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Direitas unidas?

Pedro Marques Lopes e outros adversários do Observador descrevem o jornal electrónico como o porta-voz e instrumento de pressão de uma “direita radical” ou “extrema-direita” desejosa de assumir o controlo do PSD. A palavra “radical” tem sido tão frequentemente utilizada quer pela esquerda quer pela direita para se atacarem que já não significa nada de concreto. Quanto à acusação de extremismo, é incorrecto confundir os colunistas do Observador, de natureza liberal, com o sector mais autoritário da direita, cujas opiniões podem ser acompanhadas através do semanário O Diabo e dos artigos e declarações de figuras dessa área (João Braga, Maria Vieira, Jaime Nogueira Pinto, António Ribeiro Ferreira, etc.) dotadas de acesso ao espaço público. Por outro lado, tanto os liberais como as personagens da direita extraparlamentar prefeririam ir jantar com o xeque Munir e Rita Ferro Rodrigues a passar pelo horror de apertar a mão a Rui Rio. A Direita Liberal (DL) e aquilo a que, simplificando, chamaremos Direita Fascista (DF), possuem vários pontos de contacto e de separação que explicam as antipatias e afinidades entre dois territórios políticos separados não por um muro, mas por uma fronteira aberta onde circulam ideias entre os dois lados.

 

Pontos de separação

 

Relações externas: O eurocepticismo da DF, avessa a quaisquer instituições supranacionais que ponham em causa a soberania da pátria, contrasta com a ligação da DL à ortodoxia de Bruxelas, embora os liberais rejeitem projectos federalistas. À defesa do proteccionismo económico e à crítica aos “globalistas” feitas pela DF, os liberais respondem com a apologia da globalização e do comércio livre. De resto, um traço distintivo dos membros da DL é a afirmação de que a dicotomia tradicional esquerda/direita deixou de fazer sentido, para dar lugar ao antagonismo entre cosmopolitas e partidários de “sociedades fechadas”. A multiculturalidade e as alterações urbanas associadas ao crescimento do turismo geram desconfiança na DF, enquanto a DL parte do princípio de que, se algo dá dinheiro, só pode ser bom.

 

Costumes: As mudanças culturais ocorridas nas últimas décadas causam profundo desconforto na DF, à qual continua a fazer muita confusão que casais do mesmo sexo andem de mão dada na rua. No seio da DL, as atitudes variam em função do grau de influência da Igreja Católica, mas vários liberais aceitam, em nome da liberdade individual, o princípio de que o Estado não deve regular a vida privada dos cidadãos. O recente coming out de Adolfo Mesquita Nunes originou elogios a uma direita moderna e arejada, agora livre de tabus obsoletos. Entretanto, a reboque do movimento MeToo, alguns colunistas da DL recuperaram o puritanismo, criticando os alegados excessos da liberdade sexual adoptada desde os anos 60.

 

Passado: A extrema-direita relembra assiduamente os exemplos dos heróis da História portuguesa (D. Afonso Henriques, Nuno Álvares Pereira, Afonso de Albuquerque…) e encontra em Salazar uma referência incontornável do pensamento político, além de chorar ainda a perda do Império. Já na DL, predomina uma atitude presentista e de relativa indiferença pelo passado, do género: “Sim, o 25 de Abril foi giro, com os cravos e tal, mas porque é que temos de andar sempre a falar nisso?” Os “observadores” recuam no tempo apenas para irem buscar Sá Carneiro e garantirem que o fundador do PSD estaria do lado deles se fosse vivo. No que respeita ao anticomunismo, a clivagem nas direitas é mais geracional que ideológica. Enquanto os políticos e comentadores mais velhos utilizam o mesmo discurso dos tempos do PREC e da Guerra Fria, os jovens descrevem o PCP e o Bloco de Esquerda sobretudo como forças reaccionárias e interesseiras, cuja oposição às necessárias reformas se deve à tentativa de proteger os seus eleitorados.

 

 

Pontos de contacto

 

Lá fora: Embora o discurso da DF seja mais agressivo, ambas as direitas defendem os “valores ocidentais” e preocupam-se com a “islamização da Europa”, ligada ao terrorismo e aos numerosos crimes cometidos por muçulmanos no continente demasiado generoso que os acolheu. Tanto a DL como a DF são fortemente pró-israelitas, considerando anti-semitas as críticas a Israel, visto como um farol de civilização no meio da barbárie árabe. Perante o fenómeno Trump, as reacções das direitas portuguesas têm variado (com raras excepções) entre o elogio ilimitado, o silêncio benévolo ou o esforço de “normalizar” o presidente americano, mero seguidor da linha dos seus predecessores. Os articulistas da DF mostram uma clara admiração pelo estilo autoritário de governo de Vladimir Putin, enquanto na DL a diversidade de opiniões não impede o surgimento de russófilos inesperados como Paulo Portas.

 

Politicamente correcto: São abundantes, quer no Observador quer em O Diabo, os lamentos pela ameaça à liberdade de expressão representada pelo castrador “politicamente correcto”, impeditivo de uma análise da realidade tal como é e obcecado pelos direitos das minorias ao ponto de colocar os homens brancos heterossexuais numa situação de quase clandestinidade. A DF e a DL sentem uma repulsa instintiva por ecologistas, “animalistas” ou activistas anti-touradas e denunciam, mesmo em textos de colunistas ateus, a tendência cultural de descristianização, na origem de uma modernização imprudente da Igreja.

 

Sociedade: Defensoras por excelência da iniciativa privada e hostis a impostos ou regulações limitativos da actividade dos empresários, as direitas partilham a tese de que os portugueses se habituaram a uma vida de gastos luxuosos superiores às possibilidades do país (para a DF, a decadência hedonista começou com o 25 de Abril, enquanto a DL visa sobretudo os governos socialistas empossados a partir de 1995) e propõem uma contenção severa de despesas rumo ao pagamento integral da dívida pública. O discurso anti-elitista, focado no desprezo pela “oligarquia” e pelas “elites bem-pensantes” criadoras e beneficiárias do “sistema” vigente, que as protegia com carinho mediático e parcialidade da justiça antes da aurora redentora trazida pelo Correio da Manhã e por Joana Marques Vidal, ganhou nos últimos anos uma relevância crescente na ideologia das direitas nacionais.

 

 

Dentro do campo não esquerdista, encontra-se ainda o espaço reduzido do Centro-Direita (CD). Tal como a sigla indica, o CD já conheceu momentos de glória, em particular na década de 90, mas o seu declínio mostra-se inegável. Ao proporem uma via reformista, as personalidades do CD vêem parceiros naturais nos “assistas” do PS, com quem partilham a repugnância pelas correntes revolucionárias das respectivas áreas políticas. No entanto, o esvaziamento do centro, o domínio da opinião publicada pelos “radicais”, o agravamento da visão bélica da política e a falta de condições para entendimentos inter-partidários a longo prazo tornam cada vez mais rarefeito o ar respirado pelo CD, enquanto a DF e a DL começam a acreditar que muito mais é o que as une que aquilo que as separa.