Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Desumidificador

Desumidificador

Miguel Carapau

Celebrizado como jornalista de imprensa e televisão, Miguel Sousa Tavares (n. Porto, 1950) é actualmente conhecido dos portugueses por várias facetas. Uma delas, a de portista ferrenho, está na origem de uma coluna semanal de Sousa Tavares no diário A Bola, onde tem feito prognósticos futebolísticos notavelmente falhados. Ao mesmo tempo, Miguel analisa a política nacional e internacional em espaços na SIC e no Expresso e assume-se como um dos poucos comentadores realmente independentes, capaz de dizer o que pensa sem se preocupar com quem vai ficar chateado (nesse sentido, é uma espécie de anti-Marques Mendes). Em 2003, depois de algumas tentativas, Tavares iniciou-se definitivamente como ficcionista ao lançar o romance Equador, um fenómeno de vendas hoje irrepetível que marcou um antes e um depois no mercado literário português. Nos últimos anos, sem ideias para novos romances, MST tem apostado na não-ficção, área na qual lança agora uma obra autobiográfica, Cebola Crua com Sal e Broa. O título refere-se ao prato que o jovem Miguel comia deliciado em “todas as merendas” durante o feliz ano e meio passado na Quinta do Carvalhal (Amarante), para onde os pais, Francisco de Sousa Tavares e Sophia de Mello Breyner Andresen, o enviaram em 1956.

 

A escrita de Cebola Crua… orienta-se pela preocupação do autor em registar episódios vividos num período entre a ditadura e os anos 90, quando Miguel Sousa Tavares trocou a RTP (onde aprendeu a detestar empresas públicas) pela recém-nascida SIC. No entanto, surgem também numerosos factos recentes, devido aos contínuos saltos no tempo e a uma estrutura mais temática que cronológica. Sem grande apuro estilístico, para lá do trabalho que escrever de maneira simples e directa exige, Tavares narra a sua história em tom de conversa, com frequentes interrupções e comentários, além de geralmente poupar nos detalhes. Num livro que se lê de um fôlego, a viagem chega a tornar-se demasiado rápida e acidentada, apesar do interesse documental de trechos como as descrições dos ambientes da infância e adolescência de Miguel ou o relato da experiência deste na Comissão de Extinção da PIDE/DGS. Abundam relatos de pequenas histórias, algumas delas bem divertidas, com as quais o escritor procura revelar a atmosfera de determinadas épocas ou apenas rir-se do passado.

 

 

No seu tom habitual onde a coragem por vezes se confunde com a arrogância, MST retrata sem filtros várias personagens, incluindo as da sua família, marcada pelo contraste entre os avós paternos, imersos na “paz salazarenta de uma vida em que nada acontecia e davam graças a Deus por isso” (p. 64) e a agitação permanente da casa dos pais de Miguel, opositores incansáveis do Estado Novo. Figuras nacionais são também descritas, entre elogios a Mário Soares e António Guterres, reparos ao misto de calculismo e espontaneidade das acções de Marcelo Rebelo de Sousa ou desprezo por figuras da extrema-esquerda do PREC, como a “majestade maoísta” de Arnaldo Matos (p. 92) ou os “Exibicionistas, demagogos e politicamente analfabetos” Mário Tomé e Dinis de Almeida (pp. 172-173). Guiado apenas pelas suas recordações, o portuense comete alguns lapsos factuais. Por exemplo, o Golpe da Sé, com a participação de Francisco de Sousa Tavares, ocorreu em 1959 e não em 1961 (p. 81), enquanto António Reis foi secretário de Estado e não ministro da Cultura (p. 93). Da mesma forma, o caso República teve origem na extrema-esquerda, sendo incorrecto considerá-lo “um dos maiores deslizes estratégicos do PCP” (p. 161), acusado por MST de ter tentado seguir em Portugal o guião da Revolução Russa.

 

A nível histórico, Cebola Crua… apresenta vários elementos valiosos, embora deva ser comparado com testemunhos provenientes de outras áreas políticas e profissionais. A nível literário, a obra expressa acima de tudo o olhar subjectivo de Miguel Sousa Tavares e traça um retrato do seu universo próprio, num estilo identificável em cada página. De acordo com o balanço feito pelo agora sexagenário, podemos concluir que, entre uma ou outra chatice, Miguel divertiu-se “como um doido” ao longo da vida. Como não o invejar?