Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Desumidificador

Desumidificador

Livros efémeros e outras notas

1. Apesar de toda a pressão para ler os clássicos e gostar dos grandes autores, continuam a fascinar-me os livros efémeros. Livros enquadrados nesta categoria costumam ser expostos em destaque nas lojas, alcançar os tops de vendas e obter uma ou outra referência na imprensa. No entanto, menos de um ano após o seu lançamento, já ninguém se lembra deles. Obras de auto-ajuda, biografias e autobiografias de celebridades no activo, livros baseados em textos de blogues ou páginas do Facebook e a maioria dos volumes sobre política ou futebol publicados em Portugal constituem exemplos de livros efémeros. Habitualmente surgidos para responder a temas da actualidade e/ou fornecer um veículo promocional aos autores, estes trabalhos depressa ficam datados, mas tornam-se documentos preciosos sobre um determinado período e resumos das ideias mais em voga no tempo em que nasceram. Apesar da existência de livros efémeros estar longe de ser nova, as variações no mercado e as necessidades financeiras urgentes das editoras contribuem para a recente proliferação deste tipo de obras nas livrarias.

 

 

2. Entrevistado pela revista da Bertrand, Somos Livros, o escritor Richard Zimler atribui a ascensão da extrema-direita à “ignorância em relação à própria história”, visível no voto dos americanos pouco instruídos em Donald Trump e no suposto desejo de Jair Bolsonaro de manter no Brasil “milhões de pessoas ignorantes, que votem num fascista”. Na verdade, as sondagens para a segunda volta das presidenciais brasileiras indicavam que Fernando Haddad apenas obtinha a maioria das intenções de voto entre os eleitores mais pobres e menos escolarizados, enquanto Bolsonaro dominava facilmente as preferências das elites e da classe média, dotadas de melhor educação. Além do acesso à informação, muitos outros factores, mais emocionais que racionais, influenciam as opções políticas, pelo que acreditar que uma boa educação das “grandes massas ignorantes” a que Zimler alude fá-las-á votar da maneira correcta revela-se ilusório. A um nível mais geral, duvido muito que a leitura de livros possa tornar o leitor uma pessoa melhor. Claro que os livros facilitam a transmissão do saber, mas não ensinam necessariamente a maneira de lidar com ele. Acima de tudo, as obras literárias constituem uma forma de passar o tempo nem mais nem menos válida que a música, o cinema, a televisão ou qualquer outra. Quando se pergunta a um leitor porque lê, a resposta mais directa e sincera continua a ser “porque gosto”. Tudo o resto é acessório.

 

3. Primeiro a televisão, depois os videojogos, agora a Internet. Ao longo das últimas décadas, houve sempre uma qualquer distracção a afastar os jovens do contacto com os livros. Da mesma forma, também existiram sempre vozes a lamentar a ignorância e a iliteracia dos portugueses mais novos, em óbvio contraste com os hábitos das gerações anteriores. Não há comentador que não tenha passado a adolescência a ler incessantemente, a discutir Dante e Shakespeare com os amigos e a escrever poemas num excelente português. É preciso relativizar todas estas queixas. Afinal, os compradores e consumidores de livros foram sempre uma minoria num país onde os analfabetos representavam ainda 40% da população maior de 7 anos em 1950, mas registaram-se desde então enormes avanços, estimulados pelo ensino, pela rede de bibliotecas públicas e pela crescente vulgarização da leitura no quotidiano. Actualmente, pessoas habituadas desde cedo ao imediatismo das redes sociais podem ter dificuldade em suportar a lentidão e a concentração necessárias à fruição dos livros. No entanto, estes últimos sobreviverão, como sobreviveram sempre, mesmo que tenham de se adaptar.

 

4. Uma biblioteca pessoal é um retrato do seu dono, podendo uma observação atenta detectar os gostos, manias, opiniões e até episódios da vida de quem reuniu um dado conjunto de livros. O número de obras, as línguas em que estão escritas, a sua disposição na estante, os autores mais frequentes, os temas e géneros predominantes ou ocasionais, a idade, o tamanho, o grau de conservação dos livros… Tudo pode ser útil para analisar, mesmo antes de uma pesquisa por datas, autógrafos, anotações, dedicatórias, trechos sublinhados e outras marcas escritas do bibliófilo. Terão os livros sido tijolos de um muro construído para separar o leitor do resto do mundo (sim, gosto dos Pink Floyd) ou revelam uma sucessão de viagens, contactos e experiências novas? Abundam no acervo os best-sellers ou textos obscuros lidos por minorias? Obras antigas compradas em alfarrabistas ou livros ainda a cheirarem a novos? Colecções completas ou volumes desgarrados? Além de revelarem pistas sobre o percurso dos seus criadores, as bibliotecas contribuem para preservar a memória individual e colectiva e transmiti-la às gerações futuras. Como pode alguém dispensar os livros em papel?