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Heil Bruno

A estátua de um leão a rugir colocada em 2017 na nova rotunda entre o Estádio Alvalade XXI e o Pavilhão João Rocha ergue-se sobre um pedestal com quatro faces, alusivas ao lema do SCP (“Esforço, dedicação, devoção e glória”) e preenchidas pelo emblema do clube e por duas frases. A primeira destas foi proferida por um dos fundadores do Sporting, José Alvalade, enquanto a segunda, gravada na face relativa à “Glória”, pertence a Bruno de Carvalho, o presidente leonino responsável pela inauguração da obra. Se a escultura permanecer intacta daqui a 30 anos, nessa altura o nome de Bruno e a sua (banal) frase continuarão imortalizados no monumento. Esta situação dá a entender três coisas. Primeiro, uma confusão bizarra entre a instituição Sporting Clube de Portugal e o indivíduo que a preside, o qual já se serviu de meios do clube para divulgar notícias da sua vida pessoal. Segundo, a afirmação implícita de que Alvalade e Carvalho, separados por um século, são as duas principais figuras da história da colectividade lisboeta. Por fim, um prenúncio desagradável para os “leões”: enquanto José Alvalade simboliza o início do Sporting, Bruno de Carvalho pode ser o protagonista do fim do clube.

 

 

Tal como os ditadores europeus do período entre guerras, Bruno de Carvalho chegou ao poder num ambiente de caos e desespero. No início de 2013, o SCP atravessava a mais grave crise financeira e desportiva da sua história e tinha-se convertido num objecto de pena dos rivais. Perante este cenário, a promessa brunista de tornar o Sporting grande outra vez não poderia deixar de agradar aos sócios “verdes e brancos”. O vocabulário pouco cortês (digamos assim) de Bruno gerou indiferença na maioria do universo leonino, influenciado pela irracionalidade crescente associada ao futebol português, pela memória dos presidentes discretos e polidos que conduziram o emblema de Alvalade ao fracasso, pelo gosto por líderes que batam forte nos adversários e pela naturalidade com que “o novo Rei Leão” mantinha o seu discurso agressivo e, através da repetição, conseguia normalizá-lo. O sobrinho-neto de Pinheiro de Azevedo garantiu o apoio das massas através de vários êxitos, entre eles a regularização das finanças do clube (embora existam dúvidas sobre a responsabilidade exclusiva de Bruno de Carvalho no saneamento financeiro, o certo é que foi o actual presidente do SCP a recolher todos os louros), a construção do Pavilhão João Rocha, a remodelação profunda do museu sportinguista, os troféus conquistados pelas modalidades e a melhoria dos resultados da equipa principal de futebol, embora falte ainda aos “leões” o título de campeão nacional, que certamente daria a Bruno o poder vitalício.

 

Apesar de pouco comum na história do Sporting, a liderança carismática exercida por Bruno seguia a inspiração óbvia do exemplo de Pinto da Costa, visível em traços como o protagonismo mediático do presidente, agora sentado no banco de suplentes e não na tribuna, o ataque frequente à comunicação social, o apelo à emoção e à teatralidade, a criação e escalada de um clima de guerra permanente entre o clube e os outros “grandes” (apesar de alianças episódicas com os inimigos de ontem) ou a resistência a supostas forças ocultas e poderosas. Ao olharem para o passado, tanto Jorge Nuno como Bruno promoveram o revisionismo histórico, no primeiro caso relativamente à data de fundação do FCP e no segundo a propósito da contabilização dos Campeonatos de Portugal, enquanto realçavam o carácter excepcional das suas próprias presidências, consideradas momentos de ruptura gloriosa com anteriores fases de declínio. Da mesma forma, ambos estimularam o culto da personalidade e a identificação entre clube e presidente. No entanto, enquanto Jorge se apoiou num vasto palmarés futebolístico, fruto das suas inegáveis capacidades directivas, para assumir um estatuto quase inabalável e matar à nascença qualquer contestação interna, Bruno revelou uma menor habilidade para os jogos, quer no relvado quer nos bastidores, e, movido pela sua personalidade tão especial, adoptou a via da força bruta e de uma tendência totalitária.

 

O paralelismo entre a extrema-direita e o regime brunista passa, em primeiro lugar, pela recusa do direito do adversário interno a existir. A dissidência, mais do que contestada, é apresentada como uma aberração, na medida em que criticar o líder, personificação e intérprete exclusivo do interesse do colectivo (neste caso, da nação sportinguista), significa trair o próprio grupo e auto-excluir-se deste. O dissidente, ou “sportingado”, coloca-se assim do lado do inimigo, devendo ser tratado como tal, inclusive através da violência. Ao mesmo tempo, as massas, para não se desviarem do caminho certo, têm de ser protegidas das “mentiras” difundidas pela informação não controlada pelo poder e educadas no pensamento único, expressão da verdade indiscutível ligada à homogeneidade da Nação, cujos interesses sobrepõem-se às preferências individuais dos seus membros. O sistema deve ser totalmente controlado pelo poder executivo e unipessoal do chefe, sem os limites representados por órgãos colectivos e pluralistas (como o Conselho Leonino), destinados à extinção ou a um papel decorativo. Caso os subordinados do chefe falhem no cumprimento das missões por este confiadas, não devem ser perdoados, mas antes denunciados como traidores incapazes de sentir a pertença ao grupo e desprovidos da pureza e dedicação necessárias para levar o colectivo à vitória. Evidentemente, quando esta for atingida, todos se devem remeter à obscuridade de modo a que apenas o líder, verdadeiro artífice do sucesso, brilhe e seja louvado. Aplicar esta descrição ao Sporting pode parecer exagerado, mas a última assembleia-geral dos “leões” terminou num ambiente de tal forma assustador que, se Jaime Marta Soares gritasse “Heil Bruno!” e os restantes sócios repetissem a frase em uníssono, ninguém acharia estranho.

 

Enquanto o FC Porto é governado por uma monarquia e o Benfica constitui uma democracia minada pela corrupção, o Sporting está a tornar-se um regime fascista, à medida que o estilo de liderança de Bruno de Carvalho se assemelha cada vez mais às práticas de Donald Trump e de outros líderes autoritários e populistas actualmente a surgir um pouco por todo o mundo. De resto, caso as notícias sobre as ameaças da Juve Leo a vários jogadores do plantel sejam verdadeiras, Carvalho dispõe já de uma polícia política ao seu serviço. Todavia, Bruno deixou-se deslumbrar e adquiriu uma concepção exagerada do seu poder. O presidente “verde e branco” terá realmente acreditado que todos os comentadores adeptos do SCP deixariam de imediato a televisão após a ordem do líder, enquanto os futebolistas repreendidos no Facebook limitar-se-iam a comer e calar. As várias reacções de insubmissão continuam a deixar o marido de Joana Ornelas pasmado. É cedo para saber se o brunismo sobreviverá a este abalo, mas a revolta de muitos adeptos do Sporting aumenta a esperança na resistência da democracia perante a ameaça autoritária, mesmo na escala reduzida de um clube desportivo.

 

P.S. Entretanto, Bruno e Jaime entraram em colisão. Mudam-se os tempos, mudam-se as vontades.

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