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Desumidificador

Desumidificador

Desumidificar por aí

Ficamos a perceber que a blogosfera portuguesa já conheceu melhores dias quando 80% dos utilizadores do Sapo que responderam a um inquérito recente afirmam nunca ler blogues. Tempos diferentes viviam-se nos anos gloriosos de 2003-2004, marcados pelo fascínio de muitos cibernautas com a súbita democratização da opinião publicada e a revelação nos blogues de novos comentadores políticos que chegariam pouco depois aos media tradicionais. Nessa altura, fui convidado para escrever sobre cinema no Pipoca Rasca, rapidamente interligado com outros blogues dedicados ao mesmo tema, cuja rede fornecia opinião e informação alternativas às da então abundante imprensa cinéfila. Sem perceber grande coisa do assunto, critiquei filmes durante cinco anos até me cansar. Enquanto a troika voava para a Portela, lancei sozinho o blogue Tralha Útil, sem tema específico mas onde escrevia sobretudo transcrições de notícias de jornais antigos que descobria durante as minhas pesquisas e achava curiosas por uma razão ou outra. Em 2013, compreendi que aquilo já não fazia sentido e afastei-me da blogosfera, recebendo apenas vagas informações segundo as quais os blogues políticos estavam a perder qualidade e a ser dominados pelos partidos, enquanto proliferavam diários virtuais sobre lifestyle (seja lá o que isso for) repletos de publicidade. Entretanto, as redes sociais, em particular o Twitter e o Facebook, dominavam o mundo e, com um alcance e uma interactividade muito superiores aos dos blogues, pareciam condená-los à irrelevância.

Todavia, foi através das redes sociais que voltei à blogosfera. Ao ver toda a gente a dar palpites sobre a actualidade no Facebook, resolvi também lançar algumas bocas, mas depressa percebi que o café gigante de Mark Zuckerberg não foi feito para difundir opiniões que não caibam num único parágrafo. Só nos velhos blogues é possível encontrar o ritmo e o espaço necessários a análises menos instantâneas e mais desenvolvidas. Sem vontade de regressar ao Blogger, encontrei mesmo à frente do nariz a plataforma do Sapo Blogs e, na tarde do dia 1 de Fevereiro de 2017, criei um site cujo nome, por razões óbvias, só poderia ser Desumidificador. Como orgulhoso odivelense que sou, coloquei no cabeçalho uma fotografia do Jardim da Música. Restava apenas saber o que fazer com uma tribuna sobre tudo e sobre nada.

 

 

Os textos que fui produzindo, geralmente escritos já depois da meia-noite e publicados na manhã seguinte, acabaram por se dividir, de uma forma geral, em quatro grupos, entre críticas a livros que li, opiniões sobre a política nacional, crónicas centradas numa determinada figura pública e descrições do meu acanhado universo pessoal, para além de ocasionais digressões em torno do cinema, do futebol ou da televisão. Quando acabo um post, nunca sei qual será o tema do próximo texto. De resto, apesar da pressão que todos sentimos para comentar tudo, muitas vezes não tenho opinião sobre as últimas notícias ou, depois de ler ou ouvir o que os comentadores a sério disseram, sinto não ter nada a acrescentar. Longe de aspirar à originalidade, procuro abordar os temas a partir de um facto ou uma perspectiva até aí subvalorizados. Quanto ao estilo, a ironia costuma ser mais eficaz que doses industriais de indignação, o produto mais vendido do nosso tempo, para atingir um alvo. Apesar de ser de esquerda (ou talvez por isso mesmo), passei os últimos dois anos a falar da direita, um sector político a viver uma fase tão interessante quanto inquietante.

Porque escrevi mais de 200 posts, crónicas ou o que queiram chamar-lhes? Por causa da eterna paixão pela leitura e pela escrita, mas também porque cada publicação é uma espécie de mensagem na garrafa à espera de ser descoberta por alguém num lugar longínquo. Canções dos Police à parte, os comentários que recebi foram muito encorajadores. Agradeço à equipa do Sapo Blogs pelos destaques concedidos a textos meus, bem como a quem nomeou o Desumidificador para os Sapos do Ano 2019. As reacções de discordância acesa têm sido menos numerosas, mas ser apelidado de “comuna beócio” também aquece o coração. Quanto ao futuro, nem sempre é fácil prosseguir num ambiente tão húmido, mas isto não acaba assim.

 

P.S. A imagem é da autoria deste fotógrafo.

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