Saltar para: Post [1], Pesquisa e Arquivos [2]

Desumidificador

Desumidificador

O entusiasmo louco das europeias

Os riscos: Apesar do seu estatuto de prováveis vencedores das europeias, Pedro Marques e António Costa serão os políticos mais nervosos no dia 26 de Maio. Uma vitória expressiva que sirva de embalo para as legislativas e liberte Costa do fantasma do “poucochinho” pode ser posta em causa, não tanto pelo PSD, mas sobretudo pelo desinteresse geral do eleitorado. Desinteresse que alastrou ao aparelho do PS, levando vários dirigentes socialistas a gritarem nas entrelinhas “eh pá, mexam-se” durante as últimas semanas. Importa também ao partido governamental combater a ideia de que, como as europeias não são “a sério”, o eleitor pode escolher qualquer candidato de aparência engraçada. Por tudo isto e também devido à falta de desembaraço de Marques, Costa tomou a opção arriscada de assumir um protagonismo especial na campanha socialista e tentar puxá-la para cima (um eventual fracasso será ligado ao primeiro-ministro). Quanto aos restantes partidos, apenas sofrerão danos se as suas votações forem muito inferiores ao normal, o que as sondagens não parecem indicar. No caso da (ou do?) Aliança, que anunciou a fasquia de dois eurodeputados, ficar à porta do Parlamento Europeu frustraria bastante as expectativas do partido e reforçaria a impressão generalizada de que o grito de revolta de Santana conduziu a um flop.

 

 

O tom: Praticamente desde a primeira escolha dos representantes portugueses no Parlamento Europeu, em 1987, ouvem-se queixas relativas à abstenção elevada e ao escasso debate acerca de questões comunitárias verificado em campanhas dominadas por temas nacionais. Na verdade, quer eleitores quer políticos e jornalistas demonstram escassa vontade de acompanhar o estado da construção europeia, um processo demasiado complexo e distante para o gosto geral. Mesmo assim, há que perguntar se isto tinha de ser tão pobrezinho. A campanha limita-se a uma tão intensa quanto vazia troca de mimos entre Paulo Rangel e Pedro Marques, embebida no confronto de memórias dos anos entre 2008 e 2015. Apenas merece alguma atenção o distanciamento retórico entre a autoproclamada “moderação” do PSD e a deriva do CDS, receoso de perder votos para os novos partidos de direita e envolvido numa radicalização interpretada com todo o à-vontade por Nuno Melo, o homem que nunca saiu do PREC. De resto, a rotina quotidiana da caça ao voto tem sido oca e previsível, com raras excepções como a de Rui Tavares, um dos poucos candidatos a apresentar propostas e explicar o que pode fazer em Bruxelas no quadro de uma visão da política à escala continental. Será, no entanto, uma grande surpresa se o historiador for eleito.

 

 

As feiras: Bombos, canetas, slogans, folhetos, bandeiras, peixeiras, senhores de idade, “jotinhas”, piadinhas, beijinhos, apertos de mão, câmaras, microfones, reacções às reacções, diálogos com turistas a leste daquilo tudo. Almoços-comícios, jantares-comícios, piqueniques-comícios, qualquer coisa com comida-comícios. Discursos inflamados reduzidos pelas televisões a excertos de 30 segundos. Dias e dias, quilómetros e quilómetros, visitas a empresas e visitas a empresas. As técnicas tradicionais de campanha eleitoral já morreram há muito, mas os partidos ainda não conseguiram imaginar uma alternativa.

 

 

Os tempos de antena: Exibidos simultaneamente em todos os canais generalistas, os espaços de direito de antena concedem ao seu reduzido grupo de fãs a diversão de ver os filmes promocionais dos pequenos partidos, preenchidos por meia dúzia de pessoas a ler monocordicamente um teleponto. No caso do PURP, vemos uma senhora a usar as velhas folhas de papel, desperdiçando alguns segundos do anúncio a mudar de página. Os tempos de antena dos “grandes” não apresentam uma maior criatividade. O PS ficciona histórias de sucesso no país da Web Summit, aparentemente escritas por Carlos César e que deveriam transmitir alegria e confiança, mas surgem num ambiente mais soturno que o de muitos filmes de terror. Por seu turno, a CDU recorre ao mesmo estilo de comunicação que utiliza desde o Paleolítico Superior e o BE, embora conte com a vantagem da narração de António Capelo, não dispensa os tiques de linguagem inclusivos (“a todos e a todas”, “muitas e muitos”). Nada de apelativo ou interessante surge nas produções audiovisuais dos restantes partidos, à excepção da animação criada pela Iniciativa Liberal. Concorde-se ou não com a perspectiva da IL, esta dispõe da única campanha partidária dotada de imaginação e sentido de humor, elementos raríssimos na actual propaganda política lusa.

 

 

O melhor discurso da campanha: O de Bruno Lage, obviamente.