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Desumidificador

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O charme de Ivanka

Na mesma altura em que Fogo e Fúria, de Michael Wolff, chega para conquistar as livrarias portuguesas, outra obra sobre Donald Trump está a ser lançada pela Ideia-Fixa, uma chancela da Alêtheia, a editora politicamente empenhada sob a direcção de Zita Seabra. Contrariamente ao que a capa de Dia D: O Dia de “The Donald”, de João Lemos Esteves (JLE), dá a entender, ao mostrar a cabeça de Donald Trump enxertada na estátua de Abraham Lincoln e uma Estátua da Liberdade com o rosto de Ivanka Trump, não se trata de um romance de ficção científica inspirado por Planeta dos Macacos, mas sim de um ensaio no qual o colunista do i analisa as razões do sucesso eleitoral obtido em 2016 por “The Donald” e o primeiro ano do nova-iorquino no cargo de presidente dos Estados Unidos da América.

 

 

Os prefácios são importantes nas obras de João Lemos Esteves, como é visível no seu livro de crónicas políticas, Margem Direita (Chiado, 2015), cujo texto introdutório foi assinado por Marcelo Rebelo de Sousa (então professor da Faculdade de Direito de Lisboa, onde Lemos Esteves é assistente e doutorando). No seu estilo particular, Rebelo de Sousa deu um conselho a JLE, escrevendo, por outras palavras: “João, concentra-te na carreira académica, porque na política não és lá grande espingarda”. Talvez por causa disso, Esteves deixou de gostar de Marcelo, político que antes referira como a sua principal referência desde a infância, e aproveita em Dia D para acusar o Presidente da República de incoerência, a propósito de declarações de Marcelo sobre o populismo (pp. 100-101). Desta vez, o volume de JLE é prefaciado por André Ventura e posfaciado pelo advogado João Caiado Guerreiro. Ventura elogia Esteves por um “exaustivo e desapaixonado trabalho” sobre questões como “a relação do Presidente norte-americano com a comunicação social”, o eventual “auxílio russo na vitória” ou os efeitos da crise económica de 2008 no aumento da votação nos republicanos, além de prever que “Portugal rapidamente reconhecerá” o serviço público prestado por JLE ao escrever o livro (pp. 4-5). Curiosamente, nas menos de 200 páginas seguintes, Esteves não responde, a não ser de forma passageira, a nenhuma das questões referidas por Ventura e ignora por completo a acusação de conluio da campanha de Trump com a Rússia. No posfácio, João Caiado Guerreiro compara Trump a Cavaco Silva, devido à estratégia comum aos dois presidentes de apelar directamente ao eleitorado, contornando os media hostis e a “ditadura do politicamente correto” (pp. 189-190)”.

 

A ficha técnica de Dia D menciona João Miguel Alves como responsável pela revisão do texto da obra. O leitor depressa compreende que Alves falhou no seu trabalho, uma vez que o livro de JLE inclui literalmente dezenas e dezenas de erros de português. Abundam palavras mal escritas (“declação”, “conveniêcia”, “pululuram”, “televiso”, “esá”, “estratégios”, “celebreu”, “intercaalres”, “pressupsotos”, “terriório”, “tradiconal”, “eleites”, “probelmas”, “demcoracias”, “convicente”, “crescemente”, “inentivos fiscias”, “decorência”, “progressita”, “Hilalry”, “apoaintes”, “europa”, “jutiça”, “ganahr”, “Televive”, etc.), erros de concordância de género ou entre o sujeito e o predicado e frases que não fazem sentido devido à falta ou excesso de palavras (“que não têm de científico”, “qual o critério que permite apartar a e, dos elite do povo?”), além de péssimas traduções de textos do inglês para o português. Será que Zita Seabra não compreende que publicar livros cheios de gralhas destrói a credibilidade dos seus projectos editoriais? Quanto à estrutura de Dia D, assenta sobretudo na colagem e reformulação de crónicas anteriormente escritas por JLE, o que confere à obra um carácter desconexo e fragmentário.

 

No mais extenso dos 16 capítulos, João Lemos Esteves analisa o conceito de populismo, por si considerado vago e sem grande significado prático, pois “O populismo é discurso – e não acção política” (p. 120) e não passa, afinal, de uma expressão do conflito permanente típico dos regimes democráticos adaptada aos tempos de crise, quando a maioria da população se sente excluída do poder político pela elite. Nesse sentido, “o (dito) populismo pode reforçar o sentimento democrático” (p. 118), ao transmitir ao Estado as preocupações de todos os cidadãos. De qualquer maneira, segundo JLE, Trump não é um populista, mas antes um “popularista”, dado que “entende que o poder reside no povo” e “todos os membros da comunidade têm o direito, o poder de intervir activamente no Governo da Nação, sem exclusões, sem censuras” (p. 136). A candidatura trumpista constituiu, assim, uma revolta contra as elites, os media e o politicamente correcto (simbolizados por Hillary Clinton) apoiada pelo povo dos EUA, que viu no filho de Fred Trump uma “prova viva da ascensão social” e o símbolo do espírito americano, traduzido em “Fama, dinheiro, sucesso e independência” (pp. 125-126). Outro elemento relevante para a vitória de Trump foi a intervenção na campanha da sua filha Ivanka, “jovem, mulher, bem sucedida, milionária, liberal nos costumes, cosmopolita, graciosa, tolerante” (p. 157) e dotada de capacidades políticas que, como terá sido dito por “um alemão da CDU” a Lemos Esteves, impressionaram a própria Angela Merkel (p. 158).

 

 

O problema é que os argumentos de JLE, dominados por um misto de ingenuidade e falta de perspicácia política, não são minimamente convincentes. O autor passa sempre ao lado do essencial e não explica, por exemplo, em que consiste a mensagem supostamente opressora do “pensamento único” imposto pela esquerda através do “politicamente correcto” e como ela despertou a fúria dos americanos. Ao limitar-se a apresentar a perspectiva dos apoiantes de Donald Trump e a diabolizar os críticos do líder americano, Esteves perde qualquer aparência de imparcialidade e cai num registo superficial, sem nenhuma análise livre de clichés da realidade americana. Num capítulo sobre a “pós-verdade”, JLE revela-se incapaz de distinguir entre diferentes interpretações políticas da realidade e mentiras descaradas, para lá de referir Jason Brennan como “referência intelectual da esquerda caviar” (p. 149), uma incorrecção (além de Contra a Democracia, Esteves deveria ter lido Capitalismo. Porque Não?) que faz cair pela base as conclusões das páginas seguintes. Considerando irrelevantes as propostas e afirmações mais bombásticas do presidente americano, o académico da FDUL nunca ajuda o leitor a ver em Trump as qualidades que JLE nele encontra.

 

O que leva um militante do PSD (partido ao qual também pertencem Zita Seabra e André Ventura) a classificar Donald Trump, ao fim de um ano, como “o Presidente mais consequente, mais efectivo e mais dinâmico desde há muitas décadas” (p. 171) nas democracias ocidentais? João Lemos Esteves sente uma admiração acrítica pelos EUA, tal como um evidente fascínio por empresários de sucesso, e logicamente pelo “Presidente-empresário” (p. 169), mas o factor mais importante para a adesão de JLE ao trumpismo parece ser a “confiança na iniciativa privada, no investimento privado” da actual Administração (p. 185), ou seja, a redução de impostos e a desregulação da economia. O livro de Esteves reforça, involuntariamente, a posição de quem nunca considerou Trump um político anti-sistema. Pelo contrário, Donald J. Trump não passa de uma versão mais musculada desse sistema e do domínio das elites contra as quais tanto discursa. No que respeita ao politicamente correcto, gostaria de deixar aqui uma mensagem para Lemos Esteves: João, se tu dizes coisas diferentes daquilo que toda a gente diz, nem sempre isso significa que tu és um génio ou que a comunicação social é tendenciosa. Às vezes, quer simplesmente dizer que tu estás errado.

 

P.S. Em que periódicos terá João Lemos Esteves colaborado entre os 14 anos (idade com a qual, segundo a nota biográfica incluída no livro, se estreou como comentador político) e os 21 ou 22 anos, quando chegou ao Expresso?