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Desumidificador

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O enigma de Constança

(Escrevi este texto antes do discurso de Marcelo Rebelo de Sousa. Agora perdeu actualidade, mas fica aqui como curiosidade histórica)

 

António Costa tem revelado por vezes a salutar virtude de não se preocupar demasiado com o que vão dizer dele, visível em atitudes como tirar férias quando Pedrógão e Tancos ainda estavam quentes ou recusar agora garantir que mais nenhuma tragédia relacionada com incêndios acontecerá no futuro. Foi uma declaração corajosa, pois quando as alterações climáticas (nas quais algumas pessoas ainda não acreditam) tornam normais a seca extrema e temperaturas de 35ºC em meados de Outubro e geram incêndios de dimensões até agora desconhecidas, dizer que o Governo pode eliminar a ameaça de um dia para o outro seria mentir aos portugueses. Por muito assustador que pareça, a Natureza torna-se mais poderosa que qualquer esforço humano. Isto não significa que não há nada a fazer, mas sim que as reformas necessárias e a adaptação às novas circunstâncias irão demorar algum tempo.

 

Mais questionável tem sido a opção do primeiro-ministro de manter Constança Urbano de Sousa (CUS) à frente do Ministério da Administração Interna. A permanência de Constança na pasta era admissível durante o Verão, enquanto a urgência do combate à vaga de incêndios dissuadia mudanças bruscas e se aguardavam as conclusões do relatório acerca da catástrofe de Pedrógão Grande. No entanto, a divulgação deste exibiu numerosas falhas e erros de avaliação dos comandos da Protecção Civil, nomeados precisamente por CUS. Faria sentido, portanto, que a ministra assumisse a sua responsabilidade e se afastasse, mas pareceu aguardar-se por uma remodelação próxima na qual governantes desprestigiados como Urbano de Sousa e Azeredo Lopes seriam substituídos. Pouco depois, o saldo trágico do “pior dia do ano” expôs novamente a impotência estatal, enquanto António Costa dava a cara pela sua ministra, ao ponto de não parecer possível removê-la sem perder a face. Como líder do MAI, CUS estará envolvida na aplicação das medidas a aprovar pelo Governo no Conselho de Ministros extraordinário, mas ainda terá força política para isso?

 

Interrogada diariamente pelos jornalistas, Constança Urbano de Sousa mostrou ter estado sujeita a muito stress e nervosismo nos últimos meses. É humano e compreensível, mas não serve de nada para combater o problema em causa, quando as queixas de Constança se tornam insignificantes perante o sofrimento das vítimas dos fogos. Para lá da confiança pessoal em Urbano de Sousa e da resistência a entregar a cabeça dela à direita, talvez Costa tenha em conta a utilidade da ministra da Administração Interna como escudo, na medida em que o ataque cerrado a CUS contribui para desviar as balas do resto do Governo. No entanto, a oposição já ignora Constança, considerada uma zombie política, e levanta a mira para visar directamente o primeiro-ministro. A manutenção de CUS em funções até ao final da legislatura constituiria um autêntico milagre de sobrevivência política. Por outro lado, existe o problema de encontrar um substituto disposto à ingrata tarefa de tutelar a Administração Interna num contexto destes.

 

 

É por vezes difícil perceber onde acaba a indignação genuína e começa o aproveitamento político da tragédia. Desta vez, os adversários da Geringonça, liderados por Assunção Cristas (embora continue a ser o presidente do PSD, Pedro Passos Coelho cede a representação mediática do partido a figuras de segunda linha), recusam aguardar o fim do luto nacional e passam imediatamente à ofensiva. O clima é agora, de resto, mais favorável que em Junho. Afastado Passos, Marcelo Rebelo de Sousa já não precisa de ser simpático para com o Governo, enquanto os portugueses, além do medo, sentem uma fúria legítima e espontânea pela repetição da tragédia, a expressar nas manifestações dos próximos dias. Veremos se a maioria governamental tem resiliência para suportar esta intempérie.

 

P.S. Em 2005, o eleitorado dirigiu-se às urnas para correr com Santana Lopes, mais do que para escolher José Sócrates. Seis anos depois, os portugueses correram com Sócrates. Já em 2011, a maioria dos eleitores, dividida por PS, BE e PCP, optou por correr com Passos Coelho. Espero que um dia António Costa saia pelo seu pé e não por receber uns ténis de presente.