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Desumidificador

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Num filme sempre igual

O economista e professor universitário Nuno Garoupa, ex-presidente da Fundação Francisco Manuel dos Santos, constitui uma figura singular no conjunto da direita portuguesa. De acordo com a introdução do seu novo livro, A Direita Portuguesa: Da Frustração à Decomposição (Ego, 2018), Garoupa, membro da geração das personagens da série televisiva 1986, foi atraído para a política pela campanha de Freitas do Amaral, vindo a tornar-se militante do CDS. No entanto, sairia do partido em 2004, desiludido com a liderança de Paulo Portas e a incapacidade reformista dos governos PSD/CDS presididos por Durão Barroso e Santana Lopes. A partir daí, observou de forma independente, mas não imparcial, a evolução da política portuguesa, numa perspectiva transposta para artigos de opinião publicados na imprensa e na blogosfera e agora reunidos em dois livros de crónicas. O primeiro destes a vir a público centra-se na actividade de PSD e CDS no Governo e na oposição entre 2004 e 2018, embora os textos compilados incluam referências a outros temas, a que se somam por vezes comentários actuais de Garoupa sobre o sucesso ou falhanço das previsões feitas no passado pelo académico.

 

O primeiro capítulo da obra, designado por Nuno Garoupa como “A Frustração”, recupera dois ensaios antigos do autor sobre as “reformas estruturais” e a Constituição de 1976, mas centra-se sobretudo na colaboração regular de Garoupa com o Jornal de Negócios, iniciada em 2008 e durante a qual o economista abordou o descrédito dos governos de José Sócrates, acompanhado pela dificuldade da direita em construir um programa alternativo. A vinda da troika e a queda de Sócrates deram início à fase da “Desilusão” em 2011, quando Garoupa viu na crise económica a legitimação necessária às profundas mudanças de que Portugal carecia e considerou haver em Pedro Passos Coelho a vontade de as concretizar. No entanto, o executivo de Passos e Portas revelar-se-ia uma oportunidade perdida, devido à “completa ausência de um programa reformista, sério, consistente e coerente” (p. 12). Após uma pausa em 2013, Nuno voltou a escrever na imprensa sobre política nacional em vésperas das eleições legislativas de 2015, ponto de partida da “Decomposição” ainda em curso. Garoupa denunciou a negação do verdadeiro significado do resultado da PAF, marcado por uma forte perda de eleitorado, e os clamorosos erros estratégicos do PSD passista, sempre em crescendo até à derrota das autárquicas de 2017, a que se seguiram Rui Rio e a fragmentação da direita.

 

 

Um traço comum a toda a cronística de Nuno Garoupa é o profundo cansaço do autor com as rotinas da política portuguesa, um filme sempre com os mesmos actores, os mesmos diálogos e os mesmos efeitos nada especiais. Nuno gostaria de assistir a uma renovação partidária semelhante aos fenómenos ocorridos noutros países europeus, mas por cá mantém-se “tudo na mesma”, sem ameaças aos interesses da “elite dominante” dos principais partidos (p. 140), num país com uma sociedade civil débil e preso ao “Estado-paternalista” (p. 24). A ideia de uma “crise da direita” é também mencionada há vários anos por Garoupa, segundo o qual as culpas devem ser atribuídas em primeiro lugar à própria direita, desprovida de um programa e uma liderança credíveis. O actual prognóstico do comentador sobre a sua área política é francamente pessimista, destacando o risco de “spdização” do PSD (ou seja, a incapacidade dos “laranjas” de ultrapassarem uma faixa entre 20% e 30% do eleitorado) e a improbabilidade do CDS de Cristas alcançar grandes voos. Os novos partidos em formação poderiam ir de encontro às preocupações de Garoupa, mas, embora o artigo mais recente incluído em A Direita Portuguesa date de Abril de 2018, o autor manifesta descrença nas hipóteses de sucesso de um “partido personalista”, centrado na figura do seu líder, como a Aliança viria a ser. A Iniciativa Liberal e a “nova direita” (?) personificada por André Ventura também não parecem a Garoupa projectos capazes de atrair eleitores e contrariar o crescimento da abstenção.

 

Numa prosa bastante clara e escorreita, Nuno Garoupa traça um diagnóstico preciso da situação da direita e dos problemas actuais da democracia lusa, onde muitos cidadãos não se sentem representados pelos partidos do sistema. As críticas do economista contribuem para desfazer várias ilusões dos opositores da Geringonça, que ganhariam se ouvissem os alertas de Garoupa. Mas… o que estou eu a dizer? Nada disso! Rui Rio, claro que o seu estilo de fazer política vai trazer imensos votos. Pedro Santana Lopes, o senhor não só voltará ao Governo como pode pensar em mudar-se outra vez para S. Bento. Assunção Cristas, continue a fazer estrilho no Parlamento e verá o CDS subir cada vez mais nas sondagens. Sofia Afonso Ferreira, força aí na pá. A direita terá um futuro radioso e António Costa não sabe com quem se meteu.