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"Fahrenheit 11/9"

O realizador Michael Moore alcançou a fama nos EUA com o filme Roger & Me (1989), mas só se tornou conhecido em Portugal a partir de 2003, quando Moore aproveitou a atribuição do Óscar de Melhor Documentário a Bowling for Columbine para fazer um discurso inflamado contra George W. Bush e a invasão do Iraque. No ano seguinte, o cineasta tentou sem sucesso evitar a reeleição de Bush através de Fahrenheit 9/11, documentário que gerou uma acesa discussão na nossa blogosfera, onde a esquerda considerou o filme digno da Palma de Ouro que recebera e a direita resumiu a obra a um monte de mentiras e manipulações. Durante os anos Obama, contudo, os ecos do activismo de Moore começaram a esbater-se, apesar do realizador ter vindo a Portugal filmar parte de E Agora, Invadimos o Quê? 14 anos depois da mediática polémica em torno de Fahrenheit 9/11, a nova longa-metragem de Michael Moore estreou num único cinema de Lisboa e praticamente sem referências fora das páginas de crítica cinematográfica. Na verdade, no meio de tantos conteúdos audiovisuais hoje disponíveis em todo o lado, um filme destes não chama a atenção de quase ninguém.

 

O cinema de Michael Moore é marcado pelo humor certeiro e pelo talento do americano obeso para expor as realidades mais inacreditáveis, mas também pelo egocentrismo de Moore e pela exploração do sofrimento alheio a que por vezes recorre. Um pouco disto tudo pode ser encontrado em Fahrenheit 11/9, que, tal como o seu antecessor de 2004, começa por imaginar que tudo não passou afinal de um pesadelo, antes de enfrentar a dura realidade, vivida agora sob a administração de Donald Trump. Desta vez, contudo, Moore não se limita a desancar o presidente dos EUA e procura lançar um olhar mais abrangente sobre a paisagem política americana. A profusão de acontecimentos referidos torna Fahrenheit 11/9 algo ineficaz na ligação entre os seus capítulos, com a história da contaminação da água de Flint, a terra natal do realizador, a parecer um filme dentro do filme. No entanto, a ideia de apresentar a devastada cidade do Michigan como um microcosmos dos Estados Unidos actuais revela-se compensadora.

 

 

Uma das lições deste documentário é a de que vivemos na era da polarização. Quando Moore entrevista eleitores democratas que se sentem traídos pela elite moderada do partido, percebe-se que a conversa sobre as eleições que se ganham ao centro e a classe média receosa do radicalismo já não faz grande sentido. De resto, surgem no filme várias das novas congressistas recentemente eleitas nas intercalares, mais próximas do anticapitalismo de Moore que da linha tradicional do Partido Democrata. Fica também claro como o discurso de Trump vai pouco a pouco transformando o impensável na nova normalidade. Há sempre quem diga que os Trumps e os Bolsonaros acabarão por ser controlados pelas instituições e pela necessidade de compromissos, mas antecipar o pior cenário e alertar para a fragilidade da democracia constitui a atitude mais prudente, antes que um dia destes mil Alcochetes aconteçam.

 

A gravidade da situação americana contribui para que Fahrenheit 11/9 seja menos chocarreiro que o habitual na filmografia de Moore e dominado por um apelo urgente à destruição do sistema viciado no qual Trump cresceu e venceu. A esperança do cineasta está nos jovens e em todos os resistentes que confrontam os políticos, fazem greves e manifestações e participam na democracia (ou seja, aquelas pessoas que Raquel Varela adora e João César das Neves odeia). Além de descrever uma época conturbada, Fahrenheit 11/9 reflecte sobre os erros da esquerda e o regresso às origens de que esta precisa para fazer os cidadãos recuperarem a fé na soberania do povo. Sem essa fé, o tempo dos presidentes vitalícios estará para ficar.

 

 

Um filme para… Pensarmos em como raio é que podemos sair disto.

Nota: 7/10.

 

P.S. Eram dispensáveis as insinuações de Moore acerca da suposta relação incestuosa entre Donald Trump e a sua filha Ivanka. Por outro lado, as imagens dos dois juntos são bastante creepy. Enfim, adiante…