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Desumidificador

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Como vencer uma discussão

Nunca se debateu tanto como hoje, seja nos cafés, nos media ou na Internet, mas as pessoas tendem a equivocar-se quanto à melhor forma de defender uma posição. Há muito que se provou que ninguém ganha uma discussão argumentando acerca do tema debatido, mas sim pondo em causa a honestidade moral e intelectual de quem está do outro lado. No entanto, o caro leitor não se pode limitar a dizer que o seu opositor é um idiota e um bandido, a não ser que possua uma personalidade especial, daquelas que levam alguém à presidência dos EUA ou do Sporting. Torna-se, assim, aconselhável o recurso a técnicas argumentativas mais subtis, frequentemente utilizadas na imprensa, na televisão e nas redes sociais. Seguem-se algumas recomendações úteis para quem pretenda desvalorizar as opiniões alheias.

 

Técnica “É tudo igual”:

 

Em vez de discutir o facto mencionado pelo seu opositor, atire pedras aos telhados de vidro dele, à imagem dos comunistas pró-soviéticos que, perante acusações de violação dos direitos humanos no bloco de Leste, respondiam sempre falando do Chile ou da África do Sul. Depressa conseguirá encontrar um pecado na história do clube/partido/religião/etc. dele, a partir do qual poderá retirar-lhe qualquer legitimidade para falar do problema no seu lado. Outra estratégia incluída nesta técnica é a de pôr mais peças em cima da mesa. Imaginemos que gosta da cor azul e uma celebridade vestida de azul diz um completo disparate. Pode afirmar que condena essa declaração, tal como condena, por uma questão de coerência, o disparate proferido no ano passado por uma celebridade vestida de cor de rosa. Desta forma, o rosa perde o ascendente moral sobre o azul, cuja asneira banaliza-se e já não parece tão grave. Exija ao seu adversário que sinta o mesmo nível de indignação acerca de 35 coisas por si consideradas equivalentes e deixe-o desnorteado. Afinal, se tudo é igual, nada é realmente importante. Noutro exemplo hipotético, imagine que uma autarca de esquerda do Rio de Janeiro é assassinada na rua. Ao ser chamado a comentar o crime, afirme que deplora a morte da política, da mesma maneira que deplora as mortes das vítimas de assaltos, das pessoas atingidas por balas perdidas e dos polícias falecidos em serviço. Esse esforço de pôr tudo no mesmo saco levará quem o lê ou ouve a perguntar-se o que raio fez a autarca para merecer um destaque mediático superior ao dos outros mortos, e assim começa a desvalorização do assassinato.

 

Técnica Helena Matos:

 

Depois de ouvir a abordagem ao tema X feita pelo seu adversário, pergunte-lhe porque é que toda a gente fala disso e não doutro assunto. Passe em seguida a uma longa exposição acerca do tema Y, salientando que o debate deveria ser acerca deste e não da insignificância trazida anteriormente à discussão. É fundamental dar a entender a existência de uma conspiração dos media nacionais, movidos por ideologia ou interesse, na origem da escassa informação disponível sobre Y. Se possível, cite jornais estrangeiros e notícias que só você conhece (mesmo se forem falsas, acha que alguém vai confirmar?). Acuse o seu opositor de ignorar deliberadamente Y pelo simples motivo de que Y desmente a “narrativa” daquele. Esta técnica visa garantir que, no final da discussão, já ninguém se lembra de X, o seu interlocutor aparenta ser parcial, ignorante e manipulado e você surge como o único capaz de ver a realidade sem filtros.

 

 

Técnica feitista:

 

Nada acontece por acaso. Qualquer acto e qualquer declaração têm por trás um interesse oculto. O mundo divide-se em bons e maus e quem apresente dúvidas sobre isso é suspeito. A partir destas três máximas, pode analisar tudo numa posição de superioridade moral. Investigue o passado dos seus adversários e recolha elementos suficientes para insinuar que eles só defendem uma determinada ideia porque estão feitos com alguém. Questione a imparcialidade de todas as decisões prejudiciais à sua hoste. Mostre-se mais indignado que ninguém com os corruptos, de modo a parecer mais honesto. Deixe, no entanto, claro que a desconfiança só pode funcionar numa direcção. Por exemplo, quando o clube rival do seu for beneficiado por um erro do árbitro ou de um jogador adversário, aponte essas falhas como deslizes propositados e provas irrefutáveis de corrupção. Já quando for o seu clube a beneficiar do erro alheio, lembre que as pessoas são falíveis e um clima de suspeição generalizada só prejudica o futebol.

 

Técnica “Isso agora não interessa nada”:

 

Se a causa do seu interlocutor apenas beneficiar parte da população, ele está tramado. Você pode pegar em qualquer problema sério da actualidade e compará-lo com a reivindicação dele, de modo a destacar a irrelevância desta. Siga o princípio de que o cérebro humano apenas consegue lidar com um problema de cada vez. Como as questões em que você deve pegar (mesmo, ou sobretudo, se não tiverem nada a ver com o assunto em questão) são vastas e difíceis de resolver, nunca haverá tempo livre para tratar da preocupação do seu adversário. Ele vai parecer um privilegiado fútil obcecado por ninharias, em contraste consigo, uma pessoa sensível ao sofrimento alheio e capaz de definir prioridades. Eis algumas reacções enquadradas nesta técnica:

“Com o país na crise em que está, tu queres discutir se os homossexuais devem poder casar ou não?!”

“Há tanta fome no mundo, e estes tipos querem deixar os animais entrar nos restaurantes!”

“O meu cão sujou a entrada do prédio? Você vem chatear-me com uma coisa dessas quando há crianças a serem mortas todos os dias na Síria?!”