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Camarada Assad

A secção internacional do semanário Avante! possui algumas características próprias que a distinguem das convenções da restante imprensa, entre elas a utilização do nome oficial da Coreia do Norte, “República Popular Democrática da Coreia”, o recurso ao adjectivo “estado-unidense” em detrimento de “americano” ou as referências à Venezuela “bolivariana”. Outra particularidade do jornal comunista reside no facto de publicar os comunicados do Conselho Português para a Paz e a Cooperação (CPPC), uma organização pacifista liderada por Ilda Figueiredo e, na prática, um satélite do PCP. Acerca da guerra na Síria, o CPPC denuncia, num texto incluído no Avante! de 8 de Março, “uma intensa operação de desinformação e a tentativa de instrumentalização das Nações Unidas” levadas a cabo pelo Ocidente. Responsáveis pelo início do conflito sírio, através do apoio e financiamento prestados a “grupos terroristas” como a Al-Qaeda e o Daesh, os Estados Unidos e os seus aliados na Europa e no Médio Oriente difundem através da comunicação social, segundo o CPPC, “mentiras” e “falsidades” sobre a guerra no país de Bashar al-Assad (cujo nome o Conselho não refere), “tentando fazer passar as vítimas por “algozes” e os algozes por “vítimas”, os agredidos por “agressores” e os agressores por “agredidos””. Neste contexto, a guerra na Síria só acabará pela via do respeito pela soberania daquele país, o que implica o “fim das campanhas” encorajadoras dos terroristas.

 

Os bombardeamentos em Ghouta Oriental foram condenados na Assembleia da República, através de um texto apresentado pelo Bloco de Esquerda e aprovado com os votos favoráveis de BE, PS, PAN, PSD e CDS, em número superior aos votos contra de PCP e PEV. A propósito desta votação, um dos cronistas do Avante!, Jorge Cadima, assina o artigo “O BE e as agressões imperialistas”, no qual acusa o partido de Catarina Martins de reproduzir “todas as patranhas da propaganda de guerra de agressão à Síria”. Para Cadima, o conflito sírio é apenas mais um do “infindável rol de guerras e ingerências do imperialismo”, baseando-se não só no ataque militar ao regime de Damasco mas também nas “enormes e mentirosas campanhas propagandísticas que diariamente nos entram em casa”. O articulista recorre a uma colecção apreciável de recortes da imprensa internacional para listar exemplos de falsas justificações para guerras em vários pontos do mundo forjadas pelos EUA desde os anos 50, numa série de fraudes que “Os dirigentes do BE não podem alegar que desconhecem”. Contudo, os bloquistas “juntam a sua voz ao coro dos propagandistas das guerras de rapina” imperialistas, numa atitude semelhante àquela que tomam perante a situação na Venezuela e na “RPD da Coreia”.

 

Porquê? Logicamente, porque o BE, levado “ao colo” pelos jornais criados por Belmiro de Azevedo e Francisco Pinto Balsemão, está ao serviço do “grande capital”. Para evitar o crescimento do PCP, os donos do dinheiro impulsionam o Bloco, sabedores de que, “chegado o momento da verdade, os dirigentes do BE estarão do lado do sistema”, à imagem do que se passou na Grécia com o Syriza. Assim, os bloquistas não passam de peões das “velhas potências imperialistas” e, num cenário de corrida para uma nova guerra à escala planetária, recusam ser solidários “com quem resiste” aos planos expansionistas do capital. Curiosamente, no seu longo artigo motivado pela guerra na Síria, Jorge Cadima nunca utiliza as palavras “Irão”, “Putin” e “Rússia” (alude apenas à “emergência de novas potências económicas”, vista com apreensão pelo imperialismo americano). É inútil tentar discutir com pessoas que conduzem em contramão enquanto lançam insultos a todos os idiotas que vão na direcção errada, mas a análise da política nacional e internacional feita por alguém com o grau de isenção de Jorge Cadima inspira uma reflexão em vários pontos.

 

 

Primeiro: o anti-imperialismo pode constituir uma espécie de eurocentrismo retorcido, na medida em que os comportamentos de países e personalidades do antigo Terceiro Mundo são avaliados apenas em função das posições dos EUA e da União Europeia relativamente a eles. Nesta óptica, um determinado líder político só pode ser um lacaio do imperialismo ou um heróico resistente aos vorazes apetites do capital. Esta visão bipolar, além de infantilizar mesmo quem se pretende defender, faz ainda menos sentido na actualidade, quando, num mundo caótico e multipolar, interesses muito diversos entram em confronto, enquanto a vontade de Washington e Bruxelas torna-se crescentemente irrelevante (a Síria constitui um bom exemplo desta tendência).

 

Segundo: os adversários do PCP e do Bloco de Esquerda costumam amalgamar estes partidos num conjunto homogéneo, sem terem em conta as várias diferenças entre os dois, aliás destacadas pelos próprios. Uma das áreas de discórdia reside precisamente na avaliação do que se passa fora de Portugal, tema no qual o BE, mais jovem e flexível, não tem de lidar, ao contrário do PCP, com a obrigação de manter o apoio incondicional a todos os seus “amigos” do tempo da URSS (a posição perante o legado da Revolução Russa representa outra divergência entre comunistas e bloquistas), até mesmo aos que entretanto se converteram ao capitalismo. Tendo em conta o que se passou na primeira década do século XXI, é difícil acusar o Bloco de ser demasiado meigo para com a política externa americana, em particular quanto à actuação dos EUA no Médio Oriente. Na verdade, os bloquistas apenas não desenvolveram suficientemente as capacidades de negar o inegável, recusar ver o que não interessa e acreditar em teorias da conspiração, treinadas pelo PCP antes da queda do Muro de Berlim. A nível interno, a relação concorrencial entre o PCP e a extrema-esquerda não se alterou muito desde os anos 70, quando os seguidores de Álvaro Cunhal acusavam os maoístas de serem financiados pela CIA.

 

Terceiro: há muito tempo que deixou de ser possível, no meio do caos na Síria, encontrar “bons” para apoiar contra os “maus”. Quando muito, o Ocidente ajudou ou tolerou os “maus” que não pretendiam estender a guerra para cá do Mediterrâneo na luta contra os “maus” do Estado Islâmico. As várias partes em conflito na Síria emitem uma vasta propaganda que dificulta o conhecimento do que realmente se passa no terreno. No entanto, para os civis cercados e atingidos pelos bombardeamentos com armas químicas ou convencionais, pouco importa se quem os está a matar é o imperialismo russo ou o imperialismo americano. Tal como o PCP, espero que a coligação Putin-Assad domine em breve o enclave de Ghouta Oriental, mas apenas porque a vitória de um dos lados é a única maneira de obter o fim dos bombardeamentos e criar condições para o fornecimento de ajuda às populações, uma vez que razões humanitárias, como já se percebeu, nada dizem aos presidentes russo e sírio.