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Coisas de 2017 (3)

Fait-divers do ano: Madonna em Lisboa

 

É certo que a presença da “rainha da pop” na antiga Olisipo representa um trunfo publicitário importante para promover internacionalmente o turismo em Portugal, mas a dedicação com que os nossos jornalistas acompanham aquilo que Madonna partilha no Instagram e a odisseia da cantora para encontrar uma casa onde morar aproxima-se da parolice e do provincianismo. A Visão de 21 de Dezembro pergunta “quem não fica contente” em Portugal ao ver Madonna a fazer o que faz no extremo ocidental europeu. Pela minha parte, não fico contente nem triste. A obsessão dos media portugueses por aquilo que dizem de nós “lá fora” indicia uma auto-estima muito baixa e uma permanente sensação de irrelevância que fazem do simples facto de alguém reparar que existimos uma surpresa positiva e transformam os elogios vindos do estrangeiro em motivo para orgulho eterno da nação lusa.

 

 

Impasse do ano: Catalunha

 

Questionar os portugueses acerca da sua posição quanto à eventual independência da Catalunha faz tanto sentido como perguntar aos catalães se são a favor ou contra a independência de Portugal. A escolha não é nossa e apenas podemos assistir ao avanço dos separatistas, brevemente entusiasmados com uma precipitada declaração unilateral de independência, e à resposta musculada de Madrid, num braço de ferro que a votação de 21 de Dezembro prolongou, ao realçar as divisões profundas na sociedade catalã. Uma perspectiva possível sobre os acontecimentos centra-se na participação empenhada dos catalães no processo, entre o referendo organizado à margem do Estado espanhol, quando muitas pessoas foram agredidas por quererem votar, e uma taxa de abstenção de apenas 18% na eleição do novo Parlamento regional. Apesar da excepcionalidade da situação vivida na Catalunha, o contraste entre o interesse dos habitantes desta pelo seu destino colectivo e o cinismo e a indiferença perante a política habituais na costa ocidental da Península Ibérica é demasiado notório para não dar que pensar.

 

Marcelice do ano: Discurso de 17 de Outubro

 

Ao contrário do que por vezes se diz, os efeitos políticos das duas vagas de incêndios assassinos registadas em Junho e Outubro foram diferentes. Após Pedrógão Grande, quem ficou queimado (salvo seja) foi Pedro Passos Coelho, ao parecer ansioso por encontrar mais mortos, enquanto Marcelo Rebelo de Sousa foi fulminado pela direita devido à sua afirmação de que tinha sido feito o possível. As ignições de 15 de Outubro foram bem mais devastadoras para a imagem da Geringonça, quer pela repetição da tragédia quer pela desastrosa resposta política dada por governantes pródigos em frases infelizes ou inconvenientes. Neste contexto, o discurso feito pelo Presidente da República em Oliveira do Hospital acalmou a crescente indignação do país, influenciou a demissão de Constança Urbano de Sousa (lamento, Daniel Oliveira, mas é assim que vai ficar escrito nos livros de História) e, como foi visível nos editoriais da imprensa dos dias seguintes, acendeu nos corações de PSD e CDS a esperança de que o “casamento” até aí harmonioso de Marcelo e António Costa tinha chegado ao fim. A partir daí, o ex-director do Expresso confortou as vítimas dos incêndios e pressionou o Governo através de sugestões semelhantes a ordens dadas por um pai a um filho mal comportado. Quanto às motivações marcelistas, creio ser perfeitamente possível que a preocupação cristã e genuína do Presidente com o sofrimento das populações conviva com a plena consciência por parte de Marcelo do efeito político de tudo o que faz à frente das câmaras de televisão. A popularidade esmagadora e a omnipresença mediática de Rebelo de Sousa arriscam-se a ter dois efeitos perversos: orientar o regime num sentido mais presidencialista e resumir a política a uma competição onde ganha quem for mais “bom” e sensível.

 

Programa de televisão do ano: História a História – África (RTP2)

 

Com as suas camisas e suspensórios coloridos, Fernando Rosas percorre os antigos territórios coloniais portugueses em África para ilustrar através de paisagens e vestígios do passado (como as ruínas de Nambuangongo) a sua visão do “ciclo africano do Império”, delimitado entre finais do século XIX e a descolonização realizada em 1974-1975. Além do modelo televisivo de divulgação historiográfica estabelecido por José Hermano Saraiva, aqui adaptado a temas e linguagens bem diferentes, o programa da RTP2 apresenta uma combinação eficaz da exposição oral com mapas, gráficos e imagens de arquivo, sem deixar de identificar os autores das investigações académicas na base da síntese elaborada por Rosas. Aspectos como os massacres, o trabalho forçado, a opressão quotidiana, a discriminação racial e a hipocrisia do discurso oficial do Estado Novo sobre o “Ultramar” são desenvolvidos de forma crua e objectiva, trazendo à superfície uma violência cuja memória Portugal tentou não propriamente apagar, mas antes meter numa caixa, escondê-la num sótão escuro e rezar para que ninguém a viesse abrir. Apesar da sua qualidade e carácter de verdadeiro serviço público, História a História – África tem gerado escassas reacções, para lá dos insultos dirigidos por cronistas de O Diabo ao incómodo Rosas.

 

 

Surpresa do ano: João Lourenço

 

Ao longo de 38 anos no poder, José Eduardo dos Santos converteu Angola numa colónia da sua família e da restrita elite a ela associada. Forçado pela doença a sair da presidência, “Zédu” confiou a sua sucessão a João Lourenço, eleito sem problemas de maior (apesar de uma descida da votação no MPLA) e cuja missão seria, na opinião dos analistas, mudar alguma coisa para deixar tudo na mesma na ex-colónia portuguesa. No entanto, o terceiro presidente de Angola empenhou-se no combate à corrupção, exigindo o repatriamento dos capitais saídos do país, e promoveu uma autêntica purga no aparelho estatal. Quando a todo-poderosa Isabel dos Santos foi afastada da Sonangol e os outros filhos de José Eduardo perderam as suas fontes de rendimento no Estado, compreenderam-se, no meio da estupefacção geral (que atingiu, aparentemente, o próprio “Zédu”, empenhado agora em recorrer à sua influência no MPLA para sabotar Lourenço), as mudanças decisivas a decorrer em Luanda. Existe a hipótese de se verificar apenas uma dança de cadeiras guiada pelo objectivo de colocar nos lugares-chave pessoas fiéis ao novo presidente, sem alterar o essencial do sistema, mas as impressões positivas de opositores do regime angolano como Luaty Beirão e José Eduardo Agualusa obrigam a conceder a João Lourenço o benefício da dúvida.

 

 

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