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Notas sobre a Aliança

1. Na nomenclatura partidária, o termo “Aliança” implica, tal como “Bloco” ou “Frente”, a união de facções distintas numa só organização. Deste modo, o partido de Santana Lopes parece nascer já dividido.

 

2. Sempre que Santana Lopes usou uma aliança no dedo, a coisa não durou muito. Por outro lado, será que a Aliança vai estar na mão de um partido maior com o qual se coligará?

 

3. O uso por partidos de nomes com apenas uma palavra, dispensando assim qualquer sigla, tornou-se comum noutros países europeus (Syriza, Podemos, Ciudadanos). Em Portugal, o exemplo anterior foi o do Livre, o que constitui um mau prenúncio para a Aliança. Se o partido de Rui Tavares ainda não encontrou o seu espaço político dentro da esquerda, a Aliança corre o risco de não saber onde se encaixar no campo da direita.

 

4. A expressão “Aliança” faz lembrar imediatamente a Aliança Democrática formada em 1979, reforçando o estatuto de Pedro Santana Lopes como autoproclamado filho político de Francisco Sá Carneiro. Além da AD, é possível recordar a Aliança Rebelde, inimiga do Império nos filmes de Star Wars, ou os próprios Aliados, a coligação militar internacional vitoriosa nas duas guerras mundiais. Pode vir daí a intenção santanista de contestar a ortodoxia europeia imposta pela Alemanha.

 

5. Pelo que a imprensa publicou, os princípios enunciados pela Aliança são ambíguos, como se o partido quisesse uma coisa e o seu contrário. Relativamente à ideia de criar um Senado, só seria viável se Santana Lopes pagasse as togas dos senadores, já que a maioria do eleitorado gostaria de reduzir o número de cargos políticos, não de aumentá-lo.

 

 

6. Durante os anos da troika, as movimentações partidárias ocorreram na esquerda, onde apareceram o Livre, o MAS, os dissidentes do BE como Ana Drago e Daniel Oliveira que depois se aliaram ao Livre na plataforma Tempo de Avançar, Joana Amaral Dias (rosto da coligação Agir, antes de se tornar uma freelancer da política) ou ainda Raquel Varela e outros trotskistas ligados à revista Rubra. No entanto, as legislativas de 2015 trouxeram o reforço dos partidos tradicionais, PS, PCP e BE, juntos pela primeira vez numa maioria governamental, e revelaram a insignificância numérica das novas forças e tendências. Agora que a agitação se verifica na direita, o destino eleitoral será o mesmo?

 

7. O PSD dividido em dois, já com três pré-candidatos (Pedro Duarte, Luís Montenegro e Miguel Pinto Luz) à sucessão do ainda líder Rui Rio. O CDS de Assunção Cristas a querer reforçar a sua identidade própria e distanciar-se o mais possível dos “laranjas”. Pedro Santana Lopes a formar uma Aliança comandada por si. A Iniciativa Liberal a surgir para romper com os “Donos Disto Tudo” e o movimento Democracia 21 a preparar a sua legalização como partido. A tendência para a fragmentação é cada vez maior na direita portuguesa, mas, no passado, foi quando esta se uniu, em projectos como a AD, o PSD hegemónico do cavaquismo ou a PAF, que alcançou a vitória nas urnas. O cenário de divisão em múltiplos partidos entre os quais não se encontram diferenças de maior, cada um deles a considerar-se a “verdadeira” direita e a acusar os líderes dos outros partidos de se terem rendido ao adversário esquerdista, assemelha-se ao panorama da extrema-esquerda durante a década de 70. Aliás, o paralelo é tão óbvio que surpreende que os liberais não se apercebam dele.

 

8. Algumas sondagens vindas a público atribuíram ao partido de Santana Lopes, então ainda sem nome, intenções de voto na ordem dos 4-5%. Mesmo no pior dos cenários, Santana conseguiria ser eleito deputado. Todavia, como Rui Tavares e Marinho e Pinto podem explicar, as sondagens são uma coisa e a realidade é outra. Entretanto, Miguel Sousa Tavares comparou a Aliança à candidatura de Mário Soares às presidenciais de 2006, no sentido de constituir um desastre anunciado que só o protagonista não consegue prever. Veremos o que acontecerá daqui a um ano. Certo é que Santana Lopes dispõe pelo menos do nome, dos contactos e da experiência, enquanto a IL e a D21 partem do zero.

 

9. As novidades à direita levantam a hipótese do mapa partidário português não ser tão imutável como parecia, além de contrariarem o descrédito sofrido actualmente pelo próprio conceito de partido político. Tanta movimentação não seria, no entanto, possível sem a Internet e a utilização das redes sociais como veículo de propaganda e instrumento de mobilização de apoiantes. Santana Lopes já admitiu, de resto, que a Aliança servir-se-á das plataformas digitais para ultrapassar a ausência de militantes em número suficiente para preencher uma estrutura partidária clássica de concelhias e distritais. Resta saber se a presença no ciberespaço será suficiente para atrair o eleitorado sem recorrer a outros meios de campanha, nomeadamente a televisão.

 

10. Há duas semanas, escrevi que o problema de Pedro Santana Lopes era a sua forma egocêntrica e personalizada de fazer política. Em declarações ao Expresso, Santana afirmou que podem acusá-lo de tudo, menos de não saber como se faz política. Será que Lopes encontrou o meu post no Google? Impossível confirmá-lo, mas, pelo sim pelo não, fica aqui uma mensagem: boa sorte, Pedro!