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Desumidificador

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i, 16 de Fevereiro de 2018

 

1. “Governo Sombra

23H45

 

Carlos Vaz Marques modera, como sempre, os ânimos de tralará dos “ministros” João Migué Tavás, Pº Mexia e RAP. Um pequeno governo que procura cumprir a promessa que continuamente faz aos seus “eleitores”: a da análise mais lalala do momento.” (sic) (“Programação – Hoje”, p. 42)

 

Poder-se-ia pensar que algo de muito esquisito ocorreu durante a feitura das páginas do i reservadas aos destaques da programação televisiva, dado que os restantes textos da secção são geralmente normais, mas a sinopse de outro programa da TVI24, Autores, apresenta-se assim: “O programa é uma parceria TVI/Sociedade Portuguesa de Autores, e uma grande chatice, com apresentação de Mário Figueiredo e edição de Fernanda Freitas” (p. 43). Claro que a ideia de esboçar comentários humorísticos aos programas de TV portugueses até seria interessante (se leu a nota, Ricardo Araújo Pereira certamente disse que o i publicou a melhor descrição de Governo Sombra jamais feita), mas parece tratar-se de um caso esporádico de alguém que tentou ser engraçado, sabendo que não sofreria consequências de maior, devido ao número reduzido de leitores do jornal.

 

2. “Ontem, somente um dia depois de a bancada eleita no tempo de Passos se demitir, Fernando Negrão anunciou que é candidato (…)” (p. 2)

 

Sebastião Bugalho, jornalista especializado no PSD e no CDS, assina um artigo sobre o desconforto dos deputados “laranjas”, ignorados por Rui Rio durante a escolha do novo líder parlamentar do partido. No entanto, ao que o texto indica, Rio não terá quaisquer problemas, já que a demissão colectiva dos deputados do PSD eleitos em 2015 permitir-lhe-á colocar pessoas da sua confiança em S. Bento. Obviamente, quem se demitiu em 14 de Fevereiro foi apenas Hugo Soares, afastado do cargo de líder da bancada social-democrata. Pouco abaixo deste lapso, lemos que o deputado Adão Silva é “amigo pessoal de Rio e um dos únicos vices de Hugo Soares que apoiou (sic) o nortenho nas diretas”. Erros de português e frases sem sentido tornam-se cada vez mais comuns nas páginas do i.

 

3. “Triste país este em que levar uma criança a uma corrida de toiros ou a uma caçada é considerado ofensivo da sua formação, mas algumas dessas crianças possam ver os pais em casa todos dias à marretada um ao outro, e isso já não é problema.” (sic) (Rodrigo Alves Taxa, “O bobby já pode ir ao restaurante E nós, quando começamos a ladrar? (sic)”, p. 33)

 

O i tem aberto as suas páginas de opinião a jovens comentadores de direita com idades à volta dos 30 anos, como o publicitário João Gomes de Almeida ou os académicos da área do Direito João Lemos Esteves e Rodrigo Alves Taxa. O esforço de renovação do painel de comentário é louvável (e gratuito, já que os colunistas do i não recebem nem um euro do diário), mas as crónicas escritas pelos novos analistas têm deixado muito a desejar, quer na forma quer no conteúdo. Neste caso, Taxa critica a permissão da entrada de animais de estimação em restaurantes e inicia uma espiral de fúria (o artigo inclui 11 pontos de exclamação) que culmina na frase citada. Para além do incrível português utilizado, a afirmação não faz qualquer sentido. Os opositores das touradas são defensores da violência doméstica? Os casais que se agridem e não ensinam os filhos a caçar pecam por incoerência? Uma criança cujos pais andam “à marretada um ao outro” diariamente não terá problemas mais graves que não poder ver animais a serem mortos ou feridos? Não gosto de cães, mas reconheço que muitos deles são mais inteligentes que o Dr. Taxa.

 

 

4. “Encaro muito mal (a subida do salário mínimo) por duas razões. Por um lado, a diferenciação salarial tem um efeito de estímulo à qualificação profissional das pessoas. Se houver diferenciação salarial entre aqueles que têm ordenados mais baixos porque têm baixas qualificações e os que têm salários mais altos porque apresentam mais habilitações e qualificações acaba por criar um estímulo à qualificação. E isso é bom porque o país precisa de se qualificar para o futuro. (…) E depois há um outro aspeto (…) os trabalhadores começam a ter a sensação que aquilo que o governo fixa é que conta e não aquilo que as empresas podem pagar, o que acaba por criar um espírito de funcionário em toda a gente.” (Pedro Ferraz da Costa, empresário, p. 25)

 

O excerto da entrevista ao presidente do Fórum para a Competitividade que gerou polémica foi a frase de Ferraz da Costa destacada pelo i na capa (“As empresas não conseguem contratar porque as pessoas não querem trabalhar”), mas a opinião do empresário acerca do salário mínimo apresenta igualmente motivos para reflexão. Se bem entendi, caso um jovem trabalhador ganhe 580 euros mensais, começa a acomodar-se e a sentir os efeitos degradantes do estilo de vida burguês. No entanto, se auferir apenas 500 euros, vai acabar por pensar: “Eh pá, fiz mesmo asneira quando decidi seguir uma carreira na fast-food em vez de ser engenheiro informático como os meus pais queriam. Felizmente, o salário mínimo permitiu-me poupar dinheiro suficiente para pagar três anos de propinas e ainda sobra para o mestrado.” Quanto àquilo que o entrevistado designa por “espírito de funcionário”, parece tratar-se da mania do trabalhador de pedir ao patrão um salário melhor. As pessoas podiam trabalhar, mas não querem. As pessoas podiam estudar, mas não querem. Pedro Ferraz da Costa podia dizer alguma coisa sensata, mas não quer.

 

5. “Ainda que o caminho (da continência sexual dos católicos recasados) seja difícil, nunca deve deixar de ser proposto (…). Dito de outra forma, viver a continência é dizer “eu não estou devidamente capacitado/a por Deus para te amar como esposo/a, mas posso e quero ser para ti e para os filhos (se os houver) amparo e companhia, enquanto Deus o quiser.”.” (Maria José Vilaça, “Psicóloga católica”, p. 19)

 

Isto é só estúpido.