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Desumidificador

Desumidificador

Em resumo, tem sido isto

Imagens do meu passado que vêm à memória por ordem desordenada:

 

A minha sobrinha a tentar compreender o mundo louco a que veio parar. O livro da 4.ª classe de Tomás de Barros. O cão, o nosso grande inimigo. A resistência heróica antes da rendição incondicional. A prof. Bonifácio a repor os níveis de nicotina. As torres já derrubadas quando cheguei. Os passeios nocturnos sempre iguais pelas ruas de Alvor. Aquela vez em que cantei para combater um silêncio insuportável. As bolachas comidas no carro enquanto o Benfica jogava para a Liga Europa. A Mônica, o Cebolinha, o Cascão e a Magali. O beijo no cabelo. Soltar gases na casa de banho da Biblioteca Nacional. A vigília por Timor que serviu para acalmar a minha consciência. As minhas avós a ouvirem o terço na Rádio Renascença. O folheto dos Jeovás com um Jesus armado. Os meus pais a discutirem a melhor via para o socialismo. Eu a ser o único a não sorrir na fotografia. O sol, o frio, a chuva, o vento. Os movimentos sexy no autocarro. O nosso colega que se passou dos carretos na aula de História Moderna e que nunca mais vimos. A comunicação que só a Irene, a Inácia e a Raquel ouviram. O meu amigo a tornar-se insuportável quando teve a depressão. O suor dos exames do 12.º ano. O espantalho que me assustou. A minha irmã com um sorriso “from here to here”. Os Pink Floyd a tocar no Live 8. Os longos minutos sem clientes na loja. A falta de pessoal no SNS. As voltas na Boavista em dia de Benfica-Sporting. Os vómitos no hotel. Arrastar-me da escola até casa com o pé esquerdo torcido. O Estádio do Dragão visto de fora. A prima adolescente com mamas grandes. O meu cunhado com uma ideia disparatada que deu um grande livro. O dia de S. Valentim em que levei um tabefe. Os circuitos do turismo otário. Ler Os Maias em 10 dias. Acabar a tese na noite em que o Trump ganhou as eleições. O poema do meu avô que estupidamente não copiei. O prof. Manuel Sérgio, errático mas fascinante. Terminar a corrida com a parca alegria de não ficar em último. A Lina a ver-se livre da capa ainda antes de ouvir a nota nas provas de doutoramento. O sussurro de despedida. As mulheres sempre no poder. A mágoa de perder dezenas de borrachas durante as aulas. Ir aos Açores para ler revistas de BD dos anos 60 e 70. A Avenida de Berna a abarrotar de gente. O alívio de uma brisa durante a procissão. Duas sandes de pasta de frango com alface e tomate. A aula que dei sobre a Revolução Russa. Centenas de maçãs comidas no recreio. A Mafalda lida durante os furos. Anos e anos com medo da praxe, e afinal. Ajudar a descarregar garrafões de vinho. O tédio nos casamentos. Os colchões verdes no ginásio improvisado. O trânsito caótico de Benfica. A viagem com os futebolistas Hilário e Vicente. O fogo suficientemente longe da minha casa para ser apenas um espectáculo. O tipo que me roubou a máquina fotográfica. A inauguração da Biblioteca Municipal. O esparguete à bolonhesa na Expo 98. A quietude dos caniços dos Pombais. Eça de Queiroz no Big Brother. A Té a imitar a fala dos bebés. O gira-discos vindo de África que não me lembro de alguma vez ter sido usado. O papel demasiado pequeno para os meus rabiscos. O leite frio que detestei. Encontrar o Bibi no Diário da República. O chão da Hemeroteca a ranger. O toque no quartel da GNR. O recorde de frio batido na aldeia. A porta que ou estava aberta ou estava fechada. O sumo em copos de plástico. A espanhola desconhecida. Super-heroínas na televisão. A antiga sala de cinema do Bairro Alto. A minha tia a trocar-me o nome. As inúmeras sedes do PSD na Madeira. O concerto dos Onda Choc. O terreno pelado do Campo Diogo José Gomes. O meu sobrinho a querer ouvir o Zé Mário Branco.

 

 

Como consegui fazer tão pouca coisa em 34 anos? Bem, não foi fácil, mas tenho um talento especial.