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Desumidificador

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Nós e eles

Uma das “pequenas histórias da minha vida” contadas por Diogo Freitas do Amaral em Ao Correr da Memória (Bertrand, 2003) refere uma conversa entre o autor e Ramalho Eanes ocorrida em meados de 1977 e na qual o então Presidente da República, insatisfeito com o comportamento das forças partidárias, perguntou a Freitas se não conhecia “nenhuma forma de democracia sem partidos”. Irónico, o primeiro líder do CDS apontou dois exemplos, a “democracia popular” comunista e a “democracia orgânica” salazarista, levando um desiludido Eanes a lamentar: “Toda a gente me diz que não pode haver democracia sem partidos. É pena!” (p. 113)

 

Além de ser elucidativo da maneira como o agora reverenciado general exerceu a presidência, este diálogo traduz a visão de muitos portugueses acerca dos partidos políticos. O polémico processo de aprovação na Assembleia da República da nova lei relativa ao financiamento partidário e o esforço pós-natalício dos partidos para se demarcarem do diploma aprovado indicam a clara noção por parte das forças presentes em S. Bento de que medidas benéficas para estas são eleitoralmente suicidas, devido ao sentimento anti-partidário generalizado. Na verdade, trata-se de um fenómeno ligado a outras situações recentes, como a abundância de amigos e familiares dentro do Governo ou a indiferença total pela campanha interna do PSD, cujos candidatos à liderança têm falado apenas para o universo de 70 mil militantes (agora) com quotas em dia. Para o cidadão comum, os partidos portugueses são entidades perversas formadas por seres opressores vindos de outro planeta. Pequena e fechada, a elite política nacional parece estar separada por um fosso da população que nela vota (ou não). Esta situação não é exclusiva de Portugal, integrando-se num cenário global de crise das democracias, mas o caso luso possui algumas particularidades identificáveis.

 

 

O 25 de Abril levou à criação ou rápida expansão dos principais partidos, inserida num boom do associativismo através do qual se multiplicaram as instituições políticas, culturais, sindicais e desportivas, muitas delas baseadas em carências imediatas das populações, que se reuniam para solucionar problemas comuns. Nas décadas seguintes, para lá da crescente tendência individualista na forma de viver em sociedade, todos nos tornámos mais cínicos e desconfiados. A ideia de alguém decidir entrar para um partido por se identificar com uma ideologia política e pretender contribuir voluntariamente para o triunfo desses princípios motiva gargalhadas, num tempo em que as claques de futebol detêm maior prestígio que os partidos. Estes têm contribuído muito para o seu próprio declínio, não só devido aos casos de corrupção mas também ao optarem por fechar-se em si mesmos, sem interesse de maior pelos eleitores a não ser na hora da votação. No caso da juventude, o falhanço partidário na mobilização revelou-se clamoroso, à medida que as “jotas” se tornaram meras academias de formação de políticos profissionais, sem implantação real nas escolas ou nos locais de trabalho. Na prática, as forças partidárias já desistiram dos jovens, muitos deles abstencionistas, para concentrarem os esforços de atracção nos idosos, um mercado bem mais vasto e apetecível. De uma forma geral, os partidos não parecem interessados em atrair mais militantes ou simpatizantes e convertem-se em redutos de determinados grupos profissionais (gestores, advogados, funcionários públicos, etc.) ou círculos de pessoas influentes a nível local ou nacional.

 

No entanto, se os partidos se mostram pouco sedutores, a verdade é que podíamos estar bem mais disponíveis para a sedução. Não existe grande incentivo à participação política quando qualquer ocupante de um cargo público é visto como um parasita sustentado pelo povo e o acto de aderir a um partido se torna sinónimo de querer um tacho. As generalizações e o “são todos iguais” contribuem para que se tornem mesmo todos iguais, já que poucos cidadãos se manifestam disponíveis para ir além das bocas no café ou nas redes sociais e mudar realmente alguma coisa. A comunicação social ajuda, ao concentrar o noticiário naquilo que meia dúzia de pessoas diz ou faz, a solidificar a ideia da política como uma realidade distante e sem ligação ao quotidiano. Cada vez com maior frequência, a imprensa renuncia ao seu papel de fiscalizadora para se tornar mercadora da indignação e basear manchetes não em quaisquer factos concretos, mas na insinuação de que “eles” estão todos feitos uns com os outros. Se tanta gente o diz, como não acreditar?

 

Os partidos representam correntes de opinião organizadas essenciais numa democracia representativa. São imperfeitos, como lamentava Ramalho Eanes? Claro, são formados por pessoas, não por anjos nem por demónios. Atitudes como uma maior transparência nas decisões governativas, eleições primárias abertas à participação de simpatizantes, referendos internos nos partidos ou um esforço real de mobilização política em toda a sociedade poderão contribuir para tapar o fosso entre “eles” e “nós”, até que ambos os grupos sejam um só. Não existem soluções mágicas, mas, caso este ambiente de desconfiança geral prossiga e continue a agravar-se, tornar-se-á inevitável que alguém venha resolver de vez a questão do financiamento dos partidos, através da extinção destes.

 

P.S. Quanto à origem dos rendimentos das forças partidárias, deve manter-se a actual combinação de financiamento público e privado. Um apoio exclusivamente público aos partidos seria demasiado oneroso para o Estado, do qual aqueles ficariam dependentes, mas um sistema do tipo americano, baseado nos contributos dos particulares, sobretudo os de maiores recursos, produz efeitos nocivos. Basta lembrar que Donald Trump usou como argumento o facto de (supostamente) ser ele próprio a financiar a sua campanha presidencial e evitar assim a promiscuidade com os lobbies em que os democratas tinham caído.