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Desumidificador

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Coisas de 2017 (1)

Animal do ano: Polvo

 

Incapaz de resistir à pressão na ponta final da I Liga de futebol de 2016/17, o FC Porto não pôde impedir o Benfica de sagrar-se tetracampeão pela primeira vez na sua história. Esta é a parte menos relevante do ano futebolístico, pois, como se sabe, o que acontece dentro de campo não passa de um mero pretexto para o ruído que verdadeiramente alimenta o quotidiano desportivo nacional. Assim, o director de comunicação do FCP, Francisco J. Marques, tem divulgado vários mails e mensagens indicados como prova de uma cumplicidade suspeita entre o SLB e as estruturas dirigentes da arbitragem e da Liga de Clubes, no âmbito do “polvo encarnado” essencial aos títulos benfiquistas. Por seu turno, o Benfica não deixou de acusar o “Futebol Clube do Polvo” de pressionar os árbitros, enquanto Bruno de Carvalho espalha a paz, o amor e a tolerância sempre que fala ou escreve. A discussão sobre a cor do polvo mantém-se e atinge diariamente tons de violência cada vez mais absurdos. Claro que o clima de tensão poderia acabar hoje mesmo, mas isso deixaria adeptos, dirigentes, jornalistas e comentadores tão tristes…

 

 

 

Momento televisivo do ano: Jorge Gomes fala aos jornalistas em Pedrógão Grande

 

Ao início da noite de 17 de Junho, o fogo a lavrar em Pedrógão Grande era tratado pelos canais de televisão como um incêndio semelhante a tantos outros ocorridos em Portugal. A pouco e pouco, contudo, avolumaram-se os indícios de que algo grave se passava. Por volta da meia-noite, o então secretário de Estado da Administração Interna, Jorge Gomes, aproximou-se dos microfones dos órgãos de comunicação social já representados em Pedrógão e anunciou um balanço provisório de vítimas mortais das chamas: 19. O número foi repetido com notório espanto pelos jornalistas e confirmado pelo governante. Era apenas o início de algo sem precedentes.

 

Nova celebridade do ano: Salvador Sobral

 

Com uma interpretação do tema “Amar Pelos Dois”, escrito pela sua irmã Luísa, o jovem cantor Salvador Sobral obteve a primeira vitória portuguesa no Festival da Eurovisão. Apresentado desta forma seca, o facto não expressa as diferentes fases da ainda curta relação entre Salvador e os portugueses. Primeiro, vivemos uma sensação de surpresa, quando uma canção nada festivaleira obteve o primeiro lugar no Festival RTP da Canção (renascido das cinzas) e, ao longo das semifinais em Kiev, o caneco europeu pareceu realmente alcançável. Depois, surgiu a euforia do triunfo, sob a qual os irmãos Sobral se tornaram ídolos nacionais e criticá-los passou a ser crime de lesa-pátria. No entanto, desconfortável com a súbita popularidade, Salvador Sobral ignorou todas as regras do estrelato e, em directo nas três televisões, fez uma piada relacionando gases e histeria. De imediato, parte do público sentiu-se ofendido pelo ex-herói e denunciou o fedelho arrogante no tribunal das redes sociais. Pouco depois, Sobral interrompeu os concertos para aguardar no hospital por um transplante de coração. A partir daí, as capas das revistas foram inventando, digo, acompanhando a evolução do estado de saúde do cantor, cada vez mais perto de entrar na barca de Caronte, num crescendo de ansiedade e desespero que, para choque da imprensa, o sucesso do transplante desmentiu. Volta depressa, Salvador, e canta uma música dedicada à TV Guia.

 

 

 

Objecto do ano: Smartphone

 

Os telemóveis multifuncionais já tinham há muito dominado o quotidiano e criado uma geração privada da nobre arte de olhar para o ar. Contudo, o ano de 2017 revelou a influência do smartphone na agenda política e mediática. Por um lado, as imagens captadas e partilhadas por cidadãos anónimos chamam a atenção para situações de violência ou mau serviço público, obrigando as autoridades a agir. Por outro, nas redes sociais, alagadas de indignação, todos os dias nascem, crescem e morrem sucessivas polémicas, tão intensas quanto breves e que os políticos e jornalistas tentam apressada e desajeitadamente seguir. A realidade não existe fora do ecrã do telemóvel.

 

Suspiro de alívio do ano: Presidenciais francesas

 

O ano começou sob a ameaça do regresso do fascismo, depois de um 2016 marcado pelos resultados eleitorais surpreendentes que separaram o Reino Unido da UE e instalaram Donald Trump na Casa Branca. Entre as eleições causadoras de maior receio na Europa, avultava a escolha do novo presidente francês, cargo ambicionado pela líder da extrema-direita gaulesa, Marine Le Pen, cuja presença na segunda volta do sufrágio era há muito assegurada pelas sondagens. Para a defrontar sob a bandeira da democracia, emergiu o surpreendente candidato centrista Emmanuel Macron, desconhecedor da ternura dos 40 e beneficiário do colapso de um PSF “pasokizado” e da descredibilização da direita tradicional. A 7 de Maio, Macron obteve cerca de dois terços dos votos e fez os europeístas descontraírem. Na verdade, se no início de 2017 muitos entraram em pânico demasiado depressa, é ainda cedo para achar que os ratos voltaram para o esgoto. Afinal, Le Pen obteve a preferência na segunda volta de mais de 10 milhões de franceses e prepara-se para um novo assalto daqui a cinco anos, enquanto a extrema-direita avança firme no Leste da Europa e levanta a cabeça em solo alemão.

 

WTF do ano: Tancos

 

Uma quantidade significativa de armamento militar desaparece misteriosamente da base de Tancos, num sinal de falhas na vigilância dos paióis. Depois da especulação sobre o furto e o possível destino das armas se propagar nos media, as chefias militares e o primeiro-ministro procuram tranquilizar os portugueses, realçando o carácter obsoleto do material desaparecido. Sem qualquer indício disponível, o ministro da Defesa, Azeredo Lopes, coloca a hipótese de não ter havido roubo, enquanto o Expresso divulga um relatório oficial arrasador para Azeredo. Nenhum organismo militar assume a autoria do documento, mas o director do Expresso mostra na SIC um molho de folhas encadernadas, cuja capa apenas tem escritas as palavras “Relatório Tancos”, antes do semanário esquecer o assunto para sempre. Um belo dia, uma chamada anónima revela que o material roubado de Tancos se encontra perto da base, na Chamusca. A PJ Militar recolhe o armamento, entre o qual se encontra uma caixa não referida no inventário. Azeredo Lopes e os militares encerram, aliviados, o problema e remetem a explicação do que aconteceu para uma futura investigação, ainda sem produzir resultados conhecidos. Esta atribulada história pode resumir-se numa pergunta: mas está tudo doido?!