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Futebol capitalista

A história do futebol em Portugal no século XX é a história de uma resistência inútil à transformação do futebol num produto capitalista. Na transição entre Oitocentos e Novecentos, o football deixou a pouco e pouco de constituir apenas uma distracção de sportmen eclécticos pertencentes às elites, numa altura em que portugueses de origens tão modestas como as dos alunos da Casa Pia de Lisboa se iniciavam nos pontapés na bola. A composição do público dos jogos também se alterou de uma maneira perceptível nas crónicas da imprensa, onde a lista das pessoas distintas presentes em cada desafio deu lugar a lamentos pela agressividade e falta de fair-play manifestadas pelos milhares de lisboetas e portuenses de vários escalões sociais em afluência crescente aos campos de jogo. Estes começaram a ser rodeados por vedações só ultrapassadas por quem pagava bilhete, contribuindo assim para financiar os clubes em ascensão. Por seu turno, os novos futebolistas, oriundos de meios populares, não dispunham dos rendimentos e tempo livre necessários para se dedicarem ao desporto sem qualquer compensação monetária.

 

A massificação e institucionalização do futebol concretizadas nos principais centros urbanos do país durante a década de 20 deram origem ao “profissionalismo encoberto”, através do qual os melhores futebolistas, todos oficialmente amadores, eram remunerados de forma oculta ou através de empregos obtidos pelos clubes para os seus atletas. De vez em quando, essa realidade vinha a público, devido a episódios como a rocambolesca digressão ao Brasil empreendida pelo Vitória de Setúbal em 1929, após a qual os valores pagos aos jogadores participantes foram conhecidos pela imprensa. Apesar da indignação dos defensores do amadorismo puro, os organismos associativos evitavam punir os clubes prevaricadores. Verificava-se, assim, uma situação ambígua que o Estado Novo, desconfiado do espectáculo desportivo, não clarificou até 1960, data da legalização do profissionalismo no futebol português, bastante tardia em comparação com o sucedido na maioria dos países europeus e sul-americanos. As regras vigentes dificultavam, no entanto, as transferências e mantinham reduzido o poder negocial dos futebolistas, bastante dependentes das entidades patronais, ou seja, dos dirigentes clubísticos. Entretanto, apertadas restrições proteccionistas, aliadas ao filão ultramarino, limitavam a contratação de jogadores estrangeiros, enquanto os portugueses a jogar fora do país eram muito raros.

 

 

O 25 de Abril permitiu a obtenção de uma regulação mais favorável à liberdade contratual dos jogadores lusos, mas também deu eco a uma nova onda de críticas ao futebol profissional, provindas de responsáveis governamentais com a tutela do desporto, tal como de jornalistas desportivos próximos do PCP ou da extrema-esquerda. As críticas visavam, entre outros aspectos, os gastos elevados com o futebol, a “clubite” e a “campeonite”, o reduzido incentivo dos grandes clubes à prática de desporto pela população, o comportamento de dirigentes oriundos dos meios empresariais (como João Rocha, presidente do Sporting), que estariam a servir-se das colectividades para obter promoção pessoal, a escassa participação dos sócios na gestão dos emblemas e a alienação dos adeptos, desviados pelo futebol da consciência dos problemas sociais e da luta para os resolver. Na futura sociedade socialista a criar em Portugal, o profissionalismo desportivo seria extinto, à imagem do que se passava então na Europa de Leste. A partir de 1976, porém, a estabilização da democracia e os primeiros governos constitucionais levariam ao recuo destas concepções, enquanto o desporto via garantida a capacidade de se auto-regular.

 

Nas décadas de 80 e 90, avançaram mudanças ao nível da generalização das transmissões televisivas, da exibição de publicidade nas camisolas das equipas, da diversificação das fontes de rendimento dos clubes, da liberalização do mercado de transferências, da subida dos rendimentos de atletas e treinadores e da transformação dos principais clubes em Sociedades Anónimas Desportivas. Por fim, o futebol nacional tornou-se uma “indústria” especializada na “exportação” de “activos” e integrada no processo de globalização, sendo apontado como um exemplo de sucesso raro na economia portuguesa, além de beneficiar de apoio político e publicidade contínua na comunicação social. Também no futebol, o triunfo do capitalismo liberal parecia irreversível.

 

O segredo do sucesso do negócio futebolístico encontra-se na constância da procura, dificilmente esgotável enquanto o desporto-rei fornecer aos adeptos/consumidores um sentimento identitário e emoções de vitória ausentes do resto do quotidiano. Contudo, no caso português, a sobrevivência da galinha dos ovos de ouro parece subitamente estar em risco, devido a factores decorrentes da própria lógica capitalista da modalidade. De facto, o sucesso desportivo tornou-se essencial à sobrevivência financeira das SAD, ameaçadas caso os títulos do futebol e as consequentes receitas não compensem o investimento feito. A disputa entre as três marcas dominantes (pouco competitivas a nível europeu) pelo domínio do mercado interno português é cada vez mais feroz, estimulando os dirigentes a recorrer à corrupção para facilitar a obtenção de uma posição privilegiada e o triunfo sobre a concorrência. Em torno dos trabalhadores do sector, surgiu um grupo de parasitas, beneficiários do sucesso resultante do esforço daqueles e por vezes dispostos a pressionar a mão-de-obra por meio de coacção ou violência. A qualidade do produto decaiu e os compradores mais exigentes começam a sentir que o sabor já não é aquele que os atraiu em crianças. Há mesmo quem fale em boicotes à mercadoria que antes era o orgulho do país. Apesar de tudo isto, os donos do negócio estão agarrados ao poder e julgam poder manter os seus privilégios por um período ilimitado, graças à docilidade e ingenuidade das massas. Chegou a hora da revolução?