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Crise? Qual crise?

A imprensa clubística representa uma fonte importante para o estudo do desporto português, não só pela cobertura pormenorizada que faz das diferentes modalidades dos emblemas que a produzem, mas também por permitir conhecer o discurso oficial dos clubes e a forma como estes reconstituem a sua própria história. Os periódicos editados pelos três “grandes” são, naturalmente, as publicações deste género com maior impacto nacional. Pouco depois de ascender à presidência do FC Porto, Pinto da Costa substituiu o velho semanário O Porto pela revista mensal Dragões (actualmente indisponível em papel), mais arrojada a nível do grafismo e conteúdo. Por sua vez, os rivais lisboetas mantiveram a publicação semanal dos jornais O Benfica e Sporting, herdeiros de periódicos surgidos no início do século XX. Hoje em dia, embora a Internet e os canais televisivos dos “grandes” constituam plataformas de difusão de propaganda mais eficazes e rápidas que a imprensa, os jornais benfiquista e sportinguista permanecem ainda nas bancas. No caso de Sporting, a direcção do semanário encontra-se confiada a José Quintela, um dos membros do Conselho Directivo do SCP que decidiram acompanhar Bruno de Carvalho até ao fim.

 

A capa da edição de 24 de Maio do jornal Sporting encontra-se dividida por vários temas, como o regresso de Augusto Inácio à direcção do futebol profissional do clube ou o feito dos jogadores de ténis de mesa “verdes e brancos”, tricampeões nacionais da modalidade e retratados num poster nas páginas centrais. No que respeita à situação de crise do Sporting, agravada pelos incidentes de Alcochete, a primeira página fornece apenas o título “Atletas, treinadores e dirigentes ao lado do Presidente”, acompanhado de uma fotografia de Bruno de Carvalho abraçando o andebolista leonino Carlos Ruesga. A chamada de capa remete para o artigo da última página do jornal, cujo lead afirma que “Muitos profissionais usaram as suas contas nas redes sociais para mostrar gratidão a Bruno de Carvalho, pelo apoio nunca regateado do responsável máximo do Clube às modalidades”. Seguem-se reproduções de posts escritos no Facebook ou no Instagram por Ruesga e outros atletas de desportos como futsal, voleibol, atletismo, futebol feminino e hóquei em patins, alguns dos quais mais dedicados a manifestar apoio ao clube num momento difícil do que propriamente a louvar Bruno. Muitas das 32 páginas da edição de Sporting relatam o sucesso do SCP nas modalidades, tema do editorial de José Quintela, onde encontramos apenas uma referência na primeira frase aos “últimos acontecimentos”, depois ignorados pelo director do semanário. O outro artigo de opinião deste número é assinado pela jornalista Sofia Oliveira, dominada por “um enorme sentimento de vergonha alheia” perante o trabalho da sua classe profissional, a qual acusa de “trocar o rigor e a exactidão pela sede das vendas ou das audiências”, sem apontar exemplos.

 

 

Sofia Oliveira escreveu igualmente a crítica ao jogo da final da Taça de Portugal de futebol, tema que preenche uma página incompleta de Sporting. A breve análise da partida não atribui a derrota do SCP ao “azar”, mas sim aos futebolistas leoninos (“Que culpa tem o azar se os jogadores se apresentavam estáticos?”), infelizes nos lances dos golos do Desportivo das Aves. Não se verifica no artigo qualquer alusão à violência na Academia ou aos efeitos psicológicos desta nos “leões”, excepto numa curta citação de Jorge Jesus. De resto, em todo o jornal, as agressões só são mencionadas nos comunicados da direcção sportinguista e na transcrição integral da declaração dos representantes dos órgãos sociais, encimada pelo título “Não nos demitimos a bem do Sporting”. O jornal chefiado por Quintela não acolhe quaisquer mensagens de sportinguistas contestatários de Bruno e mostra um clube em plena normalidade. Business as usual, acima de tudo. Não se esperava, obviamente, que o jornal oficial leonino fizesse uma cobertura isenta dos últimos eventos ligados ao SCP. Contudo, o grau de alheamento de Sporting relativamente à situação actual do clube roça a alucinação. Quem não seguir a restante comunicação social, tão criticada pelos brunistas, acreditará que o emblema de Alvalade vive a melhor fase da sua história centenária (excepção feita à inépcia dos irrelevantes futebolistas masculinos). Mais do que um órgão de propaganda do clube, Sporting constitui um veículo para o auto-elogio da direcção presidida por Bruno de Carvalho, num cenário que deveria revoltar os sportinguistas.

 

O mais interessante deste caso, no entanto, é que o semanário não publica (que se saiba) qualquer mentira, nem retira frases do contexto ou faz especulações. Para exprimir uma visão deturpada da vida do Sporting, limita-se a seleccionar determinados factos e ignorar outros. Esta é talvez a forma mais eficaz de manipulação jornalística, dentro ou fora da informação desportiva. Ninguém precisa de fake news quando basta restringir o conteúdo noticioso aos acontecimentos verídicos que confirmam uma dada narrativa, enquanto são ocultadas quer situações inconvenientes para quem domina o meio de comunicação em causa quer opiniões alternativas a determinada ideologia. O brunismo fez do Sporting um exemplo em escala reduzida de fenómenos políticos associados ao autoritarismo, entre os quais não falta o controlo da informação. É certo que ninguém seguiu o boicote a toda a comunicação social não dirigida por Alvalade ordenado por Bruno, num contexto em que a resistência leonina se agrupa nos blogues e redes sociais. No entanto, se isto se passasse à escala de um país onde os media afinassem todos pelo mesmo diapasão e a propaganda ignorasse a realidade ao garantir que tudo corria às mil maravilhas, o que aconteceria?