Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Desumidificador

Desumidificador

Mas...

1. O Brasil não atravessa uma simples crise, vive o colapso de um regime, simbolizado pelo incêndio no Museu Nacional do Rio de Janeiro. Para lá da pobreza e desigualdade sociais que continuam a marcar um país de enorme desperdício de recursos, uniram-se no mesmo momento factores como a radicalização ideológica, o descrédito da comunicação social, a politização da justiça, a recessão económica, a corrupção generalizada na classe política, o bloqueio de um sistema partidário fragmentado onde não é possível governar sem comprar (literalmente) votos no Congresso, a mistura entre política e religião ou uma vaga de criminalidade de proporções inéditas. Perante um cenário que se agrava cada vez mais, o estado psicológico de muitos brasileiros é de medo e saturação. A esperança despertada pela chegada ao poder do PT e pelos programas sociais implementados por Lula da Silva e Dilma Rousseff desvaneceu-se através do envolvimento do partido de esquerda no sistema corrupto. Não sei se Lula é culpado ou inocente daquilo que o acusam (mesmo em Portugal, é difícil encontrar quem tenha uma visão do ex-presidente brasileiro algures no meio-termo, entre o herói e santo e o maior bandido à face do planeta), mas a estratégia do PT de insistir na candidatura presidencial do seu líder histórico até ao limite do possível e depois apostar em Fernando Haddad, ao qual se colou uma imagem de marioneta ou simplesmente de terceira escolha, constitui uma receita para o desastre. Tudo isto cria condições perfeitas para que apareça um tipo pouco conhecido e com pose de durão a dizer que vai arrasar aquilo que existe e instaurar uma ordem nova. Não explica bem como o fará, mas, já que todos os políticos convencionais falharam, muitos eleitores estão prontos para dar um tiro (lá está) no escuro. É preciso ter em conta este ambiente para perceber o que se passa no Brasil, de nada servindo classificar os eleitores de Jair Bolsonaro (ou os de Trump, Salvini, etc.) como um bando de idiotas.

 

Mas… Há um ponto em que a desculpabilização se transforma em infantilização dos eleitores e a atribuição de todas as culpas à esquerda converte a extrema-direita num sujeito passivo a quem o poder caiu no colo por mero acaso. Não cometamos essa injustiça para com os fascistas, coitados. Para lá do protesto anti-sistema, o vago programa de Bolsonaro inclui uma retórica em torno dos “bons costumes”, embrulhada em inúmeras referências a Deus, que se traduz numa agenda profundamente reaccionária, apostada em reverter as conquistas obtidas a favor das minorias étnicas, das mulheres, dos homossexuais e de todos aqueles que não encaixem no mundo tal como Jair o vê. Claro que nem todos os votantes em Bolsonaro são extremistas, mas muitos deles sabem bem o que o seu candidato defende e estão de acordo com ele. As características específicas do Brasil não podem fazer esquecer o fenómeno global em curso. A democracia deixou de estar na moda, enquanto ser racista, machista ou homofóbico começa a tornar-se aceitável e a ser considerado um saudável desafio ao “politicamente correcto”. No Brasil como noutros países, o centro implodiu e a direita antes “respeitável” radicalizou-se. O ódio pelos adversários cresceu ao ponto de legitimar a violência política. As redes sociais contaminaram o debate público através de uma torrente de mentiras, ataques pessoais e propaganda sem contraditório. Ao fornecer informação maciça, caótica e de origem duvidosa, a Internet fez muitos cidadãos julgarem-se conhecedores de todos os temas e desconfiarem de especialistas que desmintam os seus preconceitos (sobre o caso americano, veja-se o livro A Morte da Competência, do republicano anti-trumpista Tom Nichols). O sectarismo e agressividade no discurso político contribuíram para adocicar os defeitos dos líderes de extrema-direita; desde que estes irritem o “inimigo”, podem ser rudes e ignorantes à vontade. O ataque às “elites” passou a ser uma arma das verdadeiras elites. Jair Bolsonaro é apenas mais um candidato a ditador. O risco da maioria da população decidir democraticamente acabar com a democracia está longe de ser exclusivo do Brasil.

 

 

 

2. Após lançar um movimento para destituir Rui Rio da liderança do PSD, no qual não foi acompanhado pelos outros críticos do portuense (prudentemente quietos, eles aguardam a desgraça de Rio nas legislativas de 2019), André Ventura anunciou a sua saída da hoste laranja e a criação de um novo partido, o Chega, fundado com base em propostas como o fim do casamento homossexual, a instituição da prisão perpétua ou a extinção de numerosos cargos políticos. Nunca agradeceremos o suficiente a Pedro Passos Coelho por ter trazido Ventura para a ribalta. No entanto, desde que Passos foi substituído por Rio à frente do PSD, a direita conhece um surpreendente processo de fragmentação. Para lá das divisões no PSD e no CDS, foram já anunciados quatro novos partidos da mesma área política: Chega, Aliança, Democracia 21 e Iniciativa Liberal. Se afastarmos a (duvidosa) hipótese destes partidos convencerem muitos abstencionistas a irem votar, não existe eleitorado suficiente para tantas formações de direita, várias das quais ficarão fora do Parlamento. No que respeita a André Ventura, embora venha ocupar um nicho específico da direita lusa, não possui dinheiro nem capacidade política suficientes para o Chega obter dimensões assinaláveis. A memória do Estado Novo, a situação económica favorável, a rara homogeneidade do território e da população portuguesa, os números reduzidos da criminalidade e a integração eficaz da comunidade muçulmana são alguns dos elementos que dificultam uma progressão da extrema-direita em Portugal semelhante à de outros países.

 

Mas… O historiador Riccardo Marchi aponta como causas principais do fracasso da extrema-direita portuguesa no pós-25 de Abril a ausência de uma liderança capaz e a divisão desse sector político em grupúsculos sempre em guerra uns com os outros. A isto junta-se a falta de acesso aos media, onde o líder do PNR, José Pinto Coelho, raramente aparece e quando o faz passa sempre, sabe-se lá porquê, uma imagem de maluquinho. André Ventura e o Chega podem representar um esforço de unificação dos radicais, além de atraírem as franjas liberais seduzidas por uma fusão de desregulação da economia com o conservadorismo nos costumes. Dotado de amplo tempo de antena na CMTV, onde “defende” o Benfica e comenta notícias de crimes, Ventura goza já da simpatia dos jornais i (uma autêntica crónica das aventuras de Ventura), Sol e O Diabo. Quanto ao Observador, focado no objectivo de dominar o PSD, dificilmente se comprometerá com o Chega, mas pode ceder colunas aos seus membros e defendê-lo de ataques da esquerda. O populismo sempre esteve por cá, de forma espontânea e não organizada, e as opiniões inflamadas vão chegando ao mainstream mediático. Do futebol, onde André Ventura brotou, provêm os sinais mais inquietantes. O fenómeno Bruno de Carvalho e as teorias da conspiração surgidas a propósito das acusações judiciais ao Benfica avisam-nos de que mesmo pessoas inteligentes e habitualmente lúcidas são capazes de acreditar no absurdo. Se o Chega trouxer esta tendência para a política, o que poderá acontecer?