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CDS, CDS, quem és tu?

Os primeiros anos de actividade do Centro Democrático Social (CDS) serviram de tema a uma recente tese de doutoramento do historiador Edmundo Alves, ainda por apresentar. Conhecem-se já, no entanto, algumas informações sobre o partido criado em Julho de 1974 por um grupo de jovens que tinham passado o marcelismo com um pé dentro e outro fora do regime. Reconhecidos como corrente política informal, Diogo Freitas do Amaral, Adelino Amaro da Costa e os seus amigos foram incentivados pelo MFA a constituir um partido que agrupasse a direita (ou a “não esquerda”, incluindo também o centro), disposta a integrar-se na democracia nascente. A opção doutrinária da nova agremiação pela democracia cristã e pelo centrismo teve razões quer ideológicas quer pragmáticas, na medida em que a primeira permitia integrar o CDS na família democrata-cristã europeia e receber desta importantes apoios externos, enquanto o segundo favoreceria, na impossibilidade de disputar o primeiro lugar nas eleições, a negociação de coligações governamentais com o PS ou com o PPD/PSD, de acordo com as circunstâncias.

 

Após dois anos em que o CDS lutou sobretudo pelo direito a existir, que lhe era negado por boa parte da esquerda, o partido liderado por Freitas do Amaral, o único a recusar o objectivo do socialismo apontado na Constituição de 1976, obteve cerca de 16% dos votos (valor que se mantém como o mais alto alcançado pelos centristas em sufrágios aos quais concorreram sozinhos) nas primeiras eleições legislativas e tornou-se a terceira maior força na Assembleia da República. Esse estatuto permitiu-lhe chegar ao Governo em 1978, num breve acordo com o PS, e unir-se ao PSD e ao PPM na Aliança Democrática, instalada no poder entre o início de 1980 e o final de 1982, quando Freitas decidiu romper a coligação e abandonar a liderança centrista. O partido sediado no Largo do Caldas não formava um todo homogéneo, dividindo-se entre um sector próximo do centro-esquerda, ligado a Amaro da Costa, e as bases mais à direita, das quais Francisco Lucas Pires era o rosto mais visível. Logo nos primeiros anos ficaram definidas algumas características duradouras do CDS, como a sua implantação sobretudo no Norte do país, a ligação preferencial às associações patronais, a presença quase nula no movimento sindical ou o conservadorismo nas questões de costumes. A organização representava igualmente a fronteira delimitadora do leque partidário democrático, atraindo ou isolando personalidades da extrema-direita e contribuindo para a dificuldade de criar novos partidos num espaço político já ocupado por PSD e CDS.

 

 

Os anos do cavaquismo foram terríveis para o CDS, reduzido em 1987 e 1991 a apenas quatro deputados, o que lhe valeu a alcunha de “partido do táxi”. Os sucessivos desaires criaram um ambiente propício às ambições de Paulo Portas, então director de O Independente, e do antigo líder da Juventude Centrista, Manuel Monteiro, apoiado por Portas na ascensão à presidência do CDS. A dupla promoveu uma verdadeira refundação dos centristas, transformados no Partido Popular (posteriormente, Portas recuperaria a sigla original) e conduzidos numa via populista, eurocéptica e nacionalista, oposta ao centrismo dos fundadores, vários dos quais se aproximariam mais tarde do PS. Depressa o PP se revelou demasiado pequeno para Monteiro e Portas coexistirem e o segundo arrebatou em 1998 a liderança, que desempenharia continuamente, à excepção do interregno de 2005-2007, até ao ano de 2016. Durante esse longo período, Portas reclamou para o CDS-PP inúmeras causas e públicos-alvo, alterados conforme as tendências do mercado eleitoral, numa versatilidade apenas possível a um actor nato. Assim, o CDS foi sucessivamente o partido das pescas, o partido da lavoura, o partido dos retornados, o partido dos ex-combatentes, o partido dos reformados, o partido dos empresários, o partido dos contribuintes, o partido anti-imigração, o partido da segurança, o partido pró-Bruxelas, o partido anti-aborto, o partido contra o “subsídio à preguiça” do RSI… Através deste frenesim mediático e do seu enorme talento político, Paulo Portas elevou a votação da “bola ao centro” (antes azul e amarelo, o símbolo do CDS apresentava agora as cores azul e branca, uma mudança natural no partido portista) para os dois dígitos e trouxe os democratas-cristãos para os governos presididos por Durão Barroso, Santana Lopes e Pedro Passos Coelho.

 

Apesar da evolução positiva, a presença no “Governo da Troika” não deixou o CDS incólume. Se os membros da Geringonça são actualmente acusados de dificuldades de entendimento provocadas por numerosas divergências, a relação entre o PSD e o CDS parecia demasiado fácil, à medida que as linhas vermelhas se tornavam azuis e a irrevogabilidade era revogada. A viragem à direita do PSD e a escassa capacidade reivindicativa do CDS contribuíram para tornar os dois partidos praticamente indistinguíveis, excepto no facto dos militantes centristas irem mais vezes à missa que os sociais-democratas. Os colunistas de direita da imprensa e da Internet raramente diferenciam PSD e CDS, chegando alguns a sugerir a fusão das duas entidades num único partido. Da mesma forma, a acusação dirigida ao Bloco de Esquerda de constituir um grupo minoritário sem implantação no país real oculta o facto de, fora do distrito de Aveiro, ser mais fácil encontrar um adepto do Belenenses que um militante ou simpatizante do CDS. A exiguidade do universo centrista contribui para que, numa tendência fomentada por Portas e prosseguida por Assunção Cristas, a actividade do partido se foque quase exclusivamente na figura do líder e nas aparições mediáticas deste.

 

Após a retirada de cena (digamos assim para facilitar) de Paulo Portas, a sua sucessora demorou algum tempo a criar uma marca própria e sair da sombra do fundador do PP. No entanto, a velha táctica de falar diariamente aos microfones sobre tudo e sobre nada, o afastamento de um PSD desnorteado e a habilidade com que Cristas apresentou e geriu a sua candidatura autárquica em Lisboa, compensada por resultados inéditos, construíram a imagem de Assunção como “líder” da oposição ao Governo e guia da estratégia do campo conservador. No entanto, o êxito futuro do CDS dependerá da capacidade deste de clarificar quais são as suas “clientelas”, ou seja, os grupos sociais cujos interesses tende a representar, para lá do cliché do partido dos queques. Os centristas são a voz dos pequenos agricultores? Dos polícias e militares? Do ensino, saúde e segurança social privados? Dos donos das empresas exportadoras? Dos jovens economistas saídos da Nova e da Católica? “Boss AC” e os seus animais de estimação, Telmo Correia e Nuno Magalhães, ganhariam em esclarecer os eleitores quanto aos princípios e objectivos do Centro Democrático Social para lá da espuma da actualidade. Só assim o partido escapará a um destino de subalternidade no interior da direita portuguesa.