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Desumidificador

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O desperdício

Fiz uma das assinaturas que permitiram a legalização da fundação do Livre, mas nunca cheguei a votar no partido. Mesmo assim, soltei convictamente um “Boa sorte, Rui” quando me cruzei com Rui Tavares durante a campanha para as eleições europeias do ano passado e até distribuí no meu prédio alguns folhetos deixados ao abandono aquando da passagem da caravana de Joacine Katar Moreira por Odivelas. De facto, o Livre foi até há três meses uma espécie de Belenenses ou Académica da política, por quem quase todos mostravam alguma simpatia, até por saberem que o emblema fofinho nunca disputaria a vitória no campeonato com os “grandes”. Com uma mensagem ecologista e europeísta, o partido da papoila dirige-se especialmente a independentes de esquerda, desiludidos com o PS mas que não se revêem no conservadorismo do PCP e consideram demasiado radicais algumas posições do Bloco. Apesar de constituir uma faixa estreita do eleitorado, este público-alvo inclui alguns sectores urbanos, localizados sobretudo na cidade de Lisboa e em particular na multicultural freguesia de Arroios, onde o Livre tem a sua sede. Investigadores e outras pessoas ligadas ao meio académico são um grupo profissional no qual o partido tem recrutado vários dos seus militantes e dirigentes.

Criado com a bandeira da promoção de um entendimento entre as esquerdas com vista a uma governação inovadora, o Livre sofreu a dolorosa ironia de ver o seu sonho concretizado após as legislativas de 2015, mas não poder participar na Geringonça por ter falhado, contra as previsões surgidas na própria noite eleitoral, o objectivo de entrar em S. Bento. Neste cenário, a agremiação de Rui Tavares (excelente colunista, mas menos eficaz na oratória) pareceu perder a sua razão de ser e atravessou três anos de silêncio mediático e dificuldades financeiras. O primeiro acto eleitoral de 2019 permitiu a Tavares candidatar-se novamente a membro do Parlamento Europeu e obter, graças à iniciativa e preparação reveladas ao longo da campanha, um prestígio assinalável, mas insuficientemente traduzido em votos. Como o próprio Rui admitiu, o Livre veria o seu futuro em risco se não alcançasse nas legislativas de Outubro um resultado que lhe permitisse receber a subvenção estatal. Os dois primeiros nomes das listas por Lisboa e Porto, potencialmente elegíveis, foram seleccionados pela direcção, deixando os restantes candidatos à escolha dos participantes nas primárias. Durante o Verão, a até aí desconhecida historiadora Joacine Katar Moreira, surgida em segundo lugar na lista para as europeias e designada logo a seguir como cabeça de lista pela capital, ganhou um crescente protagonismo. Terá sido a candidata a defender uma campanha centrada na sua figura, através de meios como o único outdoor do Livre ou a canção “O Sem-Precedente”, e o facto é que Moreira tinha razão. Numa época em que os cidadãos votam cada vez menos em ideologias e mais em personagens, Joacine revelou aquilo a que os franceses chamam star quality, chamando a atenção da comunicação social para a sua história de vida e o seu discurso contundente. Até mesmo a gaguez de Moreira, apontada desde logo como uma limitação, reforçou a notoriedade da candidata e suscitou a admiração de alguns eleitores pela coragem de uma mulher habituada a fazer o contrário daquilo que as pessoas esperam dela.

Logo após a festa do Livre na noite de 6 de Outubro, os cheguistas lançaram na Internet uma extensa campanha de ódio contra a nova deputada que inclui fake news e acusações de falta de portuguesismo. Tratou-se, claro, de uma consequência natural da atitude ofensiva e provocatória tomada por Joacine Katar Moreira ao não fazer imediatamente operações para deixar de ser mulher e negra. No entanto, a própria Joacine pareceu ter achado que essas características bastavam para defini-la enquanto política e caiu numa espécie de deslumbramento. A partir do momento no qual Moreira e o seu assessor entraram pela primeira vez na Assembleia da República, a deputada envolveu-se numa sucessão de episódios caricatos que garantiram ao Livre a presença diária nas notícias pelas razões erradas. Entretanto, tornaram-se audíveis nas hostes da papoila queixas relativas à excessiva personalização da actividade partidária numa parlamentar descoordenada com as instruções do Grupo de Contacto. Por fim, quando Moreira contrariou a orientação do partido ao pronunciar-se sobre um dos muitos votos apresentados no Parlamento, desencadeou-se uma série de momentos pouco edificantes que é desnecessário recordar aqui. Vieram o Natal, o Ano Novo e algumas semanas durante as quais Joacine se tornou mais discreta na arena mediática, antes da votação na generalidade do Orçamento de Estado reacender o conflito interno no Livre e elevá-lo ao ponto da ruptura. O congresso do partido adiou a decisão sobre a retirada da confiança política em Moreira, indicando essa opção como inevitável ao mesmo tempo que deixou entreaberta a porta para um “milagre” dificultado pela radicalização das partes em confronto.

 

 

A origem da turbulência no Livre tem sido atribuída a uma suposta deriva empreendida por Joacine no sentido de um discurso identitário radical oposto à moderação da linha tavarista. Não parece, contudo, estar aí o essencial do problema, até porque o programa eleitoral do partido já acolhia propostas como alterar os programas escolares de modo a realçar a violência do colonialismo português. Ainda antes da crise, um antigo apoiante do Livre, Ricardo Araújo Pereira, afirmou que os membros da instituição faziam política com o amadorismo e a ingenuidade de uma lista candidata a uma associação de estudantes. Trata-se da descrição perfeita de um conjunto de pessoas cuja inexperiência e espontaneidade conseguem tornar o que está mal hoje ainda pior amanhã. Os militantes do Livre têm que aprender a arte da hipocrisia que levou o PS e o PSD à glória e deixar de dizer em público tudo aquilo que sentem. Da mesma forma, o modelo de organização interna que Rui Tavares e os outros fundadores escolheram com o objectivo de evitar os problemas dos outros partidos revela-se frágil. Se o Livre tivesse um líder (fosse ele Tavares, Moreira ou outra pessoa) que assegurasse sozinho a coordenação política do partido e definisse em pouco tempo o rumo a seguir, conheceria uma eficácia superior à fornecida pela discussão e votação de todos os assuntos em reuniões da direcção, grupos de trabalho, assembleias infindáveis e congressos anuais. Ao procurar romper com o sistema de centralização do poder numa única pessoa, o partido do “centro da esquerda” acabou por mostrar que democracia a mais também não funciona.

No momento actual, o eleitorado observa a agitação no Livre como quem ouve a discussão de um casal à beira do divórcio que troca acusações sobre a responsabilidade da situação. A princípio até pode ser divertido para os bisbilhoteiros (por algum motivo os media têm seguido a celeuma com tanto interesse), mas ao fim de pouco tempo só apetece dizer “Eh pá, calem-se”. Os danos causados na credibilidade do Livre por todo este ruído são profundos e talvez irreparáveis. A ténue hipótese de recuperação não está, certamente, na retirada da confiança a Joacine Katar Moreira, uma vez que nem o Livre terá sucesso sem Joacine, nem esta irá longe sem o apoio do partido. O aspecto mais decepcionante está no facto das papoilas discordantes estarem a desbaratar um vasto potencial. Se o Livre falasse a uma só voz e centrasse a atenção nos temas do seu programa, tal como se Moreira usasse a capacidade oratória mostrada no congresso de Alvalade para algo útil no Parlamento, o partido poderia ser uma força relevante dentro da esquerda portuguesa e aproveitar a presente legislatura para influenciar o debate político. Assim, limita-se a ser uma oportunidade desperdiçada.

 

P.S. O nono congresso do Livre teve um momento Lost in Translation quando os jornalistas tentaram adivinhar o conteúdo do breve diálogo em voz baixa entre Rui Tavares e Joacine Katar Moreira. Assumindo a pele de um verdadeiro dirigente partidário, Tavares comentou esse episódio na mesma frase em que recusou comentá-lo.