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Desumidificador

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E no entanto, isto move-se

1. A abstenção atingiu nestas eleições valores preocupantes que nos obrigam a uma reflexão profunda. Pronto, já disse a frase indispensável. Agora posso esquecer isso durante quatro anos e analisar as opções das pessoas que se deram ao trabalho hercúleo de ir votar.

 

2. A popularidade da Geringonça ditou os resultados finais das legislativas, até porque o PS nunca explicou de forma convincente em que medida uma maioria absoluta seria melhor que a manutenção da coligação de esquerda, a solução predilecta de muitos eleitores socialistas. António Costa terá de continuar a governar apoiado em concessões a outros partidos, num cenário internacional que, depois de uma campanha em que tudo era possível, ficámos a saber estar prenhe de ameaças. Não será fácil, mas a pressão das bases leva as direcções de PS, BE e PCP a evitarem a todo o custo serem consideradas responsáveis por uma eventual ruptura. Como escreveu José Pacheco Pereira em 2015, o casamento pode ser difícil, mas o divórcio seria muito pior.

 

 

3. O PSD tremeu mas não caiu no Norte, em parte do Centro e na Madeira, regiões onde venceu o PS por curta margem ou ficou pouco atrás dos socialistas. No resto do país, porém, a influência social-democrata é cada vez menor, particularmente no distrito de Lisboa, acentuando-se a tendência para uma ruralização do voto “laranja”. Em resposta a isto, Rui Rio mostrou-se demasiado satisfeito com o segundo lugar e adoptou um discurso mesquinho, típico de quem faz uma lista das pessoas que o chateiam para um dia vir ajustar contas. As sondagens do início de Setembro, que pareciam ser a condenação de Rio, converteram-se na sua salvação, já que o portuense baseia-se numa votação superior às fracas expectativas para não sair sem luta da liderança. Acontecerão em breve eleições directas no PSD e Rio, novamente desafiado, poderá sair vencedor. Resta saber se conseguirá inverter a progressiva perda de fôlego do partido de Cavaco Silva.

 

 

4. No final dos anos 80, o desaparecimento de um PCP forte e a efemeridade do furacão PRD permitiram a PS e PSD dominar em conjunto mais de dois terços do eleitorado. Nas legislativas de 1991, a soma dos votos de PSD e PS atingiu uns impressionantes 79,73% do total, descendo mais tarde para 77,88% (1995) e 76,38% (1999). Na primeira eleição parlamentar deste século, em 2002, os membros do Bloco Central somavam ainda cerca de 78%, mas cairiam para 73,79% (2005) e, há dez anos, com 65,67% dos votos, não atingiram os dois terços, sendo prejudicados pelo crescimento de BE e CDS e pela estabilidade da CDU. 2011 mostrou uma ligeira recuperação de PS e PSD, escolhidos por 66,71% dos votantes, antes de se verificar em 2015 a formação da PAF, cuja percentagem, adicionada à obtida pelo PS, somaria 69,17%. Finalmente, em 6 de Outubro de 2019, a votação conjunta de PS e PSD não foi além de 64,55%, o valor mais baixo desde 1985. Tudo isto revela que, apesar do enraizamento popular que socialistas e sociais-democratas mantêm, o predomínio dos dois maiores partidos da democracia é cada vez menor. Nas áreas mais urbanizadas, os eleitores demonstram um interesse crescente por novos projectos políticos e alternativas ao “centrão”, para lá do aumento dos votos brancos e nulos. A resistência dos partidos tradicionais em Portugal, apontada como uma excepção no contexto europeu, tem sido sobrestimada.

 

5. O declínio do PCP nos últimos quatro anos não se deve ao alegado descontentamento dos eleitores comunistas com a participação na Geringonça, mas sim a factores estruturais ligados ao envelhecimento do universo do partido, incapaz de se adaptar às mudanças no trabalho e na sociedade e cuja linguagem antiquada e repetitiva prejudica a atracção de novos (e jovens) eleitores. A influência comunista no sindicalismo começa também a ser posta em causa. A simpatia e genuinidade de Jerónimo de Sousa, um português comum que pode dizer que comeu “o pão que o diabo amassou” sem ser desmentido, elevaram e estabilizaram a votação na CDU até se tornarem insuficientes. Se o PCP funcionasse como os outros partidos, Jerónimo apresentaria a sua demissão, mas só deverá ser substituído no congresso de 2020. Dito isto, a morte do partido pró-soviético (no centenário da Revolução Russa, mostrou continuar a sê-lo) de Portugal já foi muitas vezes anunciada e sucessivamente adiada, pelo que conclusões definitivas são de evitar.

 

6. O período de Assunção Cristas na liderança do CDS pode ser dividido em fases distintas. Entre 2016 e 2017, Cristas soube afirmar a sua marca num partido muito marcado pelo perfil do seu antecessor e conduzir a hoste democrata-cristã a um resultado histórico na autarquia de Lisboa, embora irrelevante no resto do país. Depois desse feito, contudo, a “futura primeira-ministra” pareceu ser tomada por um certo deslumbramento, a partir do cálculo político errado (também feito por Santana Lopes, com os resultados que se viram) de que a viragem ao centro do PSD e a aproximação de Rui Rio ao PS levariam numerosos votantes “laranjas” a mudarem-se para a verdadeira direita, tornando o CDS a “primeira escolha”. O ano de 2019, coincidindo com a saída de Adolfo Mesquita Nunes da vice-presidência do CDS, tem sido desastroso para o partido, onde foi visível por muitas vezes um desnorte total. Depois do mau resultado das europeias, influenciado pela “crise dos professores” e pelo comportamento de Nuno Melo (um representante fiel daquela direita que ainda não digeriu bem a derrota de 1834), Cristas assumiu uma pose mais contida e o Verão decorreu sem grandes abalos, apesar dos sinais preocupantes de radicalização revelados pela polémica das casas de banho. A abundância de sondagens negativas instalou no discurso do CDS um tom permanente de desespero, a que se juntaram uma campanha publicitária que não fez sentido e a opção de Assunção Cristas por baixar demasiado o nível nos confrontos com António Costa. O programa liberal/conservador apresentado no Caldas não satisfez uma faixa de eleitores que encontrou na IL um projecto mais coerente. De regresso aos números do cavaquismo, o CDS enfrenta um futuro indecifrável e indica que os partidos nascidos em 1974 podem não ser eternos.

 

7. O crescimento do PAN deve-se acima de tudo à habilidade política de André Silva, que soube aproveitar muito bem o escasso espaço de que dispôs ao longo da legislatura agora finda para fazer os holofotes incidirem sobre o seu partido. No dia em que Manuel Alegre escreveu que 229 deputados pareciam ter medo de um único parlamentar, a batalha do PAN estava ganha. O intenso escrutínio mediático a que o partido foi sujeito durante a campanha, com as suas propostas mais ridículas a serem expostas à luz do dia, pode ter impedido o PAN de ir além de um nicho de eleitorado, mas conferiu aos animalistas uma visibilidade que nunca mais perderão, até porque o contexto mundial de crescente preocupação com as alterações climáticas beneficia-os.

 

8. A Iniciativa Liberal provou que, apesar de em Portugal ainda quase tudo se jogar na televisão, uma campanha baseada em cartazes e na utilização das redes sociais pode ter sucesso e chamar a atenção dos media tradicionais sem necessidade de recorrer à lamúria santanista. A irreverência e contundência da IL, expressas na sua “oposição ideológica ao socialismo”, têm feito recordar os primeiros anos do Bloco de Esquerda, podendo surgir outra semelhança quando, à imagem do que sucedeu há vinte anos com os bloquistas, parte da comunicação social revelar um carinho muito especial pela organização de Carlos Guimarães Pinto.

 

9. Visto com benevolência por toda a gente (excepto os fascistas), o Livre tem sido uma espécie de Belenenses ou Académica da esquerda, ou seja, a segunda preferência de muitas pessoas que, na hora da decisão, acabam sempre por apoiar um dos “grandes”. Desta vez, porém, nas eleições do tudo ou nada para o partido de Rui Tavares, a base de apoio predominantemente lisboeta do Livre chegou para atingir o “sem-precedente”. O desafio do Livre será conseguir assumir o seu papel de aliado natural do PS sem ser engolido pelos socialistas. Pelo seu percurso de vida, Joacine Katar Moreira apresenta-se como a representante de grupos populacionais cujas experiências e preocupações raramente são ouvidas pelas elites políticas. Dito de outra forma, se vivêssemos num país ideal, a descrição da historiadora como mulher, negra e imigrante seria supérflua, mas não o é. Quanto à gaguez de Joacine, as pessoas mais apressadas terão de ser pacientes, porque ela não vai ficar calada.

 

10. A entrada do Chega na Assembleia da República é a segunda morte do professor Freitas do Amaral. De facto, a actividade de Freitas no período entre 1974 e 1976 permitiu esvaziar a extrema-direita portuguesa e levou a maior parte desta a entrar nos partidos do sistema (PSD e CDS), sem abalar o consenso sobre o regime político. No entanto, a última década assistiu a uma vaga internacional de retorno do fascismo (sim, eu sei que se trata de uma simplificação, mas também não podemos cair no extremo de dizer que ninguém é fascista) e Portugal, apesar das cada vez mais distantes memórias da ditadura e da Revolução, não poderia ficar de fora. André Ventura viu a sua oportunidade e, em pouco tempo, conseguiu aproveitá-la. O que poderá o político apoiado pelo grupo Cofina acrescentar no Parlamento? Barulho.

 

 

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