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O estranho mundo de Cavaco: Parte II

1. Actualmente, sempre que Aníbal Cavaco Silva quebra o silêncio (?) a que se remeteu depois de sair da Presidência da República em 2016, verifica-se um abismo entre o efeito pretendido pelo algarvio e a reacção de desprezo ou indiferença com que o país lhe responde. Uma situação deste tipo verificou-se a propósito das memórias presidenciais de Cavaco, apresentadas nos dois volumes de Quinta-Feira e Outros Dias (Porto Editora). Se em 2017 o primeiro tomo da obra autobiográfica gerou ainda uma certa curiosidade nos meios políticos e mediáticos, o lançamento em Outubro de 2018 do segundo volume, com o subtítulo Da Coligação à “Geringonça” (DCAG), produziu apenas, ao longo de dois ou três dias, algumas entediadas referências jornalísticas e declarações nas quais vários comentadores, mesmo os ligados ao PSD, deixaram claro que tinham coisas mais interessantes para fazer do que ler os desabafos do ex-Presidente. O próprio partido que Cavaco chefiou durante 10 anos parece dominado pelo embaraço na hora de referir o nome do seu antigo líder. Como é que um vencedor de cinco eleições acaba numa tão profunda solidão política?

 

2. Tal como o primeiro volume desta fase da memorialística cavaquista, DCAG foca sobretudo os contactos entre o protagonista do livro e os primeiros-ministros com quem se reunia semanalmente. Recorde-se que a relação entre Cavaco Silva e José Sócrates fora semelhante à de um psiquiatra com um paciente que se revelara incurável. Já com Pedro Passos Coelho, Cavaco assumiu o papel de professor, como aliás reconhece. Porém, as aulas de quinta-feira não pareceram decorrer na universidade, mas sim na escola primária. O prof. Cavaco ficou a princípio agradado com a aplicação e boa educação do jovem Pedro, tão diferente do seu colega Paulo, um cábula incorrigível. Mesmo assim, o mestre teve frequentemente de assinalar com cruzes erros nos testes feitos por Passos, um aluno teimoso sem vontade de fazer os trabalhos de casa e estudar os princípios rudimentares da economia. No que respeita a António Costa, as conversas em 2015-2016 entre o novo primeiro-ministro e o Presidente foram poucas, mas suficientes para deixar claro que teria sido difícil uma longa convivência entre o optimismo irritante de Costa e o semblante grave de Cavaco.

 

3. A trama de DCAG desmente a narrativa de sucesso do período da troika apresentada hoje pelos sectores próximos do passismo, ao relatar numerosos episódios em que tudo esteve à beira de desmoronar, entre os confrontos PSD-CDS e a tentação de desistir que atingiu por várias vezes o primeiro-ministro. Cavaco Silva garante ter apelado a uma maior resistência do Governo às vontades dos técnicos chegados à Portela, apesar de saber que se comentava nos círculos governamentais que o PR não seria tão valentão se tivesse de sair de Belém e sentir o cheiro dos troikanos. O pico da tensão verificou-se na crise política de Julho de 2013, mês durante o qual Cavaco procurou impor o seu velho projecto de um acordo a médio prazo entre PS, PSD e CDS. Nesse sentido, DCAG revela-se a história de um fracasso, já que o consenso tantas vezes pedido por Cavaco acabou por se verificar com intervenientes diferentes dos previstos no guião presidencial. Outro traço permanente ao longo de DCAG é a verdadeira obsessão de Cavaco com o discurso dos jornalistas e comentadores, os mesmos que dissera ignorar no volume inicial de Quinta-Feira e Outros Dias. Apesar de excepções honrosas como Marques Mendes e José Gomes Ferreira, a comunicação social portuguesa caracteriza-se, na opinião do antigo governante, pela parcialidade a favor da esquerda e pela incapacidade de compreender o “superior interesse nacional” perseguido por Aníbal 24 horas por dia.

 

 

4. Após as eleições legislativas de 2015, muitos ficaram com a ideia, sabe-se lá porquê, de que o então Presidente da República foi apanhado de surpresa pelos acontecimentos e reagiu com hostilidade à formação de uma coligação de esquerda. Três anos depois, Cavaco Silva deixou claro que a sua fúria e perplexidade ultrapassaram tudo o que foi imaginado. Aníbal retardou propositadamente a indigitação de António Costa como primeiro-ministro, de modo a que “os Portugueses se apercebessem” da gravidade da situação vivida nesse Outono e de que o chefe de Estado tomava “as precauções possíveis para evitar que acontecesse um desastre” (p. 411). Forçado a ceder pelas circunstâncias, Cavaco faz agora uma avaliação do Governo de Costa idêntica à do Observador. Está no seu direito, mas de um estadista cujos mandatos foram marcados por uma “absoluta imparcialidade no tratamento das várias forças políticas” (p. 509) esperava-se algo mais que a acusação dirigida ao PCP de pretender apenas satisfazer os sindicatos ou a descrição de um Bloco “deliciado com o usufruto do naco de poder que lhe cabia” (p. 434).

 

5. Ao contrário do seu antecessor e do seu sucessor em Belém, Cavaco Silva manteve-se sempre distante dos Xutos & Pontapés e assumiu apenas o seu gosto pelo fado. De resto, Cavaco salienta em DCAG as homenagens que prestou a esse género musical e aos seus intérpretes, deixando de lado a homenagem que não prestou a Carlos do Carmo quando este ganhou o Grammy. Quanto a outros estilos de música portuguesa, se partirmos do princípio de que os concertos nos jardins do Palácio de Belém passavam pelo crivo do PR, Cavaco gosta de ouvir artistas como os Deolinda, José Cid, Luísa Sobral ou Paulo de Carvalho (p. 479).

 

6. Da Coligação à “Geringonça” pode ajudar-nos a responder à questão inicial sobre a actual solidão cavaquista. Relativamente aos partidos à esquerda do PS, a distância é óbvia: Aníbal deixa bem claro que os apoiantes de BE e PCP estão do lado errado da linha que separa as pessoas sensatas dos malucos. Dentro dos socialistas, a já escassa simpatia pelo patriarca da família Cavaco desapareceu de vez após a derrota de Seguro. A direita pode ter encontrado no “seu” Presidente, em certas ocasiões, um aliado contra o inimigo comum, mas a proximidade é apenas aparente. O centro-direita considera o estilo cavaquista demasiado sectário e fechado, enquanto os liberais nunca poderão ver em Cavaco Silva um dos seus, devido à falta de ódio pelo Estado e à excessiva preocupação com aquilo que as pessoas vão pensar reveladas em DCAG pelo autor. Afastado o país político, restariam os cidadãos comuns para acarinhar o homem do povo vindo de Boliqueime. No entanto, os dois volumes de Quinta-Feira e Outros Dias, apesar de pródigos em referências a deslocações de Cavaco a IPSS e empresas, mostram que, na relação entre o país e o então Presidente, era sempre o primeiro a ter de visitar o segundo. O país que conseguia entrar em Belém, contudo, limitava-se quase sempre às delegações da UGT e das confederações patronais ou a economistas com opiniões idênticas às do anfitrião. Entretanto, a memória colectiva preserva ainda inúmeros episódios embaraçosos para Cavaco por este ignorados no texto, entre eles as declarações sobre a exiguidade da sua reforma que deram início a um efeito “bola de neve” através do qual tudo o que o PR dizia só agravava a sua impopularidade. A pouco e pouco, o círculo à volta de Aníbal foi ficando cada vez mais restrito e limitado a figuras como o seu antigo consultor António Araújo, autor de um posfácio onde, apesar de continuar a trabalhar para a Presidência da República, Araújo deixa insinuações no ar com os seus elogios ao acerto das “intervenções públicas ponderadas ao milímetro no tempo e no modo, e também no verbo” (p. 519) do predecessor de Marcelo Rebelo de Sousa.

 

7. O objectivo natural das memórias de Cavaco Silva é fixar a imagem do autor que este gostaria de ver passar para a História. Trata-se, no entanto, de uma pretensão ingénua, tão notória é a diferença entre o personagem quase perfeito de Quinta-Feira e Outros Dias (Cavaco admite apenas que por vezes não terá “sido porventura suficientemente claro” ao explicar as suas decisões) e a realidade já conhecida. O trabalho de um eventual biógrafo de Aníbal Cavaco Silva parece ter de consistir, para lá do levantamento das fontes, na descoberta daquilo que nelas não é dito, uma tarefa destinada a um jornalista habituado a entrevistar fontes anónimas ou pouco dispostas a falar. Joaquim Vieira seria a opção ideal para investigar o passado de Cavaco Silva, mas existe um problema: Vieira segue a norma de biografar apenas homens com sucesso entre as mulheres (Cunhal, Soares, Balsemão, Saramago) e a entediante monogamia de Cavaco não permite antever dados de interesse nessa área.

 

 

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