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Desumidificador

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Coisas de 2017 (2)

Acidente em câmara lenta do ano: PSD

 

Fosse por estar à espera do colapso que João César das Neves prometeu e das consequentes legislativas antecipadas, fosse por não ter quase ninguém no partido disposto a chegar-se à frente, Pedro Passos Coelho preparou mal as eleições autárquicas de 1 de Outubro. Os resultados “laranjas” foram humilhantes, sobretudo no Porto e em Lisboa, concelho no qual a habilidade de Assunção Cristas contrastou com o desnorte total da candidatura social-democrata. Nem o promissor André Ventura, candidato ideal do PSD do século XXI, compensou em Loures o carinho recebido do líder. O afastamento de Passos (que talvez sonhe com um regresso à Portas lá para 2019) poderia levar o PSD a uma recuperação no ânimo e nas sondagens durante o próximo ano, mas o perfeito vazio da campanha interna em curso torna esse cenário muito duvidoso.

 

Brincadeira do ano: Mário Centeno na presidência do Eurogrupo

 

Quando o Expresso apontou Mário Centeno, há oito meses, como o possível futuro presidente do conselho informal dos ministros das Finanças da Zona Euro, Marques Mendes e outros comentadores disseram que só podia tratar-se de uma mentirinha adequada à tradição de 1 de Abril. Tratou-se de um ligeiro erro de avaliação por parte de analistas geralmente infalíveis. Não vou especular sobre o que Centeno poderá fazer no novo cargo, mas a sua eleição, impensável há ano e meio, simboliza dois fenómenos. Por um lado, a quadratura do círculo que António Costa, para surpresa de todos, conseguiu fazer, ao conciliar a manutenção do apoio parlamentar de BE e PCP com o sorriso de Bruxelas. Ao mesmo tempo, o optimismo quase generalizado quanto à situação portuguesa só existe porque o modelo de Centeno resultou. Pormenores dos quais, por motivos misteriosos, quase ninguém fala, como a redução da dívida pública, a queda acelerada do desemprego, o aumento da receita fiscal baseado na produção de riqueza ou o contributo da procura interna para compensar a recente desaceleração das exportações, estão ligados ao crescimento de 2,6% previsto para este ano (beneficiário, obviamente, da conjuntura internacional). Portugal passou a ser um paraíso? Que eu tenha reparado, não, mas a política contra-revolucionária da Geringonça repôs a normalidade. Ambições maiores continuam, no entanto, a ser difíceis de concretizar.

 

 

 Frase do ano: “Ai se isto fosse com o Passos”

 

Quem proferiu esta afirmação? Todo o mundo e ninguém, já que a mensagem foi transmitida através de palavras semelhantes por numerosos políticos e colunistas perante cada notícia desfavorável para o Governo. Segundo o coro, caso situações idênticas se passassem sob uma maioria PSD/CDS, verificar-se-ia um ruído imenso provocado por grandoladas, demissões de ministros, manchetes acusatórias nos jornais, indignação generalizada dos comentadores, sermões furibundos de Francisco Louçã, Mário Nogueira aos berros, greves e manifestações organizadas pelo PCP, discursos de sobrolho carregado do Presidente da República, poetas e cantores a dizer que Abril não se cumpriu, etc., mas com a esquerda no poder estão todos calados e feitos uns com os outros. Desde logo, poder-se-ia dizer que, num cenário político desses, a direita acharia normais e justificáveis as situações que agora condena, relacionando-as com a herança negativa do anterior governo socialista. Da mesma forma, este discurso deixa implícito que toda a agenda política e mediática é artificial e encontra-se ligada a interesses particulares, além de poder ser contraditado por factos como a escassez de demissões ministeriais (apenas Vítor Gaspar e Miguel Relvas, já que Paulo Portas não conta para o efeito) entre 2011 e 2015 ou a organização extra-partidária das manifestações contra a troika (situação que causou então desconforto no PCP). Outro tipo de história alternativa reside na ideia de que, com um Governo Cristas, Portugal teria saído mais cedo do “lixo”. Esta argumentação está exactamente ao mesmo nível de “Se a minha avó tivesse rodas, era um autocarro”.

 

Nova banalidade do ano: Terrorismo

 

Londres, Estocolmo, Paris, São Petersburgo, Manchester, Barcelona, Nova Iorque… Várias cidades foram alvo, ao longo deste ano, de ataques terroristas ligados ao fundamentalismo islâmico, para lá das matanças ocorridas em países psicologicamente mais longínquos como o Egipto e a Somália. A vaga de ataques do Daesh iniciada em 2015 promete prolongar-se por mais alguns anos, até porque é impossível prevenir a 100% atentados onde as armas utilizadas são facas ou carrinhas. Mesmo assim, a ocupação do antigo território do “califado” na Síria e no Iraque representa um avanço assinalável na luta antiterrorista. Entretanto, os ataques no “Ocidente” conheceram uma evolução na sua cobertura mediática, à medida que o tempo e o espaço dedicados pelo jornalismo ao fenómeno terrorista se iam reduzindo (pelo menos em Portugal) e os actos violentos passaram a ser rapidamente esquecidos no meio da voragem noticiosa. Por causa da consciencialização de que o mediatismo favorece os objectivos dos terroristas, devido a uma maior frieza e quase saturação do público ou apenas porque até o horror pode banalizar-se? Talvez a resposta seja um misto das três hipóteses.

 

Palhaçada do ano: Administração Trump

 

Após a eleição de Donald Trump, houve quem acreditasse que o sistema político americano acabaria por normalizar o milionário e levá-lo a abandonar a arrogância da campanha e ceder ao estilo tradicional dos presidentes republicanos. Todavia, o discurso da tomada de posse revelou Trump como um candidato ao lugar de ditador dos Estados Unidos da América. A partir daí, o governo de Donald, Melania, Ivanka e Jared envolveu-se num impressionante turbilhão de acontecimentos que se sucedem a um ritmo não diário, mas sim horário, de acordo com a cadência dos tweets. Entre o Médio Oriente, a Coreia do Norte e a ameaça de impeachment, ninguém arrisca prever no que isto vai dar. Pelo meio, apesar da satisfação da sua base de apoio (formada por um terço dos americanos e António Ribeiro Ferreira), o dono da Trump Tower sujeita os EUA à maior humilhação em mais de dois séculos de história.

 

 

Rua de má fama do ano: Acusação da Operação Marquês

 

Após três anos de espera, o país ficou a conhecer o conjunto de alegados crimes pelos quais José Sócrates, Ricardo Salgado e os restantes arguidos da Operação Marquês vão responder em tribunal, num julgamento cuja conclusão demorará vários anos. Até lá, é inquietante pensar que, caso a versão do Ministério Público (bem mais credível, diga-se, que a da defesa de Sócrates) esteja correcta, o Estado foi usado descaradamente para construir uma rede de poder e satisfazer os interesses privados de meia dúzia de influentes. Pelo meio, os pormenores caricatos do processo tornaram claro que José Sócrates, a quem amigos e inimigos reconheciam carisma e capacidades intelectuais, nunca passou afinal de um vulgar charlatão. Para quem permitiu através do voto, como eu, que o ex-líder do PS enriquecesse à margem da lei, o embaraço é inegável. Contudo, não me vou juntar à recém-formada legião de pessoas perspicazes que perceberam tudo sobre Sócrates quando os Delfins ainda estavam na moda nem louvar o jornalismo do Correio da Manhã, publicação que se limitou a detectar no antigo primeiro-ministro um filão inesgotável.

 

 

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