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"Francisco Pinto Balsemão"

Um dos fenómenos editoriais mais interessantes do século XXI em Portugal tem sido o retorno da biografia. O êxito comercial obtido em 2000 pelo D. Afonso Henriques de Diogo Freitas do Amaral talvez tenha alertado os editores para o valor de mercado dos livros dedicados ao género biográfico. Por outro lado, os historiadores portugueses seguiram a tendência internacional de regresso ao estudo dos indivíduos e da acção das personagens mais influentes, expressa em várias teses de mestrado e doutoramento de carácter biográfico, tal como nas colecções especializadas nos chefes de Estado ou noutras figuras políticas. Também os jornalistas têm produzido muitas biografias, focadas sobretudo em personalidades ainda vivas. Vários dos trabalhos jornalísticos deste tipo pecam pela superficialidade ou constituem meras técnicas de promoção da imagem dos biografados, mas existem igualmente obras de qualidade assinalável, com destaque para os livros do jornalista e comentador Joaquim Vieira, responsável por numerosos estudos sobre o passado português. Depois de elaborar uma biografia de Mário Soares e uma fotobiografia de Álvaro Cunhal, Joaquim Vieira lançou-se, por solicitação da editora Planeta, no desafio de escrever a história da vida de Francisco Pinto Balsemão (1937-), antigo patrão de Vieira quando este trabalhou no Expresso. O autor não só procede a essa “declaração de interesses” como se transforma brevemente em personagem da história que conta, ao recordar o episódio no qual foi obrigado a sair do cargo de director-adjunto do semanário.

 

A narrativa traçada por Joaquim Vieira a partir da informação recolhida em vários arquivos, na imprensa, na bibliografia e em numerosas entrevistas (Pinto Balsemão e os familiares deste recusaram prestar declarações, no caso do primeiro devido ao objectivo de escrever em breve um livro de memórias) a personalidades que, de forma assumida ou sob anonimato, falaram de uma maneira surpreendentemente franca acerca do empresário, atravessa as diferentes fases de um percurso de oito décadas. Nascido em berço de ouro, Francisco Pinto Balsemão viveu a infância e a juventude sem grande sobressaltos, antes de cumprir o serviço militar, durante o qual foi ajudante de campo do subsecretário de Estado da Aeronáutica, Kaúlza de Arriaga, confiante num jovem que apoiava sem reservas o salazarismo (apesar dos esforços posteriores de Balsemão para retocar essa parte do seu passado). No entanto, a experiência de Pinto Balsemão na direcção do Diário Popular, pertencente à sua família, terá despertado no advogado a vocação jornalística e, através do contacto permanente com a censura e da influência de repórteres hostis ao regime, feito Balsemão compreender a necessidade de alterações profundas em Portugal. A vontade de mudar levou Francisco a ingressar em 1969 na “ala liberal”, então crente nas promessas reformistas de Marcelo Caetano, e suportar ao longo dos anos seguintes a desilusão com o bloqueio do Estado Novo. Surge então o “momento decisivo” destacado por Vieira, a fundação do Expresso, o semanário inovador que resistiria às pressões quer da censura quer, após o 25 de Abril, do poder revolucionário e mudaria o jornalismo português, além de apoiar a fundação do PPD/PSD, partido onde Balsemão integrou o sector mais à esquerda.

 

Inesperadamente, Pinto Balsemão viu-se no final de 1980 com a responsabilidade de liderar o Governo da AD. Pelo que Joaquim Vieira e as suas fontes relatam, Balsemão presidiu a dois governos cujos membros, incluindo o primeiro-ministro, exerciam as suas funções contrariados, mas resistiram até à conclusão da revisão constitucional de 1982, essencial para desmilitarizar a democracia portuguesa, apesar da hostilidade do então Presidente da República, o general Ramalho Eanes, autor de um depoimento inédito sobre esses anos transcrito no livro de Vieira (o texto confirma que, apesar do patriotismo e honestidade que todos lhe reconhecem, Eanes é a pessoa mais aborrecida do mundo). As críticas constantes de sociais-democratas como Cavaco Silva a Balsemão, destituído do carisma e capacidade de liderança de Sá Carneiro, aliadas à difícil situação económica e à decisão de Freitas do Amaral de pôr fim à coligação com o PSD, levaram em 1983 ao afastamento do fundador do Expresso da ribalta política. Balsemão prosseguiria a partir daí a sua carreira de empresário da comunicação social, sector onde atingiu uma posição de destaque única, sobretudo após a criação em 1992 da SIC e a aquisição de numerosas publicações pelo grupo Impresa, chefiado pelo playboy morador na Quinta da Marinha. A biografia termina com a referência aos primeiros sinais de declínio da Impresa, confirmados já depois da conclusão da obra pelo anúncio do fecho ou venda iminentes das revistas do grupo.

 

 

Seguindo o princípio mencionado na epígrafe, onde Vieira compara implicitamente Balsemão ao personagem interpretado por Orson Welles em Citizen Kane, o biógrafo procura ir além da mera enumeração dos êxitos e fracassos do biografado e apresentar um retrato da personalidade deste. Assim, as impressões de quem conviveu de perto com Francisco Pinto Balsemão descrevem-no como um homem arrojado, simpático, tolerante, trabalhador e mulherengo, além de salientarem características como a sua sovinice, a dificuldade em lidar com situações de ruptura ou uma excessiva benevolência para com quem o prejudica (mas quando se zanga com alguém, é a sério). Tal como noutras biografias da sua autoria, Vieira não deixa de lado a vida privada do indivíduo em causa, abordando episódios como a disputa legal em torno de Francisco Maria, o filho de Balsemão nascido fora do casamento em 1970 e cuja paternidade o jornalista recusou assumir até ser forçado a isso pela justiça (actualmente, Francisco Maria Balsemão integra a administração da Impresa). Entre as qualidades e os defeitos do militante n.º 1 do PSD, o balanço é positivo, até porque Vieira admira a capacidade de Balsemão de “fintar o seu destino”. Ao invés de se limitar a gozar os privilégios fornecidos pelo estatuto social da sua família, o biografado “Fez, empreendeu, protagonizou, arriscou, criou, inovou, agitou, desafiou, ousou” (p. 545).

 

Apesar de poucos portugueses conhecerem Pinto Balsemão para lá da impressão de poder e riqueza associada ao seu nome e do boneco sempre sorridente outrora apresentado no Contra-Informação e nos cartoons de Augusto Cid, a influência dos projectos políticos e jornalísticos do actual chairman da Impresa no país justificava há muito um livro deste género. Com o tom equilibrado, nem hagiográfico nem agressivo, que lhe é habitual, Joaquim Vieira realiza em Francisco Pinto Balsemão um trabalho bastante útil para conhecer a história da política e da comunicação social em Portugal no último meio século, através da informação fornecida não só acerca do protagonista, mas também de personagens secundárias como os antigos directores do Expresso Marcelo Rebelo de Sousa e José António Saraiva.

 

P.S. Joaquim Vieira reproduz nesta biografia vários excertos de um dos seus livros anteriores, O Público em Privado, uma obra de 2011 sobre os primeiros 20 anos do Público encomendada e impressa pelo jornal da Sonae, mas que nunca chegou às bancas. Que razões terão levado o Público a “censurar” a sua própria história? Dado o notório interesse do trabalho em questão, seria possível que Vieira publicasse o livro noutra editora ou correria o risco de ser processado pelo diário?

 

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