a tornar-se padre, mas abandonou esse objectivo por não conseguir resistir aos encantos femininos. Após sair do seminário, inscreveu-se na universidade, onde se dedicou a fundo aos estudos e manteve-se afastado da boémia estudantil. Licenciou-se em Direito com a classificação impressionante de 19 valores e rapidamente passou de aluno a professor universitário, completando a formação com um doutoramento. Já na casa dos trinta, começou a ganhar fama ao falar em público sobre a actualidade, publicar artigos de opinião na imprensa e dar entrevistas a jornalistas simpáticos. Chegado à política no campo da direita, entrou em conflito com os sectores mais moderados, por ele acusados de excessiva proximidade à esquerda. Eleito para um cargo público, do qual se demitiu ao fim de pouco tempo, criticou o parlamentarismo e defendeu um Estado forte na repressão do crime. Identificou-se com o verdadeiro sentimento da Nação, em contraste com os políticos tradicionais, ligados a interesses pessoais e de grupo. Muitos chamaram-lhe fascista, epíteto que rejeitou como incompatível com os seus princípios cristãos. Temendo ser alvo de violência, evitou ao máximo o contacto com as massas enquanto iniciava o caminho para o poder.

 

Falamos, obviamente, de André Ventura, a partir da narrativa da sua vida feita pelo líder do Chega numa entrevista ao Sol de 15 de Dezembro, onde Ventura descreve longamente os defeitos dos ciganos (de todos eles, dentro e fora de Portugal), embora negue estar “obcecado” pela etnia e aponte que “isto fala-se em surdina nos cafés, mas quando se diz isto em público parece que vem aí uma extrema-direita que é um terror”. De facto, pessoas como Ventura dão-se bem no ambiente dos cafés, inclusive nesse café gigante chamado Facebook. Nos cafés, onde costuma existir uma televisão sintonizada na CMTV ou um exemplar do Correio da Manhã para consulta dos clientes, é possível ter conversas calmas e interessantes, mas elas são abafadas pelo ruído contínuo do grupo que faz mais barulho. O debate em altos berros centra-se muitas vezes no futebol, não tanto no jogo em si mas sobretudo nos casos de arbitragem e nas acusações de corrupção. A discussão atravessa também a política, a sociedade e muitas outras áreas, através das sentenças definitivas de comentadores especializados em assuntos que não dominam por aí além e que simplificam qualquer tema até este caber numa só frase. Entre um e outro copo, difundem-se boatos, agressividade e facciosismo. Antes, os disparates proferidos à mesa do café não ultrapassavam as paredes do estabelecimento, mas hoje o ruído atinge dimensões globais, atraindo políticos para quem o café constitui a verdadeira democracia e não é preciso sair do café para compreender o mundo.

 

 

Além de básico, o discurso de André Ventura revela-se bastante fácil de lançar em Portugal, onde é diariamente reproduzido nos cafés da rua ou da Internet. Os ciganos não são boa rês, os muçulmanos constituem uma ameaça, os deputados são uns parasitas, os políticos só querem é poleiro, a justiça precisa de ser mais dura, os presos deveriam trabalhar em vez de passarem férias à nossa custa, os homossexuais não têm direito a casar? Muita gente diz “Ai, não pares, André, não pares”, até porque esta visão do mundo fornece uma reconfortante superioridade moral e não exige qualquer esforço de aperfeiçoamento a quem está do lado dos “bons”. Afinal, o cliente tem sempre razão, desde que pague (em votos) ao dono do café com o sapo de loiça na montra. Às vezes torna-se duvidoso se Ventura acredita mesmo em tudo o que diz ou simplesmente observou as tendências do mercado e verificou haver uma moda revivalista seguida por uma clientela em expansão que o convenceu a montar o seu negócio, estimulado pelo sucesso de uma marca nova surgida do outro lado da fronteira. Embora disponha de pouco tempo até às legislativas, Ventura pode reunir em Lisboa votos suficientes para ser eleito deputado e transformar definitivamente o Parlamento num café, do qual ele será o frequentador mais barulhento.

 

P.S. Desde Fevereiro deste ano que o jornalista António Ribeiro Ferreira, inimigo feroz dos “lacaios do politicamente correcto”, não assina nenhum artigo no i ou no Sol. No entanto, o nome de Ribeiro Ferreira mantém-se na ficha técnica como chefe da redacção comum aos dois jornais. Isto não faz sentido num ano marcado pela tensão crescente na Europa, pelo triunfo da família Bolsonaro no Brasil e pela efervescência na direita portuguesa, quando Ferreira deveria estar mais motivado que nunca para derramar o seu fel no teclado. De resto, o i e o Sol talvez tenham encontrado aquilo que o director, Mário Ramires, define como “investidores que ousem desafiar os poderes instalados”, já que ambos os periódicos redobram a simpatia para com a extrema-direita. Será que António Ribeiro Ferreira sofre de um problema de saúde ou prefere por algum motivo manter-se nos bastidores?