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Desumidificador

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Fechistas e abristas

Ao longo de um ano de Covid-19, o debate nos media e nas redes sociais tem sido marcado pelo confronto entre duas tendências que agrupam números significativos de portugueses (não se incluem aqui os negacionistas). De um lado, está o partido Fechem Tudo, com os seus membros, os fechistas, defensores de fortes restrições à actividade quotidiana que facilitem o combate ao vírus. Do outro, os abristas, ligados ao partido Abram Tudo e favoráveis a um número reduzido de limitações aos comportamentos individuais. A relação de forças entre os dois partidos é influenciada, tal como tudo o resto, pelos números da pandemia. Quando a situação da Covid-19 se agrava, verifica-se uma hegemonia cultural do fechismo, mas qualquer descida da incidência da doença estimula o pensamento abrista. De facto, algumas pessoas oscilam entre um lado e outro de acordo com a conjuntura, até porque o AT e o FT são partidos heterogéneos que recrutam membros quer à esquerda quer à direita. Apesar das variações momentâneas, os discursos de ambas as facções possuem tiques relativamente estáveis.

Para os fechistas, o país é uma criança rebelde da qual eles são as mães. Quando sai à rua ou mesmo quando se limita a olhar pela janela, o fechista anota mentalmente todos os indivíduos que prevaricam e observa onde (não) está a polícia, cujos cassetetes deveriam estar a bater com força nas carnes dos criminosos desmascarados. A vigilância permanente e a troca de informações mantidas pela comunidade fechista permite-lhe criar uma base de dados com os nomes e moradas de todos os inimigos da saúde. Os fechistas gozam de uma vasta superioridade moral decorrente da preocupação e responsabilidade que exibem. Por isso mesmo, estão investidos da missão de vituperar os irresponsáveis que não levam a doença a sério e atacar os políticos que facilitam, não mostram pulso firme e ainda reclamam privilégios. Pessimista antropológico por excelência, o fechista tem como frase preferida “eu avisei” e como segunda frase preferida “depois não te queixes quando estiveres num caixão”. O cúmulo da ira ocorre quando um fechista fascista vê um grupo de comunistas, reunido num espaço aberto ou fechado. Nessas ocasiões, uma imparável torrente de ódio sai da boca ou do teclado do FF, ganhando uma força destruidora superior à da lava do Vesúvio.

 

 

Por seu turno, o abrismo considera-se a doutrina da coragem, aquela qualidade que os medricas aterrorizados pela propaganda fechista não possuem. O partido abrista tem uma acentuada consciência de classe, mostrando-se ao lado da plebe que sai de casa para trabalhar e desprezando os burgueses privilegiados que ficam deitados no sofá a ver a Netflix. Nos períodos em que dispõe de menos camaradas, o militante abrista reforça a consciência da sua superioridade intelectual perante os “carneiros” incapazes de desobedecerem à lógica dominante. Os abristas seleccionam cuidadosamente os especialistas que confirmam a sua crença, acusando todos os outros de estarem ao serviço do Estado ou de interesses obscuros, e lamentam frequentemente os mortos não-Covid, que estariam vivos se não fosse essa maldita obsessão com a doença da moda. Implacáveis com a DGS e o Governo, que não confiam nos portugueses e estão sempre a dar ordens absurdas e contraditórias, os abristas alertam permanentemente para a necessidade de mais debate. Afinal, as pessoas hoje em dia não são ignorantes e até consultam a Internet, pelo que, se 0,1% da população manifesta dúvidas sobre as medidas contra a pandemia, os restantes 99,9% devem esperar pacientemente até que uma discussão longa, franca e aberta revele quem tem razão ou abra pistas para um novo debate.

 

 

O fechismo e o abrismo estão ligados a duas ameaças vindas de trás que ganharam maior expressão com a pandemia, da qual pode resultar um Estado mais opressivo e controlador em nome do bem comum, mas também um individualismo exagerado que, em associação com a “morte da competência” e os especialistas em tudo brotados do solo do Google, criaria uma sociedade ingovernável. Deve haver um meio-termo, e para alcançá-lo é necessária mais humildade. Afinal, encontrar uma fórmula que combine os interesses da saúde e da economia é dificílimo e implica múltiplos erros e cedências. Quando se vai atrás de algo que não controlamos, neste caso o coronavírus, a única maneira de ser sempre coerente é ser um fanático. Podemos formar as nossas opiniões, mas, numa matéria em que os próprios especialistas divergem entre si, não faz sentido que os leigos apresentem soluções definitivas que as autoridades só não seguiriam por idiotice. Também é necessária alguma tolerância quanto às diferentes reacções e comportamentos individuais perante a ameaça da Covid-19. Entre o pânico descontrolado e a irresponsabilidade total, existem muitas variantes que podem coexistir sem discussões estéreis.

 

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