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O dilema dos antifascistas

Depois da festa no Panteão Nacional, verificou-se mais uma manifestação da dificuldade da cultura irlandesa em compreender os costumes portugueses quando Paddy Cosgrave convidou Marine Le Pen para discursar na próxima Web Summit e, depois de uma vaga de críticas nas redes sociais, acabou por desconvidá-la. Além da rejeição pela esquerda da presença da política de extrema-direita francesa no evento, ouviu-se, previsivelmente, um coro de vozes rejeitando a rejeição, apontada como um sinal de intolerância. Tratar-se-ia também de uma atitude hipócrita, já que a extrema-esquerda possui plena liberdade de expressão, apesar do seu discurso semelhante ao dos fascistas. De facto, como ignorar os apelos ao ódio, ao racismo, à violência e ao autoritarismo feitos todas as semanas na comunicação social pelo conselheiro de Estado Francisco Louçã? Argumentos mais sérios podem, no entanto, ser mencionados a propósito da questão de permitir ou não o acesso da extrema-direita ao espaço público.

 

A superioridade moral da democracia passa pela liberdade que concede a todos os cidadãos, mesmo aos seus adversários, de gozar dos direitos garantidos pela lei. Este princípio terá estado na origem da benevolência da democracia portuguesa para com os antigos apoiantes da ditadura derrubada em 25 de Abril de 1974. Depois do PREC, aspectos do sistema de justiça política como os saneamentos, a prisão dos “pides” ou o exílio de políticos e empresários ligados ao Estado Novo foram sendo esvaziados, à medida que os “excessos” revolucionários eram corrigidos pelos militares vencedores do 25 de Novembro. Fascistas e antifascistas podiam cruzar-se na rua sem incidentes, enquanto surgiam nas bancas jornais descontentes com o novo regime (A Rua, O Diabo, etc.), aberto à participação política de ex-ministros do anterior sistema. Embora haja quem chame impunidade a tanta brandura, o certo é que terminaram as perseguições por motivos políticos em Portugal. Na actualidade, a extrema-direita lusa manifesta-se contra qualquer tentativa de boicote e ataca o “politicamente correcto”, justificando-se precisamente com os princípios democráticos. Deste modo, impor o silêncio aos fascistas dá-lhes a oportunidade de assumirem o papel de vítimas e chamarem intolerantes aos democratas, através de um ruído que lhes concede a publicidade desejada acima de tudo.

 

 

Por outro lado, as palavras têm consequências. Alguns defensores da liberdade irrestrita de expressão acreditam que, se as pessoas com ideias extremistas puderem divulgá-las, geram repulsa, caem no ridículo e acabam por descredibilizar-se a si próprias. Trata-se de um exercício arriscado. Durante a campanha para as presidenciais americanas de 2016, os canais televisivos dos EUA deixaram Donald Trump gozar de um vasto tempo de antena, quer devido ao potencial humorístico das gaffes de Trump quer por acreditarem que ninguém no seu perfeito juízo votaria num homem que afirmava aquelas coisas. Já em Portugal, muitos elogiaram a “frontalidade” de Bruno de Carvalho e desvalorizaram o seu estilo agressivo, (supostamente) natural no futebol português, até que um dia a violência passou de verbal a física. À medida que se alarga o âmbito daquilo que é aceitável dizer em público, cresce também, a pouco e pouco, o alcance daquilo que se torna aceitável fazer. Um ambiente político e mediático onde podemos dizer tudo o que nos apetece coloca a democracia, paradoxalmente, em perigo.

 

Depois da polémica criada em 2017 pela não realização da conferência de Jaime Nogueira Pinto na FCSH-UNL e tendo em conta tudo o que Nogueira Pinto e a Nova Portugalidade lucraram com o banzé, acho que a abordagem de situações semelhantes deve ser algo cínica. A melhor pergunta a fazer perante uma eventual proibição será: “quem ganha com isto?” No caso do desconvite a Marine Le Pen, não se verificarão consequências de maior, pelo menos enquanto Le Pen se mantiver fora do Eliseu. Outras acções de boicote podem, contudo, tornar-se uma faca de dois gumes. Dar espaço público aos fascistas? Sim, mas com muitos limites.