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Desumidificador

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Chico amigo, o povo está contigo

Nascido numa família católica e baptizado na igreja seiscentista de Odivelas, andei na catequese durante nove anos até fazer o crisma, sob a orientação de uma jovem catequista que mais tarde abandonou a fé e aderiu ao PCP. Eu fiquei, embora saiba que poderia ser um cristão muito melhor. O desafio é bastante exigente (não me refiro à frequência com que se vai à missa), até porque se fosse fácil não teria qualquer significado. Trata-se de uma questão íntima de que não quero falar aqui, mas esta introdução serve como a já habitual declaração de interesses nos textos escritos a propósito da polémica causada pela nota pastoral do cardeal-patriarca de Lisboa, D. Manuel Clemente, e da abordagem deste ao tema dos crentes recasados e do eventual acesso destes aos sacramentos.

 

A sugestão de continência sexual feita por D. Manuel aos católicos em segundas núpcias que aguardam pela anulação canónica do primeiro matrimónio prova que pessoas virgens não devem falar sobre sexo. O celibato dos sacerdotes e a ignorância prática destes relativamente à cópula reforçam, de resto, a opção da maioria dos leigos por ignorar as normas clericais acerca da sexualidade. Apesar do incómodo da Igreja Católica com o corpo humano vir de longe, encontramos aqui mais um sinal da dificuldade do clero comandado por Roma em lidar com o deboche permanente no qual, segundo Henrique Raposo, vivemos desde o Maio de 68. Na verdade, o problema de fundo está numa mudança ocorrida nas mentalidades: as pessoas querem ser felizes agora, deixando de esperar pacientemente pela recompensa da vida eterna. Entre muitos outros factores, esta atitude, além de indignar o Prof. João César das Neves, contribui para o ambiente cultural laicizado no qual a religião constitui um elemento estranho. Na verdade, a Igreja habituou-se durante demasiado tempo a jogar sempre em casa, sob a protecção do árbitro Estado e perante adversários em inferioridade numérica (já muito se escreveu sobre as semelhanças entre o futebol e a religião). Agora que não tem tudo a seu favor, a “Igreja una, santa, católica e apostólica” precisa de ser mais activa e deixar a sua zona de conforto.

 

Algumas das críticas feitas ao difícil pontificado de Bento XVI, um intelectual sem a capacidade de aproveitar os media para chegar ao coração das massas, são injustas, mas o Papa Francisco trouxe de facto uma nova dinâmica ao catolicismo, no sentido de mais abertura, tolerância e proximidade de quem sofre. Bergoglio surgiu há cinco anos como um homem disposto a pegar no balde e na esfregona para iniciar a necessária limpeza da casa de Deus, cujas portas passariam a estar, de acordo com os Evangelhos, sempre abertas para todos os que procurem o Senhor. Longe de ser um revolucionário, o argentino é um reformista cauteloso, o que não impede o surgimento de reacções negativas entre os sectores mais conservadores. Alguns padres, como o colunista do Observador Gonçalo Portocarrero de Almada, assemelham-se a porteiros colocados de vigia à entrada das igrejas para inspeccionar quem passa e dizer “Tu não entras” àqueles que não encaixem nos rígidos padrões por eles definidos. A pretensão da corrente tradicionalista de voltar a celebrar a missa em latim é incompreensível, sobretudo por querer acentuar a distância entre leigos e clérigos. Ninguém aprendeu nada com a Reforma? O Concílio Vaticano II rompeu com uma Igreja ligada ao poder e à injustiça ao fazer os católicos compreenderem que só abrindo-se ao mundo poderiam evangelizá-lo. Voltar atrás seria fechar a Igreja sobre si própria em nome de uma suposta pureza que se confunde com arrogância.

 

 

O segredo da resistência da Igreja Católica ao longo de vinte séculos não foi uma intransigência absoluta, mas sim a adaptabilidade a novas circunstâncias e a sabedoria para mudar o acessório mantendo o essencial. A organização não democrática da Igreja não torna irrelevante o facto da maioria dos fiéis estar ao lado do Papa Francisco contra a “reacção”. Voltando ao início, máximas como “poucos mas bons” ou “se mudarmos, desaparecemos” fazem lembrar o PCP, abominado pelos católicos conservadores. Afinal, os extremos tocam-se.