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Desumidificador

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O discurso

 

1. “Quando eu digo à Carolina, ao Tomás, ao Gui ou à Rita – os meus quatro filhos (…)”

 

Nas crónicas, no Governo Sombra ou nos livros infantis de que é co-autor, João Miguel Tavares (JMT) expõe muitas vezes a sua vida pessoal, recorrendo a episódios da história da família Tavares, e o discurso do 10 de Junho em Portalegre não poderia ser excepção. A revelação do quotidiano doméstico do analista contribui para aproximá-lo do leitor, disposto a rever-se em pequenas peripécias semelhantes às suas. Neste caso, a trajectória pessoal de JMT permite-lhe afirmar-se como um rapaz do Interior “sem qualquer ligação à capital e às suas elites”, mas que não deixou esse facto impedi-lo de chegar “até aqui”. As repetidas alusões a percursos individuais acabam, contudo, por deixar sérias dúvidas quanto à relevância deles para o tema tratado e à possibilidade de generalizar a partir de casos específicos. Tavares refere “histórias de vida impressionantes” de “gente banal envolvida em feitos extraordinários” para mostrar como todos os portugueses constroem um país melhor. No entanto, se formos por aí, as personagens do livro Os Cinco Pilares da PIDE (aquele cuja introdução João Miguel resumiu na expressão “patati patatá”), de Irene Flunser Pimentel, foram tão comuns e tipicamente portuguesas como os ascendentes do casal Tavares, sem que isso as impedisse de matar e torturar concidadãos. Para cada bom exemplo, há um mau exemplo que relativiza qualquer caso particular.

 

 

2. “Os portugueses lutaram pela liberdade em 1974. Lutaram pela democracia em 1975. Lutaram pela integração na Comunidade Europeia nos anos 80. Lutaram pela entrada na moeda única durante a década de 90. Não é fácil saber por que é que estamos a lutar hoje em dia.”

 

Na verdade, falar em “portugueses” unidos pelo mesmo objectivo em 1974, 1975 e 1985 revela-se abusivo, na medida em que os desenlaces desses momentos históricos implicaram sempre a existência de derrotados, fossem eles os indivíduos com posições de poder no Estado Novo, os defensores da “democracia popular” ou os eurocépticos de esquerda e direita. Quanto aos anos 90, eu ainda me lembro deles e não me recordo de uma mobilização colectiva da população para o desígnio de entrar no euro, até porque ninguém consultou os portugueses a esse respeito. Para lá da causa de Timor, essa sim com grande impacto na opinião pública, a última década do século passado ficou marcada pela tendência crescente de despolitização dos eleitores. Os lamentos pela elevada abstenção ouvidos após as europeias de 2019 foram idênticos aos de 1999. Neste último ano, a falta de interesse dos cidadãos pelos partidos era parcialmente influenciada pela atitude dos média, que então apresentavam a política ou como algo demasiado complexo e entediante para os jovens perceberem ou como uma sucessão de jogos palacianos urdidos e depois comentados pelo professor Marcelo, mas havia um lado bom na acalmia do entusiasmo pós-revolucionário pela política. O crescimento económico, o balanço positivo do primeiro quarto de século de democracia e a impressão de ascensão social obtida por famílias da classe média como os Tavares esvaziaram as tensões sociais e banalizaram o quotidiano partidário. O século XXI e, em particular, a crise económica iniciada em 2008 revelaram a fragilidade de tudo e repolitizaram a sociedade. O discurso de JMT levanta também dúvidas quanto à natureza dos temas mobilizadores e do “alguma coisa em que acreditar” pedidos pelo alentejano aos políticos. Apesar de João Miguel enunciar objectivos como a promoção da mobilidade social e o combate à corrupção, não existe uma solução única para cada um desses temas, geralmente analisados de forma oposta pela direita e pela esquerda, com terapias diferentes conforme os diagnósticos de cada uma. E isso é bom e salutar numa democracia.

 

 

 

3. “No século XVI, Luís de Camões já cantava os seus amores por uma escrava de pele negra (…). Para desarrumar os estereótipos, talvez precisemos de um pouco menos de Lusíadas e de um pouco mais de lírica camoniana.”

 

Ao contrário do que por vezes se diz, Os Lusíadas é um poema recheado de crítica social, onde Camões glorifica o passado lusitano, mas também deixa claro que o apogeu de Portugal já foi substituído por uma “austera, apagada e vil tristeza”. No livro publicado em 1572, o poeta faz duras acusações aos grupos sociais que hoje designaríamos por “elites” e denuncia os servidores da Coroa apenas desejosos de “poder com torpes exercícios/Usar mais largamente de seus vícios”. JMT poderia ter utilizado citações camonianas deste teor para mostrar que algumas coisas nunca mudam. Por outro lado, a referência às “Endechas a Bárbara escrava” enquadra-se na crítica de Tavares à suposta auto-flagelação ocorrida no âmbito do debate acerca dos Descobrimentos e do passado colonial. Mais uma vez, o caso particular de um poeta apaixonado por uma escrava não diz muito sobre o carácter mais ou menos pacífico das relações entre os portugueses e as populações extra-europeias.

 

 

4. “Achamos que temos de ser pessimistas para sermos lúcidos. Que temos de ser desesperançados para sermos realistas. Que temos de ser eternamente desconfiados para não sermos comidos por parvos.”

 

Com um optimismo antropológico raro na direita, João Miguel Tavares acredita na evolução favorável das mentalidades e na capacidade de mudar o país, rompendo com o “discurso fatalista de um Portugal que é assim, porque nunca foi de outra maneira”. Incluída num discurso que concentra muito do universo pessoal de JMT, esta atitude positiva seria teoricamente louvável. No entanto, a produção intelectual de Tavares na rádio, imprensa e televisão tem deixado uma sensação inquietante, provocada pela notória ingenuidade do portalegrense. Por exemplo, aquando do anúncio da resolução do BES em 2014, João Miguel louvou um modelo em que “o zé-povinho fica de fora”, sem necessidade de injecções de capital público no Novo Banco. Aos colunistas que então duvidaram desse cenário, JMT respondeu acusando-os de terem a mania de dizer mal de tudo. Ao longo dos anos seguintes, o “filho de dois funcionários públicos” revelou uma tendência curiosa para ver o Diabo onde ele não estava e desvalorizar as ameaças apontadas pelos outros comentadores. A maior ingenuidade de Tavares está, porém, na dificuldade em compreender que a dureza do seu vocabulário acerca dos políticos e da falta de empenho destes na luta contra o “problema real, grave, disseminado” da corrupção pode deixar a porta aberta para gente perigosa entrar.

 

 

5. “Não podemos nem devemos esquecer ou minimizar insatisfações, cansaços, indignações, impaciências, corrupções, falências da Justiça, exigências constantes de maior seriedade ou ética na vida pública.”

 

Esta frase não foi dita por João Miguel Tavares, mas sim pelo comentador-mor da República, Marcelo Rebelo de Sousa, que assim descreveu de forma exacta o conteúdo das intervenções públicas semanais de JMT. O adjectivo “constantes” remete, aliás, para o cansaço de alguns ouvintes e telespectadores com tantas referências do alentejano a José Sócrates. A escolha de Tavares como organizador das comemorações do Dia de Portugal foi justificada por Marcelo precisamente com a declaração atrás citada. A surpreendente opção presidencial terá tido em conta a vontade de atrair atenções para o 10 de Junho através da presença de uma celebridade televisiva, em contraste com as figuras respeitáveis mas de escassa notoriedade ligadas às cerimónias anteriores. Todavia, existe uma teoria (que por certo JMT consideraria fruto de uma mente eternamente desconfiada) segundo a qual, ao fornecer um palco a João Miguel, o Presidente daria uma piscadela de olho à direita revolucionária na qual o portalegrense se insere, dotada de grande visibilidade mediática. Trata-se de um dos poucos sectores do eleitorado dispostos a não votar em Marcelo nas eleições de 2021, devido a uma alegada simpatia excessiva do Presidente para com a Geringonça e António Costa. Os membros da direita mesmo direita poderiam escolher outro candidato ou, mais provavelmente, ficar em casa. Nesse sentido, a legitimação do discurso dessa área política através da escolha de um dos seus principais representantes para falar no 10 de Junho contribuiria para apaziguar os anti-marcelistas e convencê-los a evitarem a abstenção. Entretanto, o discurso de João Miguel Tavares teve um forte impacto nas redes sociais, através de sucessivas partilhas e abundantes elogios em páginas como a da Iniciativa Liberal. Actualmente, num contexto de crise do PSD, fracasso do CDS e escassa relevância dos novos partidos de direita, o país do Observador fala muito da necessidade de projectos alternativos, centrados em pessoas novas na política e com discursos de ruptura. No fundo, um arraial right pride conduzido por alguém mais inteligente que André Ventura. De momento, João Miguel Tavares está ocupado, mas em 2026, quando a Carolina, o Tomás, o Gui e a Rita já estiverem crescidos, quem sabe se o exemplo de Sampaio da Nóvoa não dá origem ao movimento TAP (Tavares à Presidência)?

 

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